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sábado, 16 de março de 2013

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: TODAS LOUCAS

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: TODAS LOUCAS: TODAS LOUCAS [i] Eu não sei contar esta história. Ela é cheia de vazios. Aliás, a ausência faz parte da história que tanto quero con...

TODAS LOUCAS



TODAS LOUCAS[i]
Eu não sei contar esta história. Ela é cheia de vazios. Aliás, a ausência faz parte da história que tanto quero contar. Mas afirmo, até para me salvaguardar de condenações: eu não sou nem nunca fui sua testemunha. Sou apenas alguém que ouviu as mesmas parcas informações um monte de vezes. Sou aquela que escutou de olhos atentos esta verdadeira história como se história de assombração inventada fosse.
Mas agora, no anseio de passá-la adiante e me tornar sua contadora é que me conscientizo de que a história que escrevo não passa de um velho enredo, muito mal-contado. Não passa de uma narrativa muitas vezes repetida. É apenas uma história de muitas... De muitas mulheres de um tempo que parece já não haver mais. Entretanto, nem de longe, esta é uma história confusa. Ela tem coerência, porque tudo nela se encaixa, tudo nela se elucida.
Minha mãe é quem sempre narra essa história para mim, embora ela mesma só saiba de parte dos acontecimentos. Tão marcada por essa história, minha mãe talvez nem saiba contá-la. Entretanto, mesmo não sabendo, eu, criança, desde sempre gostava de ouvi-la. Há muitas lembranças, mas estas são aquelas memórias fotografadas em sépia cuja imagem já não tem nitidez nem brilho.
O pior é que essa história esgarçada faz parte de mim, me alimenta, me completa. É um emblema da minha condição feminina. É uma insígnia familiar. A todo tempo, a rememoro, a reinvento, incluo eventos e vou, ao modo meu, narrando-a com as minhas mentiras pontuadas de verdade.
Minha mãe conta de uma tia. Tia Mariá. Irmã de meu avô materno. Até foto, ela tem! Uma mulher magra, de estatura mediana. Na foto antiga, parece ter cabelos castanhos e escorridos, a pele é morena daquele dourado queimado pelo sol. É uma mulher linda, mas toda sua beleza reside no olhar. É um olhar que parece querer seduzir. Mais que isso: é um olhar que enuncia uma consciência de sua própria beleza. Transborda autoestima, determinação, orgulho. Artigos tão incomuns em mulheres que, como ela, viveram na primeira metade do século passado.
Dizem as mulheres da família Sacramento que com ela conviveram que ela tinha o hábito de se arrumar bastante nos fins de tarde e ficar na janela, pronta para encantar os passantes. Gostava de cortejar e ser cortejada. Transcendia ao ser olhada por um outro. Tinha um ar de leveza. E ficava horas intermináveis do dia a olhar para o tudo que preenche a vida lá fora. É que as mulheres do seu tempo só tinham direito ao de casa, ao comezinho. Mas parece que Mariá sempre quisera o que estava além da janela. Ficava a olhar para fora com desejo incontido de sair de dentro e partilhar sua beleza mundo fora, até porque era muita crueldade com ela e com o universo, aprisionar a maravilha que desabrocha.
Minha mãe diz só ter uma lembrança do antes dela. Numa festa do Senhor do Bonfim. Mariá, bem vestida como sempre, levava lépida e transbordando de felicidade, minha mãe já criança grande, pelas mãos para ver a lavagem das escadarias. Invento as duas se balançando com leve delicadeza, ao som de instrumentos afro-brasileiros, em direção ao adro da Igreja. Vejo olhares, voltados para as duas.  Observo do lado de cá da minha imaginação, todos abrindo alas, em contemplação e agradecimento, para a beleza que passa pelas escadas perfumadas de alfazema.
Daí, minha mãe pula para outra parte da história, cheia de frases entrecortadas, confirmando esta como uma mal contada história. “Parece que ela era linda”. “Era muito cortejada pelos homens”. “Foi até miss”. “Gostava de desfilar sua beleza pelos salões maragojipanos”. “Ficava sempre na nossa casa em Salvador, mas depois tivemos pouco contato com ela”.
