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domingo, 14 de fevereiro de 2016

FESTA EM TRANSE




O Carnaval de Salvador sempre foi uma expressão máxima de suas classes populares e seu encantamento vinha, sobretudo, dessa força genuína. Todavia, a sua transformação em bem de consumo começou a atrair os olhares e interesses da indústria capitalista.
Na Bahia, tal atenção forneceu uma renda vultosa a muitos artistas, políticos e empresários, mas se transformou num ciclo que, praticamente, asfixiou o que dava vida ao evento. Empresários começaram a “camarotizar” o Carnaval, ou seja, investiram pesado em estruturas físicas com caros restaurantes e serviços que iam desde cinemas a massagistas, em espaços privados, com sistemas por eles denominados de all inclusive, a preços exorbitantes. A maior contradição é que, apesar de ambientados no circuito carnavalesco, os clientes desses locais se enfurnavam neles e mal assistiam àquela que um dia fora intitulada de maior festa popular de rua do mundo.
Outro fenômeno era o interesse de cantores e bandas baianas, profissionais mais do consumo do que da arte, em integrar o staff dos camarotes, legando a festa atrações desconhecidas e/ou sem o reconhecimento popular.
Simbolicamente, a violência é maior. O povo, que inventou a festa e que dá o tom dos ritmos e das canções, estava mais na margem do nunca. O sonho da felicidade, ainda que efêmero, havia sido alijado para os mais pobres. É óbvio que os governos baianos (municipais e estaduais), responsáveis pela festa, eram coniventes com tudo isso. O pior, a população baiana, sem condições de pagar pela inclusão em tais ambientes privados, ficava espremida nas ruas, sem sequer ter onde brincar, porque a abundância de camarotes gerava uma diminuição do espaço físico nas avenidas.
Atrelado a esse contexto, para os blocos afros, afoxés e aqueles que oportunizam espaços às classes populares era reservada a madrugada como único horário disponível de apresentação. As falas sobre segregação e até apartheid no Carnaval baiano apareciam nos principais veículos de comunicação do país. Nomes como Ivete Sangalo, Bell Marque e Durval Lelis defendiam que o evento deveria ser in door. O argumento maior para o fenômeno era que as classes média e alta temiam a violência das ruas. Portanto, era em nome da segurança individual e coletiva que as pessoas pagavam convictas por este serviço. O pretexto, na verdade, constituía-se em uma tentativa de tornar a festa mais rentável para alguns; em suas entrelinhas, o interesse dos clientes e empresários era elitizar o Carnaval baiano. E no Brasil, e principalmente na Bahia, isso significava embranquecê-la. Significava vendê-la para os turistas.
Entretanto, outra transformação começava a acontecer. Observava-se que os soteropolitanos começaram a debandar da cidade no período carnavalesco. Abundavam as meninas de salto agulha e cabelo escovado, fardadas dos abadás dos camarotes, ladeadas de garotões malhadões, pousando mais para as fotos das redes sociais do que se entregando ao êxtase da festa ou à “chuva, suor e cerveja”, cantada por Caetano, ocorrendo, assim, seu quase total esvaziamento.
Assim, quanto menos os soteropolitanos procuram a festa, mais artificial ela se torna, e aí, acaba por desagradar aos turistas também. Sem compradores de dentro ou de fora, os preços passam a ser menores. Decaem-se as vendas e a mesma indústria que praticamente destruiu a festa inventa estratégias de reanimá-la. Pouco a pouco, o Carnaval soteropolitano tem dado ares de fênix e evidenciado o seu tom educativo, pois, ao perder seu brilho, ao decrescer a participação popular e, proporcionalmente, aumentar os índices de violência, forçou muitas mudanças.
 Muitos blocos carnavalescos começaram a deixar de usar as cordas; o ministério público tem acompanhado e buscado evitar o péssimo tratamento dessas empresas aos cordeiros, uma espécie de seguranças da festa. Ocorreu a paulatina diminuição do número de camarotes e também um maior controle dos espaços da rua que eles ocupam. Hoje existe a revitalização de alguns circuitos, o retorno do Carnaval nos bairros populares com atrações localmente conhecidas, o incentivo a participação dos blocos afros e de índios em horários diurnos.
Esse conjunto de ações ocorreu graças a pressões populares e à união dos poderes públicos e privados. Isso diminuiu os índices de violência e fez com que os soteropolitanos voltassem à festa. Mas há ainda muitas mudanças a serem implementadas. A principal delas nem é na festa; é nas relações sociais que imperam no país, pois a desigualdade que se evidencia no Carnaval de Salvador faz parte da histórica conjuntura brasileira em que as classes trabalhadoras utilizam, às vezes, servilmente, suas forças para sustentar as regalias de uns poucos endinheirados e poderosos.
No mais, a lição que fica dessa história de ascensão, queda e tímido renascimento de uma festa popular tão rica quanto o Carnaval baiano é que o povo, o ator principal da festa, tem poder. Sem sua participação zombeteira, intensa, que inverte papéis socialmente impostos (de gênero e de classe, especialmente), sem a possibilidade da catarse e do sonho que o evento evoca esvazia-se seu sentido. Fica a lição a ser aprendida: este é um evento pedagógico, que nos evoca o poder popular, através da arte e da festa, e assinala o quanto tais manifestações nos ensinam a conviver com a diversidade, nos exortam a vivenciar o corporal, sem temer o suor, a carne, a sensualidade.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: À INCANSÁVEL!

