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quarta-feira, 8 de novembro de 2023

RODO COTIDIANO

 Sol na rua tinindo

"A alma povoada de sonhos", eu tenho...

 

6:46 Estação aeroporto

CHEIA

Três meninas pretas

Entram leves, lindas

Eu penso feliz

Que pra elas vai ser mais fácil 

Cabelos já livres, roupas escolares

Trocando canetas, lápis

Marcadores coloridos em tons pastéis 

Elas riem, como se riem

Numa intensidade...

Os olhos cheios de uma saúde 

Que muitas de nós sequer

Conhecemos

Estão caminho de um saber

E ensinam que os tempos são outros

Em minha prece-oração

Rezo, agradeço por elas.

 

06:53 Estação Mussurunga

UM MAR DE GENTE INVADE

O mundo todo cabe num trem?

Apesar do tumbeiro

Um homem preto fardado bonito conduz um velho preto frágil 

Orienta que a multidão o acolha e ordena com seu traje cinza que alguém o coloque num bom lugar

Não há bons lugares no camburão...

 

06:59 Bairro da Paz

MAIS GENTE ENTRA

Outro rapaz preto, de cinza ordena, com menos delicadezas:

"Um bom lugar,

O reservado

No camburão"

O menino preto é cego

Usa muletas

E se insurge

Agarrado nas barras de pole dance, ele brada:

" Aqui dentro, não há bom lugar"

E continua desdenhoso:

"Qd tá vazio ninguém cede... N

esse cheio de gente, querem me por no meu lugar...

Como eu chego lá? 

Diz aí, seu moço 

Não estudou física?

Dois, três, milhares de corpos

Não ocupam o mesmo lugar no espaço"

Tb estou na barra de pole dance. 

Do outro lado, as mãos dele tocam as minhas...

No corpo negro do menino cego, uma camisa me devolve a poesia que deixei numa estação anterior...

Agora menos lírica

Mais Engajada

Na blusa dele, tá escrito 

DIREITO UNEB

 

07:02 Imbui

MAIS GENTE

GENTE PRESA NA PORTA

DE TANTA GENTE

A menina branca maquiada de olho claro

Exige que abram alas para sua distinção passar

Os olhos pretos a escarnecem

De nada adianta, mulher!

Tu tá no navio

Ele é negro, negreiro, negrista

Feito para conformar os corpos

É uma aula de como viver fora dali

A lição é condense-se, conforme-se

Vc entrou na lata.

Talvez, num antes, 

fosse livre e grande

Aqui eles acomodam a gente

Encaixam

Encaixotam

E vc sai como queremos 

Dócil, silenciosa, triste

Tu pensa q a sardinha

Era daquele jeito

Antes da lata?

 

 

07:11 RODOVIÁRIA 

EU DESÇO, MENOS GENTE...

MENOS UMA GENTE NO VAGÃO LOTADO

Quem desce

Desce agressivo, inconformado

Para mim, a poesia acabou...

Quando a gente vai sair desse navio, minha mãe?

 

Olho pra trás, num relance,

As meninas da primeira estação, no mesmo tom

Será a juventude que não as deixa esmorecer?

Em silêncio, 

Eu rezo

Que pelo menos para elas

A poesia permaneça.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Ao meu amigo;

 

Confesso que ao saber do seu retorno a nossa única e verdadeira casa, a espiritual, fiquei completamente perplexa. No dia anterior, em minha família se celebrava o amor de dois jovens que, muito cedo, aprenderam que os afetos só valem se carregados de ação, de cotidiano, de reciprocidade. Foi o casamento do meu entefilho (chamo-o assim em total respeito a mãe que o pariu, mas sou mãe dele tb). Eu estava tão em êxtase com aquela dose cavalar de amor que havia recebido no dia anterior que ao abrir meu WhatsApp, ler uma mensagem meio estranha de Mara, eu esbocei zero reação. Fiquei em silêncio. Não saiu lágrima nem palavra. Fiquei no limbo.

 

Depois, ao passo que a ficha ia caindo, eu fiquei com uma raiva de tu, seu safado, que certamente nunca senti nesses longos anos de amizade. Por que nos deixara assim sem avisar? Por que não esperou mais uma confra? Por que não nos vimos presencialmente na pandemia? Voltei ao celular para ler sua última mensagem para mim: “Lu, não corro as ruas pelo mesmo motivo pelo qual não saio à sábado de Aleluia: vai que algum gaiato grita: PEGA! ” E continuava se perguntando porque a “diretoria” já não havia promovido um encontro presencial: “Creio que todo mundo já tomou as quatro doses e, além disso, os seiscentos reais do benefício, já estão no banco. O que falta? ”.

 

Naquele momento, uma tristeza me invadiu. Um sentimento de impotência tão grande e vi que de alguma forma a raiva era de mim, de minhas escolhas. Por que tendemos tanto a procrastinar os cuidados com nós mesmos, a estar com quem amamos? É o excesso de trabalho; são as redes sociais; é a política partidária; é a preguiça por existirmos na superfície. E aí então meus olhos viraram cachoeiras salgadas, ficaram em brasa e eu murmurava já consciente: perdi um amigo, meu Deus, eu perdi um grande amigo. Conheci ali a dor expressa na crônica de Vinícius: “Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! ”.