“É que ela, Mariá, se casou”. Esta é a frase em que minha mãe faz uma pausa, respira, toma fôlego e, em tom de suspense, continua a história. Entretanto, abre-se um fosso novamente. Ninguém fala sobre o marido. Nunca dizem quem era, de onde era, como se conheceram. Só dizem que era um Don Juan. Homem de muitas mulheres, mas obcecado somente por Mariá. Homem, como os de seu tempo, que compreendiam os direitos do macho de ir, vir, deflorar. Mas negavam as suas santas mulheres a explosão do gozo. Falam de um ciúme forte, de um fundo desconforto com a beleza que o seduziu. Falam apenas do silêncio por aquilo que nunca souberam e para sempre desconhecerão.
É importante dizer que Mariá morava em Maragojipe, enquanto alguns dos seus irmãos já tinham vindo morar em Salvador e os outros defendiam que ‘em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher’. E não faz mal lembrar que naquele tempo as distâncias eram maiores (apesar de serem as mesmas) e a comunicação era fragilmente, levada por mãos de carteiros ou por bocas conhecidas. Penso que isso tenha facilitado a existência dessa história mal contada, tal qual ela é.
Assim, por longo tempo, nem cartas nem bocas passaram a noticiar por onde a beleza de Mariá se espelhava. Aflitos, os irmãos retornaram à Maragojipe e lá não encontraram mais vestígios de alegria, de boniteza e muito menos de olhares de luz acesa. Não havia muito o que fazer. Aliás, só era possível gritar, chamar pelo seu nome, dizer aos próximos do sumiço esquisito. Mas o silêncio - entre aqueles que sabiam - imperava. Ninguém, naquele tempo nem neste, quer mesmo se comprometer com a ausência. Ninguém quer dizer o que sabe. Melhor inventar histórias. Melhor difamar. Melhor inquirir. E no dizer de ninguém, o olhar denunciava que algo estranho pairava no ar. O mistério revelava que por trás da ausência só poderia existir uma assustadora e inquietante presença.
Tempos depois de intensa procura, de especulações sobre morte e prisão, Mariá finalmente foi encontrada. Estava residindo numa chácara grande cuja moradia em estilo colonial lembrava o casario da cidade natal. Era em Salvador mesmo. Só que afastada do Centro. Num lugar, bem arborizado e bucólico. Feito para acalmar. Mariá estava no Hospital São João de Deus, conhecido atualmente como Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira. O primeiro hospício de alienados da Bahia. Foi, desde o seu desaparecimento, internada lá, como louca por aquele que era, conforme costume de sua época, na ausência de seu pai, seu tutor: o seu marido. Provavelmente motivado pelo ciúme – deflagrando a loucura que era dele mesmo e não dela.
Como autoridade que era, o marido nunca foi questionado pelo hospital sobre sua decisão. Nunca foi sequer inquirido por médicos ou enfermeiros se a família de Mariá sabia do ocorrido. Nunca aqueles que foram coniventes com sua internação buscaram saber dos familiares de Mariá e muito menos estranharam a ausência de visitantes para ela.
Muito pior. Depois da descoberta pela família sobre o acontecimento, muitos profissionais do hospício afirmavam que Mariá havia entrado completamente sã naquele local. E ainda assim, essas mesmas pessoas silenciaram diante da autoridade masculina e trataram-na como louca, mesmo ela não sendo, mas transmutando-a num ser exatamente assim.
E quando a família pode, finalmente, foi fazer sua primeira visita, anos depois de seu desaparecimento. A bela Mariá de olhar vivo, tal como o marido desejava, já não existia mais. Sobrava uma mulher vestida de trapo, que desconhecia seu rosto e nome, não sabia quem era, nem de onde viera e era incapaz de reconhecer os seus. Visita constante era a de uma cunhada, a minha avó Benita. E pensando sobre essa preocupação de Benita, eu não consigo compreendê-la apenas como mais um ato de solidariedade ou caridade tão comuns a sua personalidade. Na história que invento e conto, Benita visitava Mariá e ainda levava suas filhas Norma, Lúcia e Suely como acompanhantes em sinal de que esta espécie ‘ainda envergonhada’, chamada Mulher, precisa conhecer de fato o que acontece como aquelas que decidem insurgir, se rebelar. Precisa estar consciente do preço que se paga por querer o que está além da janela de nossas próprias casas. Vejo que a intenção de Benita era formativa, era pedagógica.