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: À INCANSÁVEL!: Sempre que penso nela, fico confusa, porque desde o início da sua história de vida, ela rompe paradigmas. Contra tudo e contra todos...

À INCANSÁVEL!




Sempre que penso nela, fico confusa, porque desde o início da sua história de vida, ela rompe paradigmas. Contra tudo e contra todos, com a ousadia que lhe é peculiar, a menina religiosa da ilha casou-se com um homem desquitado, mais ou menos na década de 50 no interior da Bahia.
Neste tempo, viveu uma vida, como ela mesma afirma, de conto de fadas. Porém, esta foi logo interrompida, pela morte do amado, após sete curtos anos de casamento. Daí, experienciou tristemente sua viuvez. De certa forma, fez como “escolha-penitência” viver em prol dos seus. E deles cuidou, mas também interferiu em suas vidas. Foi quem curou. E muitas vezes, inconscientemente, foi quem feriu. Porque qualquer um cuja chaga está aberta e sangra jamais pode sarar o outro sem deixar escapar o sangue que escorre em suas mãos de cuidados.
É comum muitos falarem dela com um misto de admiração e rancor, graças a sua forma incisiva e radical de defender seus posicionamentos. Apesar disso, acho que todos a reconhecem como a pessoa que os ajudou a ser quem são; que os deu a mão derradeira e os amou incondicionalmente.
É uma Aracne genuína. Costuma dizer que vive do que costura. E assim é. A tecedeira ousada escolheu percorrer sua trajetória, desafiando quem cruzar seus caminhos, fossem deuses ou rainhas!
Na minha adolescência, tinha medo e um pouco de ciúmes dela. Sempre me chamou de princesa, apesar disso não cansava de falar o quanto eu deveria emagrecer para entrar nos belos vestidos de noiva que costurava e o quanto deveria espichar meus cabelos duros para parecer-me com a princesa dos contos. Ela também insistia que devíamos ter modos e saber de etiqueta. Mas até hoje junta farinha nos caldinhos de comida que sobram. Dizem que ela come de mão. Eu jamais afirmaria isso. Vai que este texto cai nas mãos dela...
Com o tempo, aproximei-me mais dela. Não por ser o que ela impunha, mas justamente por defender ser o que eu queria ser, que era uma forma de seguir os caminhos que ela mesma havia trilhado: o caminho de ser quem é de cabeça erguida. Talvez ela nem desconfie, mas eu acho que, no fundo, é uma feminista de carteirinha. Nunca foi acanhada. Pelo contrário, é a pessoa mais altiva que conheço!
Hoje, essa mulher envelheceu e eu tenho por ela um amor convertido em carinho e admiração que são enormes. Tenho descoberto nela uma graça irônica que está também presente em mim. Deixou de ser a costureira das ricas socialites estrangeiras. Disse que a última costura que faria seriam os vestidos de casamento meu e o da minha irmã. E assim os fez: impecáveis, como os de princesas que nos convenceu a sermos.
Agora, virou construtora. É uma trabalhadora incansável. Construiu das cinzas e do terreno abandonado um condomínio. É uma João Romão de saias. Sai às cinco da manhã do bairro nobre onde mora, pega vários ônibus (não por causa da distância, mas simplesmente porque como tem passe para idoso e não aguenta esperar os enormes engarrafamentos soteropolitanos, ponga de um ônibus a outro para ver se chega mais rápido). Lá, faz de um tudo: constrói, se precisa construir; cobra se precisa cobrar; briga se precisa brigar.
Sua idade é guardada em sigilo. E não é por vaidade feminina. Ao contrário. Ela precisa parecer mais velha (apesar de ser mais nova) para assegurar seu lugar de matriarca da família.
Sua ousadia já virou mito e piada. É católica apostólica romana. Religiosa em excesso, para ela todos os dias às dezoito horas, esteja onde estiver, é preciso ficar contrita, acender velas e rezar o terço. Conta a boca pequena, que a despeito do que as religiões neopentecostais tem agressivamente feito contra os fiéis de outras religiões, essa senhorinha, retornando de “trabalho”, em mais um dos engarrafamentos, deu-se conta que em dois minutos já seriam dezoito horas e que ainda estava dentro de um ônibus em frente à Catedral da Fé da Igreja Universal do Reino de Deus...
Não contou conversa, desceu do ônibus, terço em punho, entrou na Igreja do Bispo Edir Macedo. Antes de sentar-se para rezar, avisou ao Pastor: “Oh, meu filho, vou rezar meu terço aqui”. O pastor óbvio ficou perplexo e silenciou. Não iria contrariar aquela senhora, no mínimo, maluca.
Conto essa história engraçada, porque penso o quanto isso a traduz. Essa é a imagem que tenho dela e vou guardar sempre em mim como lição de vida. Não há portas que a impeçam de fazer o que acha devido. Ela vai, segue, entra onde sabe que deve entrar. Numa família onde os homens pensam mandar, ninguém dá um passo sem consultá-la, ou melhor, obedecê-la. Geralmente, se traveste da senhorinha meiga e delicada. Até pisarem em algum calo dela ou dos seus, e esta incansável mostrar garras e dentes afiados. Daí transforma-se rapidamente numa leoa e ruge alto, demarcando seu lugar e dizendo pra que veio.
Tê-la por perto é um presente. De grego, talvez. Porque com ela se aprende muito, mas por caminhos tortuosos, complexos. Compreende-se que a vida é mesmo uma trajetória difícil e que nós todos, especialmente, aquelas que vieram ao mundo com um vazio entre as pernas, não devemos nos acanhar. Devemos antes de tudo ser, como ela, incansável em seus propósitos. E quem tiver olhos para ver que repare!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: PLANTANDO DENTES