Mas alguns minutos depois, a nuvem cinzenta sob os meus olhos foi paulatinamente se dissipando em céu claro de verão.... Fui me dando conta que na verdade, eu não perdi um amigo. Pelo contrário, eu tive a dádiva de ter convivido como um grande amigo. Se quem tem amor tem sorte, eu tive a enorme ventura de ter tido a honra de conviver com um homem como Gustavo. Cheguei na UNEB e ele já era um decano, um elegante homem, como uma trajetória imensa na Universidade, tendo sido diretor e professor extremamente respeitado e reconhecido entre colegas e alunos. Eu, aos 28 anos, poderia ter sido tratada com certa indiferença, (a caloura ingênua x o veterano sabido), mas ele me acolheu, se aproximou, brincou, convidou às praças e aos bares, partilhou caronas de idas e voltas pela 242. E daí, de verdade, todo aquele sofrimento pela partida de meu amado Guti se transformou numa celebração tão grande em meu coração, me envaideci tanto de tê-lo conhecido, de termos vivido tantas coisas juntas. Amealhei tantas memórias engraçadas, divertidas, amorosas.

 

Trago apenas três das inúmeras e convoco a quem mais as tiver que as some com as minhas. A primeira é a mais recorrente: na sexta à noite, após a aula, sempre foi certo o nosso desopilar etílico na J. J. Seabra. Eu e as “meninas”, geralmente boiávamos no mais tardar a meia-noite. Até porque às seis horas da manhã do dia seguinte já começava a arrumação na residência docente para o café, para a ida a aula das 7:30 no Campus. Já o horário de retorno de Gustavo era sempre um mistério, a maior parte das vezes, perto do raiar do dia, a porta se abria para que ele viesse dormir. Mas a despeito disso, era muito engraçado ver a nós que chegávamos mais cedo, descabeladas, arrastando correntes para nos animar para as aulas e ele já elegantemente vestido, perfumadíssimo, à mesa do café, cheio de bom humor e picardia, preparado para a lida. É uma pena lembrar que não teremos mais aquelas manhãs de graça, pirraça e fofocas. Pois ele nos contava, paquerador que era, nosso Jose Mayer do Sertão, sobre os namoros, os rolos, as mulheres do seu harém infinito.

 

A segunda memória é sobre o hábito de fazermos festas na RP, na Universidade, de sempre marcarmos nas férias a nossa confraternização natalina num bom restaurante soteropolitano (chegamos a cantar em alto coro no Boi Preto um grito de “Fora, Temer” em pleno espaço da burguesia baiana). As festas depois se desdobravam em inúmeras confras entre Nazaré, Rio Vermelho, Feira de Santana e Lauro de Freitas. Lembro-me que nossas festas na RP eram sempre jantares com bons vinhos e queijos e muita música e risada e conversas filosóficas. Certa vez, sabe-se lá o porquê, organizamos uma festa a fantasia com karaokê. Guti, sempre muito elegante, parecia meio alheio a nossa animação para a festa. Nós alugamos fantasias, arrumamos a casa e ele estranhamente quieto...  Eu particularmente achei que havíamos exagerado na maluquice e ele não iria entrar tão de cabeça nessa onda de se fantasiar. Aprontamo-nos. A festa começou. Notamos com certa tristeza a ausência de Guti, mas começamos a comer, bebericar e a cantar no fundo da casa. Ele provavelmente da forma delicada que agia preferiu nem dizer que não queria a festa nem se expor e optou por apenas não ir, eu pensei. Foi então, que um carro parou na porta de casa, dele saiu um homem de sobretudo preto, um chapéu, parecia encapuzado. Arregalamos nossos olhos. Seria um assalto? Uma assombração? Corremos para a porta de vidro e o perfume chegou para nós antes da pessoa em si. Era Gustavo vestido de Conde Drácula entrando na festa e entregando às convidadas um cartão de visitas com seu nome, contatos e se oferecendo para tirar sangue de uns pescoços femininos. Entramos em êxtase e dali a diversão só acabou quando a Polícia chegou, mas essa é outra história.

 

A terceira memória e nem é de longe a última, até porque tem as impublicáveis. Já que ele nos contava suas histórias de amor, fofocávamos sobre um bando de gente e isso cada uma de nós que guarde a quatro chaves. Mas essa se refere a sua vida docente. Já era professor antigo da casa, respeitadíssimo, chegava e falava com todos os seguranças e técnicos com certa distinção e sabendo o nome de todos. Nunca o vi faltar. Era também professor das faculdades particulares quando pensávamos que iriamos enricar dando aula nas privadas, mas jamais diferenciou a IES pública da particular. Aliás, focou seus esforços nos espaços públicos de educação. Por fim, optou por estar somente na UFBA e na UNEB. Os alunos o adoravam, elogiavam, gostavam das aulas. Numa atividade periódica em Letras, chamada “Esses temíveis leitores”, convidávamos professores da casa para falarem de clássicos da Literatura Brasileira. Gustavo foi falar de “Vidas Secas” e naquele dia encheu nosso auditório com alunos dos mais diferentes cursos, fez uma interpretação pautada no repertório das ciências sociais. Os alunos foram provocados, debateram e se emocionaram com a fala daquele que para eles sempre será o Prof. Dr. Gustavo Almeida. Naquele dia, confirmei como era bom partilhar a vida docente com um amigo que era uma referência como professor, como humano, como cidadão.