Minha mãe afirma que os dias de visita ao manicômio marcaram intensamente sua juventude. Estas sim eram lembranças fortes. Sobretudo, porque, por mais que olhasse para sua tia, jamais conseguia unir a imagem daquela linda mulher com quem passeou pela festa do Bonfim com a daquele frágil ser que conjugava momentos de histeria com os de letargia.
E como se não bastassem as vozes entrecortadas de minha mãe, aparecem outras. As das sobrinhas netas, minhas tias, a revirar minha cabeça. Todas Sacramento. Rosinha franze a testa e diz que não tem lembrança alguma. Mas quando, Suely começa a falar uma história confusa, talvez por ser a filha mais nova de Benita e aquela que só viu da história a parte que sua cabeça de criança podia entender, Rosinha começa a lembrar. Aí, vem Lúcia que sempre se lembra de tudo. Ou inventa? Ela diz com certeza que Mariá era linda. Isso todas confirmam. Rosa acrescenta que Mariá tinha um cabelo bonito (e fala isso com o olhar complacente). Aí, Suely diz que Mariá foi abandonada pelo noivo. Minha mãe, minha tia Lúcia, minha tia Rosa – mais velhas – insurgem num uníssono NÃO! Não foi isso. Foi o marido que a amaldiçoou. E ainda travestiu-se de lobo em pele de cordeiro, porque disse a fagueira Mariá que a viagem era para à Bahia, para resolver assuntos importante e passear. Jamais dissera a trágica verdade. E isso fazia parte do plano, porque, ao se embelezar para desfilar na capital, jamais havia se dado conta que ia de fato para o seu maior infortúnio. Só tendo compreendido na porta do hospício que a intenção do marido era outra e ali começou a denunciar uma loucura que faz parte de todo ser.
Gosto de inventar que Mariá nunca cedeu, nem fingiu adequar-se a forma considerada certa de ser mulher em seu tempo e lugar. Até porque quando a gente descobre dentro de nosso ventre todo potencial que o nosso corpo, a nossa emoção e o nosso intelecto têm juntos, torna-se impossível forjar a subserviência, a resignação, a obediência. Só nos resta dar a cara a tapa e enlouquecer! Gosto de pensar que esta foi a saída que seu marido achou para conter o incontível desejo de ser de Mariá.
E é pensando nesta história tão cheia de ausência que eu queria comemorar minha condição feminina. Porque sem a loucura de Mariá, sem sua insistência em se reconhecer como humana, como um ser de direitos, sem o seu desejo pelo o que está fora dos afazeres caseiros ou familiares, eu não teria a ousadia tranquila para fazer isto por mim mesma.
Sei que Mariá não foi a única. Muitas Mariás viveram sob as mesmas condições. Muitas enlouqueceram por sua clareza de pensar. Muitas sucubiram por sua decisão de ser mulher até as últimas consequências. Mas o que importa não é a tragédia do fim, até porque este não há. O que importa para mim nesta mal contada história é que ela ficou. E mais que isso, eu a sobrinha neta a contarei para jovens Mariá-nas e esta história continuará a nos entranhar, a nos ferir, a evidenciar a urgência de a mulher altear olhos e narizes e de se travestir com armas diversas em guerreira.
É Mariá e sua história que me explicam que a loucura é o que nos une. São elas que me indicam que nós, mulheres, desde sempre, não passamos de umas loucas. Porque é loucura mesmo seguir pelo caminho em que não nos contentamos em ser apenas o objeto de desejo do macho. E então, quando me perguntarem de onde vem minha maluquice, minha resposta não será apenas uma paráfrase de Adélia Prado. Será história de verdade, história acontecida. Minha loucura vai até minha tia avó, vai além, vai a minha mil avó! E não tem pedigree!