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: PLANTANDO DENTES: Meu avô não era desses avôs velhinhos, que cochilam no fim da tarde numa cadeira de balanço. Era um avô espoleta que inventava música,...

PLANTANDO DENTES



Meu avô não era desses avôs velhinhos, que cochilam no fim da tarde numa cadeira de balanço. Era um avô espoleta que inventava música, incentivava artes, tinha conta em sorveterias e um baú de histórias inventadas para contar. Morava na Cidade Baixa e tinha uma casa na distante Lauro de Freitas. Toda sexta-feira, depois do meio-dia, fazia uma romaria. Saia de casa com minha avó e ia nos pegar na escola de mala e cuia para irmos ao litoral.
Nossos pais só chegavam bem depois, de noitinha. O que era prato cheio para aprontarmos de um tudo sem o olhar vigilante dos mais velhos. E ai era uma farra em que cabia uma praia inteirinha para tomar banho de mar e se embolar na areia. Cabiam também comidas exóticas, cantorias engraçadas, palhaçadas inusitadas e brincadeiras no quintal entre pés de siriguela e de pitanga.
Meu avô tinha muitos netos, alguns que ninguém nem sabia. Mas ele tinha uma neta preferida: eu. Isso porque nós dois conversávamos muito, ríamos um das invencionices do outro, admirávamos a criatividade com que lidávamos com a vida e, talvez, porque meu avô já pressentisse que eu, apesar de sapeca, era uma menina com uma mania estranha: a de me perder em olhar para dentro.
Um dia, estava toda a família na casa de praia. Uns na cozinha a cuidar das refeições, outros no jardim a brincar de selva. Meu avô, como sempre, acompanhado de uma garrafa de wiskie, a jogar gamão com alguns amigos. Foi então que apareci escandalosamente, que era o meu jeito de chamar atenção, de boca escancarada e falando de um modo engraçado:
- Mãe... Vó... Meu dente está mole. Vou morrer. Deve ser doença grave.
Todos riram do meu dramalhão exagerado. Minha avó, meiga como sempre, explicou:
- Você está crescendo, meu amor. Cada um desses dentinhos vai amolecer, nós vamos com carinho tirá-los e outros mais bonitos e mais fortes nascerão.
Fiquei mais insatisfeita ainda. Mas meu avô, sem dar muita trela a confusão, botou lenha na fogueira:
- Você vai ficar banguela, menina. E quando perder os dois dentes da frente vai fazer um janelão em sua boca e todo mundo vai te perguntar: “mordeu Santana?”.
Todos riam. Menos eu. Minha mãe se aproximou, pediu que eu, entre soluços, abrisse a boca, começou a mexer no dente para lá para cá e constatou que já era hora de tirá-lo antes que eu o engolisse. Dei um pinote; abri mais aquele bocão escandaloso e engrossei o tom do choro. Todas as mulheres da família correram a me paparicar. Meu avô nem se abalou e provocou:
- Onde já se viu fazer um escândalo por causa de um dente mole? Tem um tesouro na boca e nem sabe... É uma boba mesmo, essa minha neta. - Pela primeira vez, fez-se silêncio na sala e eu arregalei os olhos. - Nem sei para que essas crianças vão à escola. Não se ensina o que realmente importa. Como é que essa menina não sabe que se plantar o dente arrancado nasce uma árvore de dinheiro.
Fixei o olhar atento em meu avô, entortei a boca, fiz bico, levantei as sobrancelhas e fiz cara de interrogação:
- Vô, isso é verdade? Como eu posso saber se isso não é mais uma das enganações dos adultos?
- É claro que é verdade, minha neta. Mas para saber só tirando o dente, plantando no lugar certo aqui no quintal e esperando para ver no que dará...
 Pensei, funguei, respirei fundo... E disse sem receios:
- Quem vai tirar meu dente?
- Sua avó, ora. E ela tem tantas técnicas. Você pode escolher: pode amarrar uma linha no dente e outra na maçaneta da porta; pode morder uma maçã; pode puxar com a mão. É você quem decide...