 

Finalizo afirmando que não é aquela onda de quem morre fica bom, mas eu realmente só consigo me lembrar de momentos de amor, aprendizagem, respeito, diversão, alegria, intelectualidade, quando rememoro nossas trilhas. Gustavo está na minha vida e isso é inegociável. A vida material dele pode ter sido findada, mas tudo o que ele me mostrou, o que ele amalgamou em mim, permanece aqui luminoso, forte, vibrante, como ele fez questão de ser na vida. Nem sei como agradecer por tanto. Aliás, talvez eu saiba: imitando-o na arte de viver. Celebrar a vida é meu tributo a Gustavo de Almeida Roque!

 

Em 28.10.22 (não por acaso, dia do funcionário público, a sexta-feira derradeira antes da queda do inominável).

quarta-feira, 27 de abril de 2022

A LOUCA

 

Eu atraio gente louca. Ou como diz Suassuna: “como sou do ramo, identifico os doidos logo”. E nem falo metaforicamente, falo de doido com CID, laudo médico e receita tarja preta. Desde menina, seja estudando na Lapa ou transitando por espaços do Centro, sempre eu era abordada por uma dessas pessoas para pedir algo ou até mesmo para conversar. Por isso, atualmente, sou eu a primeira que faz questão de falar, dar bom dia. Assim, minha aprendizagem sobre não invisibilizar essas pessoas se deu porque, de algum modo, eu nunca fui invisibilizada por elas.

Mas entre tantos e tantas, uma delas marcou minha alma profundamente. Ao contrário de Drummond, nunca soube onde ela habitava. Ela era, na minha cidade, a louca folclórica, conhecida por todos, afastada dos lugares e colocada num espaço entre o escárnio e o temor. Eu a via, circulando pelas ruas. Era magra, alta e negra, cabelos escorridos, ora presos, ora soltos. Devia ter no máximo uns 40 anos e transcendia nela uma imperatriz escondida na mendiga. Vestia sempre um maiô surrado e uma canga rota. Nas mãos, levava arames e um alicate. Dizia-se artesã e tentava empurrar a qualquer preço os produtos que inventava. Alguns falavam que ela era hippie e enlouquecera graças às drogas.

Eu sempre a via e de algum modo a respeitava. Um dos lugares onde mais a encontrava era na missa dos domingos na Igreja Matriz. Um dia, estávamos nós quatro, meu pai, minha mãe, eu e minha irmã numa pizzaria. Era um momento bem nosso aos finais de semana e ela entrou no restaurante. De cara, quando percebi que ela se dirigiu a nós, pensei: “vai pedir dinheiro ou comida”. Mas como num passe de mágica, ela rapidamente se recompôs, se empertigou, ajeitou a roupa e dirigiu-se a minha mãe:

- Professora Norma Moreno.

Minha mãe, entre assustada e surpresa, apertou os olhos e tentou enxergar a mulher que vinha antes de a louca ser a louca, ao que no silêncio de minha mãe, ela continuou, com voz mansa:

- Fui sua aluna no Instituto Federal de Biologia. Eu sou Benedita.

Os olhos de minha mãe se arregalaram e eu pude sentir seu coração murchar e bombear sangue até os olhos que rapidamente incendiaram e se alquebraram. Mas como minha mãe não é dada a esmorecimentos, imediatamente, levantou-se, abraçou-a:

- Meu Deus. Me lembro sim. Quanto tempo?

Benedita então conversou como se pessoa sã fosse, lembrando com minha mãe memórias da professora e da aluna. Portou-se com a educação da imperatriz que eu sempre achei que ela era, nada pediu, disse já ter incomodado bastante e se foi... E ninguém pense que ela se curou e voltou a ser quem era. Ela continuou sendo a louca da cidade, praguejando alto, andando suja e drogadiça pelas ruas, ora xingando as pessoas, ora aproximando-se para vender algo sem valor e sem beleza. No entanto, apesar disso, toda vez que via minha mãe era a mesma coisa. Começava dizendo: “Professora Norma Moreno”, parecia voltar a si, conversava com total equilíbrio e seguia vivendo a vida perturbada que talvez para ela se tornara sua masmorra.

É obvio que eu, meu pai e minha irmã, no dia da pizzaria, após a saída dela, fizemos uma imensa cara de interrogação, apesar de termos ficado em silêncio e perplexos durante toda a conversa. Foi aí que minha mãe, boa contadora de história que é, abriu seus fios de tecelã e nos narrou que Benedita era uma jovem pobre que ingressara na Universidade e havia sido uma aluna brilhante, dedicada e promissora. Belíssima como era, despertou o interesse de muitos homens, mas acabara se apaixonando por um estudante de Medicina, jovem também, branco e uma das maiores fortunas da cidade. O desejo foi mútuo entre ambos. Começaram a namorar e, em plena revolução social e libertária dos anos 60, decidiram se unir apesar do repúdio da família dele ao casamento. O noivo a priori decidiu franciscanamente largar tudo e viver com Benedita que logo engravidou. Benedita afirmava amá-lo, mas dizia-se radiante por aquela plenitude que agora habitava seu ventre. Era uma lua cheia de afeto por aquela que daria continuidade a sua existência na Terra. Mas depois, bem próximo ao término da graduação de ambos, ninguém nunca mais os viu. Desapareceram completamente. E circulou um boato de que Benedita havia parido em condições precárias e que a mãe do namorado tinha pego a força a criança recém-nascida e a levado para o Europa. O pai seguiu atrás de sua filha e Benedita, uma Iracema negra, sozinha, não morreu de tristeza, mas jogou-se no mundo em busca da filha. Ao que parece, para sempre, perdeu a filha. Perdeu a lucidez, perdeu o rumo, perdeu-se de si.