[i] Dedico este texto a Norma, Lúcia, Sueli, Rosa Emília, Suzana, Vera, Isaura, Maria Alaíde, Ivana, Ione e Marinez!

domingo, 27 de janeiro de 2013

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: O BEM AMADO

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: O BEM AMADO: Sempre que eu realizo uma travessura, invento festa, coloco um bando de gente em minha casa, eu me lembro dele. Em suma, toda vez que ...

O BEM AMADO



Sempre que eu realizo uma travessura, invento festa, coloco um bando de gente em minha casa, eu me lembro dele. Em suma, toda vez que eu faço alguma arte, me defendo, afirmando que estou rendendo homenagem a ele. É porque ele era desses que não aguentava ver a casa vazia num sábado de manhã. Então botava o copo de uísque na mesa, pegava o tabuleiro de gamão e convidava o primeiro que passava a entrar para beber.
Podia ser um conhecido ou ilustre desconhecido. Ele não queria saber. O melhor é que ele evocava o convidado - muitas vezes, alguém que transitava em frente a nossa rua - de uma maneira bem peculiar. “Viado, venha aqui tomar uma”. E o dito cujo entrava em casa, tomava todas e participava da festa. Até porque ele em si era uma festa e a casa com ele estava sempre cheia. Cheia de gente, de alegria, de comemorações, de vida!
Ele sempre foi a fonte de inspiração para as coisas mais felizes que realizo. E o fato é que só convivi com eles os primeiros nove anos de minha vida. Sempre tive (e aos trinta cinco ainda tenho) a sensação de que ninguém no mundo conseguirá me amar como ele me amou. Era o meu grande amigo, o meu grande professor.
Ele era o meu avô UMBELINO SILVA SACRAMENTO. Homem de nome esdrúxulo, mas que sabia sempre fazer de um limão uma limonada, e transformou-se em Belo. Um baiano mulato de Maragogipe, órfão de mãe mais que cedo e que fazia muitas artes. Desenhava, escrevia e era muito mulherengo. Mas defendia a moral e os bons costumes. Apesar de eu desconfiar que bom costume para ele fosse tomar uma, paquerar outras, dançar e se divertir. Era um arteiro que não se importava em ‘perder’ tempo para aprontar com os amigos, tinha idéias mirabolantes para festa e foi o maior responsável por me dar a régua e o compasso que norteiam os meus caminhos.
Tenho certo temor em escrever sobre ele, porque meu avô era nada pedagógico, muito menos politicamente correto. Era apenas uma alma inventiva, com um gosto pela imaginação, pela diversão e, especialmente, pela vida. Era o tipo de pessoa que considerava que só valia a pena viver se pudéssemos beber até a última gota, se pudéssemos nos jogar na vida com intensidade e galhardia. Nunca conheci uma pessoa que tivesse a disponibilidade para viver como ele tinha.
Os mais velhos contam que no nascimento de todos os netos, ele fazia uma festa danada no hospital, servia bebida a enfermeiros e médicos. Uma agonia. Levava flores, a ponto de ouvir um gracejo e ser chamado de La Violetera. Nada imaginável para os hospitais atuais que de tão preocupados com infecções não permitem flores e muito menos álcool. Quando eu nasci, ele fez o mesmo furdunço e gostava de contar a todos que quando a enfermeira me carregou nos braços e me levantou para todos me verem pelo vidro do berçário, ele, sem entender direito, pediu: “Quero ver a cara e não a bunda”.
Depois, ficamos amigos inseparáveis e tínhamos até um bordão. Ao me ver, ele dizia sempre: “Lulu, cara de...???”. E eu respondia: “Cu”. Uma vez, um conhecido dele, ouviu nosso diálogo e me repreendeu, dizendo que isso não era coisa para uma moça bem educada e de família dizer, falou que era feio e eu não deveria repetir tal impropério. Claro que não entendi muito bem tudo aquilo e continuei a me divertir com a nossa maluquice. Tempos depois, fui colega de escola da filha do tal conhecido de meu avô. Uma das piores alunas, extremamente problemática e vista por muitos como uma menina não muito de família. Achei aquilo uma tremenda ironia, já que eu que fui criada num lar onde muitos falavam palavras de baixo calão, onde a festa e a bebida eram a ordem, tinha melhores ‘modos’ do que a menina bem educada por aquele senhor.