Para mim idéia de puxar o dente com a mão pareceu a menos assustadora. E assim, veio minha avó, com ares de dentista. Fez gracinhas, alisou meu braço e TAC, tirou com leveza o dente mole. Deu um beijo na minha testa e abriu a palma da mão. Quando vi o dente desapartado de minha boca, já ia abrir o berreiro de novo, mas meu avô nem contou conversa:
- Rápido. Precisamos de pá, adubo e água. Vamos, menina. Chega de perder tempo.
Embarquei rapidamente na arte do meu avô. Coloquei um sorriso na boca banguela e o segui. O sol estava a pino. Já era quase meio-dia. Ficamos acocorados. Meu avô cavou um buraco, colocou o dente, depois jogou adubo. Pediu que eu amassasse bem a terra preta com as mãos. Depois, falou para eu colocar água na mistura. Batemos bem de levinho com as palmas das mãos a terra molhada. Meu avô ficou de pé, mas eu continuei abaixada a olhar o dente plantado. Ele percebeu que mais uma vez, eu me perdia em olhar para dentro:
- Vamos embora, menina!
- Vou ficar aqui até crescer o pé de dinheiro.
- Mas isso vai durar uma semana inteirinha. E você tem escola... Além  disso, pé de dinheiro é igual a leite no fogo... Só ferve quando a gente dá as costas...
Contrariada, me levantei e segui meu avô. Eu era um mar de ansiedade. Do lado de fora parecia serena, mas lá dentro só pensava se aquilo iria dar certo. Queria ver aquela planta cheia de moedas douradas. Como não havia jeito, voltei para minha casa, fui para a escola, almocei várias vezes, tomei banho tantas outras, fiz lição de casa, brinquei com a irmã. Mas em nenhum momento parei de pensar em como seria voltar à casa de praia e encontrar o dente plantado transformado em árvore do dinheiro.
O que eu não sabia era que meu avô, todo dia, ao chegar do trabalho, se trancava em seu escritório munido de galhos secos, folhas bem verdinhas e muita vela. Passava toda a madrugada como um alquimista a criar fórmulas de vida eterna ou a descobrir a pedra filosofal. Saia de lá bem de madrugada e trancava a sala para que nenhuma mosquinha pudesse descobrir o mistério que lá guardava.
O tempo passou. Finalmente a sexta-feira chegou e se repetiu a romaria do meu avô. Eu contava os segundos para ouvir o sinal do fim da aula. Quando o sinal soou, dei um pinote da cadeira, peguei bem rapidamente a mochila e fui como um raio para o portão. Só que estava uma enorme confusão de crianças a gritar. Era um alvoroço divertido. Mas aquela algazarra tinha que ser logo naquele dia? Esforcei-me para passar entre a multidão de crianças afoitas. E lá estava ele: meu avô, cheio de chocolates a gritar: "galinho gorda" e os distribuir entre as crianças. Achei graça e fiquei toda prosa ao mostrar para todos quem era aquele divertido senhor.
Dalí, seguimos. Diferente dos outros dias em que a cantoria imperava no trajeto para casa de praia, todos nós estávamos em silêncio. Só se ouvia o barulho ansioso dos nossos corações na expectativa do que encontraríamos. O carro parou. Era a casa. Todos saímos do carro. Ninguém pegou malas nem sacolas. Corremos para o quintal onde tinha sido o dente plantado. E ao chegarmos bem no local, vimos aquela beleza jamais vista. Era uma árvore com muitos galhos finos e folhas bem verdes. Em cada ponta de galho, estavam vagens brancas cheias de moedas douradas. Cada neto pegou uma vagem e ao descascá-las encontrou muito dinheiro. Todos ficamos maravilhados com aquilo.
Foi uma festa. Por muito tempo, a árvore foi o centro de todas as atenções. Vinha gente ver e tirar fotos. Depois o tempo passou e outras invenções do meu avô deram lugar aquela de plantar dentes e nascer árvores de dinheiro. Ninguém ficou rico com a nossa plantação de dinheiro. Mas todos sabíamos que tínhamos recebido desde sempre um grande tesouro como herança. Era justamente essa capacidade de meu avô inventar mundos para nos seduzir e fascinar. Esse era o grande tesouro e foi ele que nos motivou vida afora a crer na arte, a amar a imaginação e, principalmente, a não se render a concretude da vida.