E talvez essa história devesse parar aqui porque ela já é triste demais. Mas outro evento com a louca também envolveu a mim e a minha família. Numa dessas missas de domingo, a que íamos religiosamente, ela entrou na igreja muito contrita, sentou-se próxima a nós e permaneceu atenta e entregue a todos os momentos do rito. Na hora da comunhão, entramos todos na fila para receber a hóstia consagrada e ela, como qualquer fiel, fez o mesmo. O padre lá na frente procedia como orienta o dogma e colocava o “corpo de cristo” nas mãos de cada pessoa, entretanto quando se deparou com a louca, de forma agressiva, cenho franzido e lábios rijos em forma de bico, balançou como o ponteiro de um relógio o dedo indicador num retumbante não e, ainda sem qualquer sinal sonoro, chacoalhou as mãos, enxotando-a dali. A louca saiu da fila, voltou-se a sentar próxima a nós, que olhávamos aquilo entre assustados e entristecidos. Ela não contou conversa, começou a bradar num grito mais intenso do que a voz do padre blindada pelo microfone:

- Que corpo de Cristo é esse que não alimenta quem mais precisa dele? Que Igreja é essa que não sabe acolher a única alma aqui que realmente precisa de alimento e cuidado? Que padre é esse que expulsa aquela que mais precisa ser incluída e abraçada?

Meu pai e minha mãe num gesto de proteção foram para perto dela na tentativa de alentá-la. E ela abruptamente pegou o alicate com a mão para atirá-lo no padre. Meu pai a conteve, a levou para fora da Igreja em seus braços, acompanhado de minha mãe e nós duas os seguimos de olhos arregalados. Lá fora, meus pais a afagaram, conversaram tempos a fio, até que ela se acalmou e se foi. Não ficou por aí, meu pai e minha mãe, cristão radicais, sentiram-se aviltados com aquilo, bradavam com certa raiva que ainda que o padre não desse a hóstia, ele tinha que ter sido protetivo e amoroso. Fizeram carta de repúdio para a paróquia, marcaram reunião com o padre e, até onde sei, apenas ganharam uma sacra inimizada.

E a louca, ou melhor, Benedita, eu, ainda jovem, desapareceu de nossos dias para todos sempre. Desapareceu, digo, dos nossos olhos que enxergam a materialidade das coisas, porque nas vistas da memória, ela fincou sua história em nós. Plantou em mim um desprezo por muitas das práticas de religiosos da igrejas cristãs. Mas também por isso me mostrou quem são meus pais e que talvez eles sejam tão cristãos como o foi o próprio Cristo e como nunca foram a maioria de seus seguidores. E mais que tudo isso me fez ver que uma mãe sem sua filha é alguém que nunca terá paz, sanidade, alento. É alguém eternamente a procura, com olhar fixo para o além, perdido num porvir. É alguém sempre disposta a atravessar um oceano para encontrar seu rebento. 

terça-feira, 10 de agosto de 2021

COMO APRENDI COM LUIZ GAMA A ENFRENTAR O RACISMO NA CONTEMPORANEIDADE

 


1.    Propague a história gloriosa de sua família, de seus ancestrais africanos. História bonita não é de rei nem rainha que passa o dia sentado no trono, sendo abanado. Sua avó nunca foi uma ignorante. Ela era uma retada, que sustentou os filhos sozinha e graças a sua lida na terra, possibilitou uma vida melhor a seus descendentes.

2.    Tenha uma meta vital inegociável: a liberdade.

3.    Invista em saber quem você é e afirme orgulhosamente em todos os espaços onde circular sua identidade racial.

4.    Aproveite todas as oportunidades de acesso ao conhecimento. Para nós, muitas vezes, eles são escassos ou subaproveitados. Invista principalmente em práticas de leitura e escrita (essas são tecnologias fundamentais que nos foram usurpadas).

5.    Evidencie de maneira destemida seu repertório intelectual e cultural. Isso vai te dar trabalho, porque num mundo racista, o negro sabido é um boçal. Não se importe, você sabe que não veio ao mundo à passeio.

6.    SEJA O MELHOR EM TUDO QUE FAZ. INFELIZMENTE ESSA AINDA É UMA REGRA NECESSÁRIA.

7.    Não esconda sua insubmissão. Assuma-a com inteligência e honradez. Seja altivo e teimoso. Ainda que pague a juros por isso.

8.    Nunca se ponha “no seu lugar”. Usufrua do direito constitucional de ir e vir. Acesse os espaços que quiser, sem ingenuidades, pois é possível que vc seja barrado inúmeras vezes.

9.    Rompa quando tiver que romper com qualquer instituição e/ ou pessoa que tente o aprisionar ou abafar seu caráter insubmisso (ainda que estes tenham contribuído com vc de algum modo, em algum tempo).

10. Crie uma rede de proteção. Aproxime-se de quem pode te ajudar, ampliar seu repertório, te proteger de situações adversas, mas nunca seja subserviente a essas pessoas. Diga sempre a elas que “dá-se com a mão direita sem que a esquerda veja”.

11. Crie estratégias autônomas de sustento da sua militância. Problematize suas ações, explore rasuras, enxergue e denuncie brechas do sistema.

12. Não permita que qualquer coisa te distancie de sua causa. Nunca se renda. Compre brigas monumentais, mas sempre busque um intervalo para o descanso.

13. Encare os momentos de enfrentamento, tragédias como reviravoltas que marcarão a sua vida e darão outros sentidos a luta.