Lembro-me ter sido presenteada com um diário rosa, não sei ao certo de quem. Ali escrevi, pela primeira vez, poemas e histórias. E ele foi meu primeiro leitor e, o mais importante, era um incentivador de toda bobagem que em colocava no papel. Só depois, descobri. Ele também gostava de escrever e escrevia. Ele me achava intelectual. Acho que fiquei com essa pecha na família graças a ele. Por outro lado, me via como uma pessoa engraçada e espirituosa. Como minha mãe assumia o papel da boa e mais bela moça da família e minha tia Lúcia tinha a imagem de danada e arteira, ele dizia para mim que eu devia ser filha da minha loura tia.
Ah, ele era um mecenas. É que toda festa (fosse de aniversário, casamento ou, as mais frequentes, a sem motivo datado) tinha que ter uma apresentação teatral ou de dança. Nós criávamos figurino, roteiro, escolhíamos as músicas e ele comprava tudo o que precisávamos para realizar o espetáculo. Lembro de dançarmos “Nós, gatos”, dos Saltimbancos de Chico Buarque e a nada infantil “Ai, se eles me pegam agora”, do mesmo autor, na Ópera do Malandro. Ele era o espectador mais entusiasmado sempre. Era o primeiro a bater palmas e o que jamais via erros ou deslizes.
Ele também fazia o papel de animador infantil. Enchia o carro de crianças para sair, mas a condição era cantar músicas nada educativas. Diria mais: músicas que revoltariam as professoras mais bem intencionadas. Mas nós, por questões óbvias, adorávamos. Eram canções cuja letra era considerada imoral, mas que faziam parte da tradição jocosa e carnavalesca do recôncavo baiano, sobretudo, da cidade onde ele nascera. Então, entoávamos em tom de ópera como um coral de uma família quase boa: “Chamaram meu boi de cu pelado. Cu de ouro é o nome que eu lhe dou. Chamaram meu boi de cu pelado, ouviu. Cu pelado é a mãe de quem chamou. Quando meu boi entrou no picadeiro, a turma lá de trás gritou: cu pelado. Não chame o meu boi de cu pelado ouviu, cu pelado é a mãe de quem chamou”. Vale destacar que terminávamos assim, porque o ‘cu’ era permitido, mas o ‘puta que pariu’ não era. Havia outras canções. Nós cantávamos cada uma delas. Sabíamos a letra de cor e nos amostrávamos, entoando-as com afinco e picardia.
O local mais visitado nestas saídas era a Churrascaria. Era de praxe encher o fundo do velho Opala de crianças para irmos a única churrascaria da cidade, chamada Minuano e que ficava num posto de gasolina. Lá, ele inventava. Dizia que não íamos comer o prato que todos comiam. Iríamos fazer diferente. Pedia ao garçom iguarias como coxinhas de avestruz e sobrecu de onça. E lá vinha o garçom com a bandeja cheia dos petiscos inusitados. Um dia nos apresentou uma moqueca de surica. Era o modo dele, chamar os camarões mirrados, pequeninhos. É óbvio que ele fazia troça com a palavra e perguntava a todos se gostavam da surica, se já tinham lavado a surica. Coisas que deixariam o Príncipe do Gueto, de rosto corado.
Algumas outras vezes, o passeio era na lanchonete que ficava no centro da cidade. Uma vez, e apesar de meu avô ter tido meio mundo de amantes, encontramos o marido de nossa babá rodeado de mulheres que hoje alcunharíamos como ‘periguetes’. Meu avô não contou conversa foi à mesa do meliante, fez um longo discurso com frases do tipo: “enquanto sua mulher está trabalhando, você está aqui bebendo com outras” e deixou o sujeito escabreado de um jeito, que o pobre saiu do bar, deixou as moças de família por lá mesmo e foi bater lá em casa para fazer juras de amor à esposa. Eu, na época, achei meu avô um herói. Hoje, sabendo de histórias outras, sorrio e penso: “macaco, não olha pro rabo”. Esse era ele. E eu o admiro porque ele não era nem de longe o cara correto. Era do bem, mas fazia um monte de trapalhadas, e ainda assim era amado, muito amado por onde quer que passasse.
Numa dessas visitas pela cidade, ele fez amizade com um bêbado. E conversa vai, conversa vem, o bêbado identificou um amigo em comum, um vizinho nosso. Quando estávamos indo embora, o homem pediu que falasse ao conhecido de ambos do encontro inusitado. Foi só aí que meu avô lembrou que apesar de terem bebido e conversado, um não sabia o nome do outro. Aí, meu avô perguntou o nome do bêbado e ele respondeu: “pudim de cachaça”. Rimos muito, porque para ele não tinha aquilo de nos separar e nos deixar numa redoma. A gente participava de tudo e se unia as pessoas que circulavam no universo dele. Embora, ele gostasse da água que passarinho não bebe, nunca vi meu avô bêbado. Eram litros de um uísque que só recentemente descobri não ser uma das marcas mais cobiçadas no mercado. Mas era o que ele bebia: Old Eight.
O fim de semana era sempre uma farra. Chegávamos sempre na tarde de sexta-feira à casa de Lauro de Freitas e retornávamos na noite de domingo. Mas esse momento de despedida tinha sua cor especial. Algumas vezes, estavam os adultos na varanda do fundo a cantar as músicas populares do passado. Ainda posso ouvir o refrão, cantado por aquelas vozes familiares: “E a fonte a cantar, chuá, chuá. E as águas a correr, chuá, chuá. Parece que alguém que, cheio de mágoas...”. Outra lembrança dessas tardes de despedida é opaca, apesar de latente. Meu pai ficou amigo de Valmir Lima que já era sambista, mas não era conhecido. E a esposa do cantor cantava e dançava uma música da cobra (não tem jeito de eu lembrar algum verso) que meu avô adorava, ria muito e fazia parte da fuzarca.
Nós tínhamos um código. Sempre que eu queria alguma coisa, eu afirmava que pagaria com beijos. Milhares deles. Já ele sempre pedia a algum neto ou neto que na hora da sua sagrada sesta, fossem catar piolhos azuis na cabeça dele. Quando o sono chegava de verdade, perguntava: “você conhece Henrique? Então se pique”. E dormia. Era tão sagrado esse momento para ele que foi numa soneca dessas que ele nos deixou para sempre. Sempre dormiu depois do almoço, por no máximo trinta minutos. Mas naqueles vinte e dois de maio de mil novecentos e oitenta e seis, o sono foi mais prolongado e ele nunca acordou.
Hoje, apesar de cansada, por ter revivido na última semana momentos que vivi com ele – enchi a minha casa com treze adolescentes para farrearmos – senti-me impelida a escrever sobre ele. Queria homenageá-lo. Quero justificar que minhas maluquices tem raízes e tradições. Queria muito afirmar que muito do que faço vale como uma oferenda. Mas uma oferenda que não pede, não reivindica. Só agradece.
 Gostaria também que esse fosse um começo de uma idéia de mais escritas. Intenciono escrever as memórias dos outros sobre ele. E faço deste texto uma ponte-convite. Primeiro informo da minha intenção de colher da boca daqueles que tiveram o privilégio de estar com ele a histórias que ficaram em suas memórias. Depois, quem sabe, se a Musa me ajudar, transformar todas essas histórias num livro para circular entre nós.
No fundo, o que importa é que com registro no papel ou sem ele, a mera existência deste senhor na vida de muita gente, fez desta uma existência diferente. Eu diria, pensando na minha própria, que meu avô fez da minha uma existência melhor, mais esperançosa, mais feliz! Fez de mim uma maluca orgulhosa das minhas sandices!