14. Use a ironia e a sátira para falar de coisas sérias sem aparentemente agredir a quem te odeia, mas dizendo exatamente o que pensa e afrontando quem tem que ser afrontado. Isso não te colocará em lugar de vantagem, mas será um marcador fundamental de seu posicionamento político.

15.  Busque outros caminhos para realizar seu sonho. Luiz Gama publicou literatura e não teve a ressonância imaginada por ele. Foi para o Jornalismo... E revolucionou essa seara da comunicação.

16. Use seus recursos materiais e intelectuais para se aproximar de seus pares e auxiliá-los a chegar no lugar onde você chegou. De nada adianta conquistar um lugar ao sol se estiver sozinho, se não houver mais dos seus usufruindo do “topo da montanha”.

17. Não se preocupe em ter filhos biológicos, se você for um homem ou uma mulher que vive plenamente os desafios de seu tempo, terá sempre uma gente inspirada em seus feitos e honrando sua existência na Terra.

18. O mais importante: se for diabético, pratique exercícios regularmente, nunca coma açúcar ou carboidratos em excesso. Não é justo que uma doença crônica tão cruel não te permita ver seu maior sonho sendo concretizado.


Para os meus alunos de Literatura e Cultura Afro-brasileira (ainda que não gostemos do nome da disciplina), Campus XIII - Itaberaba.

 