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: FORA DE LUGAR

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: FORA DE LUGAR: Fico pensando em quanto, desde muito tempo, sinto-me fora de lugar. Deslocada de tudo. Sou tachada de chata, perguntadeira, questiona...

TOMARA QUE O MUNDO ACABE EM 2013



Foi tão boa essa idéia de que o mundo iria acabar em 2012. Instaurou uma dúvida em todo mundo, além da vontade, mesmo que inconsciente, de pagar contas consigo mesmo, de realizar aquilo que já não mais poderia ser deixado para depois. Mas o mundo não acabou e estamos aqui de novo com o péssimo sentimento de eternidade. Pois se para o poeta, a modernidade assustava, para mim o que assusta é justamente a perenidade que nos deixa tão seguros e nos faz ignorar que na vida cada ano-dia comemorado não é de vida, mas de morte. É sempre menos um. Nunca mais um!
Então, o que mais sinceramente eu proponho é que a gente acredite que o fim do mundo se aproxima. A gente devia até divulgar isso. Sei lá. Inventemos... Divulguemos que no calendário de algum povo do continente africano, há a informação de que de 2013 não passaremos. Os cientistas da NASA poderiam confirmar a informação a partir de comprovações científicas. Todos ficaríamos assustados no começo, entretanto, sorrateiramente começaríamos a sentir a urgência de viver as banalidades do cotidiano.
Desta forma, nesse ano que se inaugura a gente passaria a tratar cada dia como se fosse o último, porque na verdade é. O dia vivido, quando se acaba não volta mais nem se apaga! Ele deixa de existir, vira rastro na memória e nos lega a incerteza do amanhã. A gente só sabe do passado justamente quando ele se findou. É no presente que olhamos para trás, que nos conscientizamos daquilo que experienciamos.
Certos do fim, iríamos nos preocupar menos com as contas a pagar, com as formações acadêmicas, com os prazos a cumprir. Faríamos menos coisas urgentes e mais coisas ordinárias. Usaríamos cores mais fortes para pintar as unhas e para quem não pinta unhas, inventaríamos um outro prazer bobo. Ou como diria Gil: uma outra alegria de quintal.
A gente se encantaria mais com os pequenos prazeres do que com os enormes sonhos inatingíveis. Não que eu ache que a gente não deva ter sonhos impossíveis. Não que eu ache que a gente não deva gastar suor com metas grandiosas. Eu acho que a gente tem direito a tudo isso. Mas penso que investir cegamente e unilateralmente em comprar um iate ou poupar o primeiro milhão, nos leva a perder os diários amanheceres, os comuns ‘bom dia’ dos amores de nossas vidas, as risadas do fim de tarde, o sabor da fruta madura da estação.
Com a iminência do fim do mundo, perderíamos menos tempo apontando, controlando ou opinando sobre a vida alheia. E assim, passaríamos a respeitar mais os desejos conscientes do outro e, principalmente, faríamos absolutamente nada para agradar ou dar justificativas ou provar algo. Então, apesar da presença inevitável do medo em nossas vidas, não nos faltaria coragem para enfrentá-lo. Não nos permitiríamos mais dizer o não com feição de sim nem o sim com jeito de não.
Dada a proximidade do fim, a vida do outro não caberia no nosso rol de preocupações. A gente iria buscar formas mais genuínas de felicidade. Desejaríamos querer mais voltar à praia que íamos infância de mãos dadas como nossos pequenos do que poupar para presenteá-los com o X-Box da vez! Nem haveria razões para poupar dinheiro, tempo ou sentimentos.
O fim nos obrigaria a viver o agora e a lidar com toda sorte de emoção que emane de nós. No fundo, não creio na possibilidade do mundo acabar. Mas a idéia me parece boa. Crer no fim para não esperar a boa hora de se lançar ao mar. Crer no fim para se jogar na vida intensamente. Crer no fim para valorizar cada começo como se fosse o último! Parece uma boa pedida. Então aos viajantes corajosos e afeitos às maluquices da vida, eis o meu desejo: brindemos a 2013 como o ano do fim!