terça-feira, 26 de maio de 2020

O CORPO DAS MULHERES COMO PAUTA DO FEMINISMO NEGRO


O corpo feminino sempre foi, para as mulheres, o primeiro território a vivenciar violências. Mais do que a família, do que o trabalho, do que as instituições educacionais ou religiosas, o corpo de mulher, no patriarcado, sempre foi alvo concreto de repressões, retaliações, proibições e marcas. Simplesmente porque não há como se apartar dele. Estamos presas a ele, ele denuncia nosso ser feminino, ainda que sejamos mulheres cis ou trans. Por isso, certamente foi e continua sendo importante pauta do feminismo negro. Entretanto, as questões reprodutivas - o direito por parir, por não parir, por saber quando parir ou o direito ao aborto - sempre vieram na frente de outras tantas questões que cabem no corpo, como a alimentação, padrões de beleza, o repúdio aos corpos gordos, o racismo, a branquitude como ideal de beleza, a obrigatoriedade das mulheres serem sempre jovens. E, por isso, toda uma sorte de violência patriarcal que nos oprime e nos condena acaba por se materializar em estupros, abusos na infância, violência doméstica, exploração sexual etc.
Infelizmente é fato que o patriarcado legisla desde sempre sobre nossos corpos femininos. As mulheres em algum tempo e de alguma forma já ouviram expressões que desqualificam ou seu jeito de vestir ou algum atributo de seu corpo ou algum comportamento ligado a ele. Eu, por exemplo, já ouvi expressões como roupa de vadia, roupa de periguete, roupa de mulher casada. Quando ouço isso, rastreio mentalmente as lojas de departamento que existem onde vivo e me recordo que em nenhuma delas há seções para as putas, para as santas, para as “belas, recatadas e do lar”... As roupas simplesmente estão lá numa seção feminina, o que realmente há é uma segmentação por faixa etária, perfil socioeconômico e por tamanho do corpo. Apenas isso. Ou tudo isso!
Além das vestimentas somos sancionadas sobre os comportamentos com o corpo. Qual menina brasileira no auge da sua liberdade infantil e espontânea de ser não ouviu um “fechas as pernas”, um “senta direito, menina”? Eu, menina, que amava ficar só de calçola, cabelos desgrenhados ao vento, invejava os meninos sem blusa até a eternidade. Lembro de uma viagem que fizemos ao Rio de Janeiro e a imposição de usar blusas dado os primeiros calombinhos de peito. Fui presenteada com um sutien rosa de algodão para amenizar o desejo infantil de andar sem blusa pela paisagem carioca. Ali, as fotos comprovam, estou eu menina moleca no Corcovado só de sutien de algodão e os cabelos crespos ao vento bem livres. Apesar de uma acentuada liberdade infantil, havia a censura: “Isso é um sutien, menina, tem que botar a blusa”.
No depois, tantas observações sobre o meu corpo de mulher. Eu, ainda menina, mas já grande e cedo ouvindo: “corpo de moça, hein?!?!” Não entendia objetivamente o sentido daquela fala. Com o tempo, ao viver as primeiras emoções de andar sozinha para ali e acolá bem pertinho (comprar um pão, quem sabe?) comecei a entender esse incômodo de ter tão cedo o tal “corpo de mulher”. Eram os assobios de homens, já velhos até, eram os gracejos sem graça ou os apelos pretensiosamente pornográficos e vulgares. Hoje na vida adulta, usando meu crachá de feminista e me afirmando identitariamente como mulher negra, não sigo o rito. Não faço conforme o combinado, porque a ordem quando ouvir as cantadas masculinas na rua é usar sisudez, fazer cara de séria. E eu só tenho vontade de explodir em risada, de tão bizarras que considero as cenas. Queria que o patriarcado não existisse para eu dizer: “Venha cá, velho. Você...  Você mesmo aí... Me chamando de gostosa, dizendo querer chupar a manga que carrego entre as mãos como se fosse a que está entre as minhas pernas... Você acha que essa é a melhor técnica de convencimento para atingir uma relação sexual ou você só quer me constranger mesmo”? Ou: “Quando vc diz: que saúde. Você acha que eu já não sei que sou uma pessoa saudável”? Ou: “quando você diz: vou te chupar todinha, você acha que minha libido vai explodir em êxtase e eu na rua mesmo vou transar com você”? Juro que queria segurar esses homens, olhar dentro dos olhos deles e aguardar a resposta que viesse. Desconfio que fugiriam de mim e me chamariam de louca, puta ou má. Assim, como por outra via, eu, jovem estudante de Letras, passando diariamente pela Lapa, quis olhar fundo nos olhos daquele menino negro, vendedor ambulante, que me disse entre risos: “você não anda, você desfila”. Eu o teria namorado, sim. Se não houvesse machismo... Simplesmente porque aquela cantada me fez mais mulher, não me feriu, nem me ofendeu, nem me invadiu, apenas levou poesia para meu dia.
E se falarmos de práticas sexuais, a questão não se apazigua. Pelo contrário, o problema se potencializa. Os meninos desde sempre cobrados ao namoro e ao sexo com uma mulher, já as meninas sempre sugeridas que deixassem tais práticas para cada vez mais tarde. Isso me trazia uma questão: se os meninos devem transar logo cedo em relações heterossexuais e as meninas devem retardar essa prática, com quem eles transarão? Na minha adolescência, virgindade ainda era um valor para as mulheres. Um valor diferente da época da minha mãe. Ser virgem era um problema para a minha geração. Era importante experienciar o sexo antes do casamento, mas não se podia ter muitos parceiros. Os meninos eram incentivados a não ter namorada fixa, a trepar muito e com diversas mulheres. O que só comprova que o sexismo também dificulta a vidas dos homens porque os obriga a ser uma máquina de sexo que está à disposição de toda e qualquer investida de uma mulher.
Já as mulheres deveriam se preservar, não podiam ser fáceis. Transar no primeiro encontro? Nem pensar. E essa conta não batia. Para eles, possuir o selo de “os putões” era uma qualidade. Para nós mulheres, ser puta era e ainda é tratado como um demérito. E tome-lhe idealização do masculino pelas mulheres, tome-lhe ficcionalização pelo homem perfeito. Muitas mulheres ainda esperam um príncipe encantado... E com o avanço da nossa presença na esfera pública, o crescimento nosso no mercado de trabalho e nas formações especializadas/ acadêmicas, muitas de nós travamos quando percebemos que nossos candidatos a companheiros não têm os mesmos salários que a gente, não galgaram a mesma titulação stricto sensu que a nossa ou não avançaram tanto profissionalmente como nós. Muitas de nós se intimida em ser a provedora de uma casa, porque simplesmente ainda anseia ser tutelada, cuidada pelo macho. Ou melhor, salva da torre por ele para ir viver no castelo dele. Isso sim, um perigo. Entretanto, homem nenhum por mais intelectualizado ou abastado financeiramente que seja se constrange em casar com uma mulher mais pobre e/ou com menor grau de instrução que o dele. Para o machismo, uma mulher casável só precisa ser bonita, a partir da ideia de um binômio absurdamente limitador: se bonita, burra X se inteligente, feia e perigosa.
E aí vem outro elemento opressor para as mulheres: uma certa obrigatoriedade em ser bela e leia-se ser bonita como aquela que se conforma ao padrão estabelecido de beleza. Havia um pagode que descrevia um indivíduo feminino com aspectos designados pela voz narrativa como feiura e um dos versos afirmava: “ela não era uma mulher, era uma assombração”. Ou seja, se não possui a beleza normativa sequer o signo de mulher pode carregar. Eu mesma vivi essa dicotomia que foi mais um motivo para me afastar do corpo. Na minha casa, havia essa diferenciação entre mim e minha irmã. Eu, a inteligente e ela, a bela. Isso gerou uma disparidade nociva entre corpo e intelecto, isso rompeu com o caráter holístico de todo indivíduo que, hoje sei, abarca em si inteligências, belezas, comportamentos, espiritualidades. Tudo junto e misturado. Tudo no plural. Somos mais complexas que uma coisa ou outra e ninguém condensa em si a completude de uma coisa só. Também ouvi por vários segmentos da cultura que os homens teriam medo ou repúdio a mulheres como eu. E eu na minha insegurança achava que falavam de uma possível falta de beleza minha, mas na verdade, queriam afirmar que minha capacidade de me posicionar, meu potencial para estar com segurança nos espaços públicos e minha autonomia gerariam certo desconforto aos homens imersos no patriarcado. E o pior: era verdade!
Sempre lembro das recorrentes listas das dez mais bonitas da escola como fator de opressão. E pensar que elas ainda vigoram nas academias, nos locais de trabalho. Antes, eu ficava curiosa para saber quem aparecia nelas na esperança de me ver lá dentro. Nunca tive coragem de saber se eu havia sido uma das eleitas. Agora finjo as ignorar. E a palavra é fingir mesmo, porque elas continuam me inquietando e me chamando atenção. Quando alguém me fala da existência das listas, logo penso que se eu não estiver dentro dela, vou ficar mal, porque não estarei sendo considerada bela e beleza é sim para mim aspecto importante. E também penso que se eu estiver dentro dela, eu também ficarei mal, porque se as listas obedecem ao normativo, caso eu esteja nelas é justamente porque estou formatada, adequada, conformada a um padrão que recrimino.
A parte pior e talvez mais vexatória é que essas listas são produzidas por homens, completamente defensores do sexismo e do patriarcado. E pasmem? A maior parte deles misóginos, ou melhor, podem até gostar de buceta, de trepar com pessoas que tem vagina, mas não gostam de mulher, não gostam do cheiro, das conversas, dos comportamentos, da existência feminina. Admiram mesmo, coçando seus sacos e cuspindo no chão, os homens e uma pretensa força bruta inventada sobre eles. São “homossocializados”, ou seja, mulher é um detalhe na vida deles, pois o que amam mesmo é se agregar entre seus iguais. E dentro do padrão de beleza masculina, a maior parte dos homens que conheci que faziam essas listas eram baixinhos, barrigudos, carecas, cheios de espinha na cara, eram feios para a normatividade de beleza masculina. Mas ainda assim se sentiam poderosos para definir quem eram as mulheres belas, as aceitáveis, as casáveis, as trepáveis...
Tardiamente, confesso, passei a considerar meu corpo e a beleza física como aspectos fundamentais da existência humana. Por longos anos de minha vida, desprezei falsamente tudo isso. Investi fortemente no intelecto e tratei como superficialidade tais questões. E até dizia que mulheres que se importavam com isso era fúteis e serviam ao patriarcado. E até podia ser. Mas eu na verdade, não estava sabendo compreender meu próprio discurso. O que eu queria dizer e não sabia é que meu combate não era a beleza e ao meu corpo físico. Minha briga era e é cada vez mais com a normatividade, com um padrão imposto como único e verdadeiro e este padrão vem a ser o da branquitude, da magreza, da juventude. Digo e repito isso didaticamente para que “entendedores entendam”.
Essa minha demora em considerar meu corpo de mulher como elemento fundamental da minha plenitude tinha um motivo legitimo. Hoje, sei. Eu o negligenciei por medo. Eu o calei e coloquei meu mental a frente dele, como medida protetiva. Não tolerava ser associada a alguém vazia e precisava lidar com a esfera pública com elementos como segurança, expressividade, coragem, ousadia. Não podia ser confundida com uma mulher bonita e sem conteúdo. Como se essas duas forças precisassem ser antagônicas ou precisassem uma anular a outra. Ouvi de uma colega que muito admiro, mulher negra, professora de um idioma estrangeiro, que costumava usar roupas antiquadas para dar aulas, para não ser desrespeitada, ou melhor, descreditada por parte dos alunos. E eu pensava: “será uma questão de gênero ou raça”? Eu mesma, certa vez, e já com outra perspectiva sobre tais questões, fui convidada a ministrar uma palestra sobre os resultados da minha tese na UFBA. A professora que me convidara, apesar de nunca ter estado comigo presencialmente, tinha lido meu trabalho na internet e o considerou interessante. Ela, uma mulher mais velha e branca, ao me ver, olhou-me de cima abaixo e me perguntou: “Você é mesmo, Luciana Moreno? Tão jovem". Eu apenas ri. E eu já contava 37 anos.
No agora, pela busca em torno do meu ser mulher e por questões de saúde, passei a me dedicar com certo constrangimento a alimentação saudável e a atividade física frequente. Falo desse constrangimento porque ainda permanecem em mim e fora de mim certa cobrança pela polaridade: como uma pesquisadora, doutora, professora da Universidade, pode ter mais fotos com roupas de malhar e de biquíni nas redes sociais, do que fotos com os trajes designado estereotipadamente para as professoras? Me inquirem. Como uma feminista negra pode dar tanta atenção ao corpo? Como se essas práticas de autocuidado e de consideração central do físico não fossem também importantes pautas do feminismo negro...
Mas confesso que ainda me aflige pensar que o normativo quando se fala em beleza do corpo feminino está associado a uma pele quanto mais clara melhor, a um cabelo liso ou alisado, a narizes finos, a olhos azuis ou verdes. Me preocupo quando me estresso com os meus fios brancos que já insistem em denunciar que já passei dos 40. Nem sei se me aflijo mais com os fios ou com a minha própria neurose em escondê-los. Essa insatisfação significa que envelhecer não cabe na norma de beleza. Numa fase de pouco autoamor, ouvi de uma colega aparentemente feminista, ao ver meus cabelos não pintados, que eu corresse para empretecer os brancos porque aquilo me fazia parecer desleixada. Certamente, ela não diria o mesmo das garotas escovadas e com mechas, que apesar dos cabelos poucos saudáveis, sujos, enfraquecidos e cheios de química se adequam mais ao tal do padrão. Por fim, sempre olhei para mim - uma mulher nunca magra, sempre cheia de pernas, braços e bunda - com dúvidas e temores. O 36 tão sonhado nunca vi passar pelos meus quadris que no auge da minha rara magreza comportam apenas o 42. Me entristece ver as fotos da minha infância e adolescência em que eu me julgava uma pessoa imensa, e eu era apenas uma menina com largos quadris, pernas e braços longos, seios fartos. Tinha no máximo um sobrepeso que não me prejudicava a saúde física, mas massacrava minha saúde mental.