sábado, 29 de dezembro de 2012

FORA DE LUGAR


Fico pensando em quanto, desde muito tempo, sinto-me fora de lugar. Deslocada de tudo. Sou tachada de chata, perguntadeira, questionadora e, mais modernamente, problemática. Só porque, por alguma razão desconhecida até mesmo por mim, vou sempre pelo caminho contrário. A maré em que me afundo é sempre a que vai contra a corrente.
Meu pai, coitado, foi certamente a minha primeira vítima. Esperava que eu viesse um garoto para homenagear seu pai e fazer seu sobrenome ser levado a, pelo menos, mais uma geração. Mas lá vim eu, com um vazio entre as pernas (e pior dentro da alma). Certamente essa uma das maiores frustrações da vida dele. E não parou por aí. Havia outras que o acompanhariam por toda a existência: minhas escolhas todas (desde as amorosas até as religiosas) iriam seguir para sempre justamente as trajetórias inversas àquelas defendidas por meu pai. Tudo isso muito duro e difícil para nós dois! Mas um fato inegável. Um tentando inconscientemente ferir o outro por aquilo que não veio...
Já na escola, ingressei com um ano e meio, porque minha mãe já era da geração que trabalhava intensamente, mas ainda levava o peso da culpa por não ser a mãe que minha bisavó fora (até porque esse negócio de mulher trabalhar em minha família já não é novidade desde a minha avó materna). Aí, para adentrar os portões escolares era o caos porque eu fazia a maior confusão, chorava, corria atrás do carro materno. Minha mãe conta que as professoras foram investigar a razão da balburdia e tiveram de mudar toda sua metodologia. O motivo era um só: eu, ao chegar à escola, queria contar tudo o que meu avô havia proporcionado de aventura para mim no fim de semana e a escola não me dava espaço. Por isso, botava a boca no mundo, desde muito cedo a reivindicar direitos que nem sei se me cabiam. Minha mãe conta isso toda orgulhosa, dizendo que a escola passou toda segunda-feira a começar sua rotina com uma rodinha de conversa em que as crianças falavam.
Sei lá se é verdade verdadeira. Mas o fato é que a inconformação está dentro de mim desde sempre e também bem cedo aprendi - chorando, gritando ou falando - a expressar essa inquietação e dúvida que tenho diante das coisas que vejo. Eu não me orgulho disso. Primeiro porque incomoda muita gente, segundo, porque fatalmente essa muita gente faz um esforço danado para me fazer ver as coisas como elas acham que deveria ser. Parece inevitável. Acontece sempre. Vou a um filme com amigos e todos gostam. Menos eu!
Tenho alguns apelidos em minha família (uns publicáveis e outros não) para definir meu lugar como a famosa do contra. Na minha casa, me consideram xiita em relação às questões étnicas e de classe. Acham que sou radical, tenho preconceito às avessas; gosto do que consideram as minorias, as defendo ferrenhamente e marginalizo tudo que é designado por eles como centro. Já em outros espaços me consideram burguesa, condescendente, conciliadora. Exigem de mim uma tomada mais radical de posição. E lá vou eu, me sentindo ao longo da minha vida no nem lá nem no cá.
E exemplos abundam em minhas vivências. Sempre gostei de dançar. Na minha infância, por total falta de opção, fiz ballet por alguns anos. Assim, apesar de sempre gordinha e grandona, era a bailarina da casa.   Nas aulas, a professora reclamava. Dizia que eu não era nem delicada nem leve. Coisa que considero óbvia hoje em dia. O que me forçava a me encaixar num modelo do qual eu não pertencia. Era como colocar uma bola numa forma quadrada. Óbvio que não deu certo... O tempo passou, eu cresci, passei a questionar os paradigmas e lá veio a dança afro entrar na minha vida. Me encontrei completamente. Sou defensora apaixonada desta modalidade ainda tão marginal da dança, entretanto, meu primeiro professor dizia: “Querida, dança afro tem que ter força e você é muito leve e delicada. Precisa colocar menos suavidade nestes movimentos”. E eu só respirava e ouvia, até porque nunca consegui compreender como uma pessoa pode, ao mesmo tempo, abarcar agressividade e leveza juntas num só corpo e num só espírito. Porém era desse ‘avesso do avesso’ que me acusavam.
 Se o assunto é religião, então, a coisa se complica e muito. De uma família carola católica, desde sempre, na minha adolescência ia à missa todos os sábados. E prestava atenção, tentava entender, mas ficava super mal porque toda informação gerava uma pergunta, uma dúvida, uma inquietação dentro de mim. Aí, comecei a observar outras religiões e cheguei a conclusão nenhuma. Aliás, só optei por duas certezas: minha total indisponibilidade de me dedicar a qualquer religião e a minha opção por crer em Jesus Cristo. Nem uma vírgula a mais nem a menos. Apesar do total paradoxo desta postura.
Hoje, uma balzaquiana, prestes a deixar de sê-la, lá sigo eu muito culpada por identificar em mim esse comportamento pra lá de adolescente da insatisfação e da má vontade em aceitar os caminhos indicado por outros. Parece que a pirraça irrestrita é um comportamento colado em mim. Sinto me culpada por já ‘burra velha’ ainda discordar de tantas coisas, ainda questionar os mais velhos. Sinto-me uma criança tardia que ainda sofre com mágoas tão passadas, tão infantis. Anos de terapia devem ter servido para curar pouco. E a vergonha aumenta quando me tranco para chorar de uma dor ínfima que nem é a dor da mulher Frida traspassada por um bastão de ferro esterelizador, nem é a dor de uma Cecília, amiga irmã da morte tão prematuramente.
E eu nunca sei (e nem sei se um dia saberei) por onde irei. A probabilidade mais acentuada, entretanto, é que eu continue a seguir por onde sempre segui. Insatisfeita, reclamando, duvidando de todos os caminhos, e ouvindo as insistentes buzinas e os gritos enraivecidos dos demais, sinalizando: “está na contramão, está na contramão”.