Tenho uma amiga negra um pouco mais velha, com sobrepeso e solteira que diz de forma jocosa uma violência sofrida... Ela afirma que na Balada quando vê jovens, magras e brancas, fala para si mesma: “fudeu”. Então, espera os caras escolherem as brancas, depois as magras, depois as jovens. E ela fica num dos últimos lugares da fila à espera de um boy que a deseje. E eu fico a pensar se está no campo do desejo mesmo esse preterimento a ela. E chego à conclusão que a tardia escolha por essa amiga nas festas se dá mais por racismo, gordofobia e questão de faixa etária do que por ausência de afeto, atração física, tesão, excitação.
Uma das provas disso é que essa amiga não tem namorado, mas ela trepa muito. Ela tem muitos amantes. Mesmo na solidão de seu apartamento, está sempre com uns boys, seja em casa, nas redes sociais ou na rua. Os caras a procuram, ligam para ela. Ela tem uma vida sexual bastante ativa, mas tem dificuldades para arrumar um namorado, um companheiro, um esposo, um marido seja lá como se nomeie essa pessoa que além de trepar com você trancafiado nas paredes de um quarto, também desfila com você nas ruas, te apresenta para a família e muda o perfil de relacionamento do facebook.
Então, eu penso que há uma contradição aí, porque esses corpos femininos fora do padrão hegemônico atraem o desejo e também o afeto do outro para si e atraem muito. Essa amiga diz que quando quer dar um basta naquele cara que sempre a procura para sexo que já não se pode mais ser considerado como casual, dada a frequência, os caras simplesmente enlouquecem, fazem cena de filme romântico americano, prometem amor eterno. E eu me pergunto: se fazem isso, porque não assumem essas mulheres para além do espaço íntimo, ainda que elas queiram? Então, eu reafirmo que essa não escolha pelas mulheres pretas, gordas, mais velhas não se dá na maior parte das vezes pela ausência de desejo e afeto, mas sobretudo por algo mais do social do que do íntimo. Também entendo que quanto mais a gente fala disso mais mulheres negras, gordas e mais velhas questionam o padrão excludente, tomam a ideia de beleza para si e rompem com o sexismo, se vendo como bonitas e defendendo seus próprios padrões de beleza.
Eu sei que mulheres brancas, magras a até jovens também possuem reclamações legítimas. Nenhuma mulher cabe em padrão tão limitante e irreal, nem as super top moldels. Elas também são achincalhadas quando escapa nas fotos uma estria na bunda. As fotos delas também passam por uma série de aplicativos para a adequação de seus corpos pretensamente perfeitos. Mas há de se pactuar que umas mulheres – justamente por questões de raça, classe e faixa etária – são mais preteridas que outras.
Nesse caos repressivo por qual os corpos femininos têm passado na história do patriarcado, há um reencontro. Aliás, um enamoramento. E essa paquera sensual, erótica e intensa é de mim para o meu próprio corpo feminino. Nada tem a ver com estratégias para potencializar o desejo do outro – geralmente um macho – sobre o meu corpo. O fato é que a duras penas e olhando para o meu corpo sem véus nem subterfúgios, comecei a perceber que há um corpo que me abriga, me acolhe, me conforta. Há um corpo no qual me sinto segura e dona de mim. Esse corpo não está dentro da normatividade, porque ele não é magro, não é branco e não é mais tão jovem. Entendi – ou inventei – que esse corpo tem que ser fora de qualquer padrão mesmo, porque a ordem do universo é a diversidade e só existe uma eu no mundo. Eu não caibo e me esforço para nunca querer caber num padrão, seja ele da superioridade magra ou do empoderamento gordo, por exemplo. A minha terapeuta sempre me chama atenção do quanto eu quero me filiar a esse ou outro bloco e a resposta talvez seja eu perceber que o meu corpo de mulher pode muito, ele é livre, não cabe em caixas, não tem limites.
Entretanto, se eu parar por aqui, terei uma visão ingênua e descontextualizada, pois ao mesmo tempo que meu corpo é livre, eu vivo num mundo que não é livre, que é sexista, patriarcal, racista, gordofóbico etc. Para além disso, vivo num mundo onde pessoas enriquecem construindo limites e insatisfações sobre e para o meu corpo. Por isso, esse corpo livre também precisa ser político e se rebelar. Esse corpo precisa perguntar-se a si mesmo e lançar perguntas ao mundo sobre as razões de tantos limites, repressões e violências. Esse corpo precisa não se conformar nem se confinar. Ele deseja se expandir e se afirmar cotidianamente.
Não querendo desdizer o que eu já disse antes, afirmo: não descarto o outro como fundamental para eu me assenhorar do meu corpo. E no meu caso, esse outro ou esse alguém que eu quero despertar o desejo sobre o meu corpo é geralmente um homem. Que como diz uma amiga minha: “homem é bom, mas eu não recomendo para ninguém”. E eu não recomendo justamente por esse homem na maior parte das vezes estar imerso no sexismo,  ser defensor de um padrão e juiz da normatividade dos corpos femininos. Eu não quero isso para eles também. Não quero que os corpos deles sejam escravizados por uma norma de beleza masculina. Até porque no meu ideal de beleza dos homens para além do corpo físico, me chama a atenção a inteligência, a sensibilidade, o bom humor, a sedução.
Só que apesar da minha identidade ser construída também a partir desse olhar masculino, eu sei que esse processo de afirmação de mim não só perpassa pelo olhar do outro. Eu descobri que invisto fortemente no corpo que me sustenta não apenas para mero prazer do macho. Quem se deleita e goza no meu corpo sou eu mesma, por isso, devo tratá-lo como um templo sagrado, como uma pauta política e ideológica de minha existência. Meu corpo é pauta do feminismo negro e cuidar dele e amá-lo e querer que ele seja saudável e pleno é uma ação política. Não é justo que, tendo cinquenta trilhões de células que desempenham inúmeras funções no espaço do meu corpo, eu o negligencie, o maltrate ou o violente, prendendo-o a padrões limitadores e até impossíveis de me encaixar. Deus me livre de entrar numa fôrma e aniquilar a liberdade deste lugar que é a única morada de minha alma.