sábado, 22 de novembro de 2014

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: Cortar asas ou incentivar voos?

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: Cortar asas ou incentivar voos?: Escola. Docência. Periferia. Ausências. É disso que quero falar. Mas será que consigo? Tanta coisa represada em mim sem conseguir expr...

Cortar asas ou incentivar voos?



Escola. Docência. Periferia. Ausências. É disso que quero falar. Mas será que consigo? Tanta coisa represada em mim sem conseguir expressão. Por dias a fio, tanta espera de escrita. Tanto anseio de dizer o que não sai de mim. Tanto anseio de entender o que move meus dias e me move neles.
Em 1997, eu começava a lecionar Língua Portuguesa em duas turmas de quinta série, numa escola pública municipal na cidade onde moro. Era um desafio. Eu cheia de sonhos e anseios, ainda nem havia me formado em Letras. Queria mudar o mundo e nem sabia que havia de começar por mim mesma. Aliás, sabia muito pouco de teoria e menos ainda da prática. Era uma loucura. Tinha que conter a indisciplina de meninos e meninas, com hormônios em ebulição e atuar numa escola com grades para todas os lados, nenhum jardim e uma biblioteca que ficava trancada para os alunos não a detonarem. Em suma, que pouco oferecia, além de conteúdos e repressões.
Eu, nas minhas viagens e maluquices, adorava chegar bem cedo e ver a escola vazia em total silêncio. Esperava abrir os portões para que pouco a pouco o barulho e o movimento fossem tomando cada centímetro do espaço e o transformando em vida acelerada, caótica e intensa. Nessa escola, eu busquei oferecer uma perspectiva educacional que hoje já sei nomear, mas que na época era apenas a união de minha forma de pensar e agir no mundo com a utopia de que a educação é propulsora de transformações das realidades vigentes. Usava ludicidade, construtivismo, sociointeracionismo, respeito às diferenças e às variedades lingüísticas, formação leitora e letramento literário sem sonhar em dar nomes aos bois.
Neste contexto, havia o professor carrasco. Era o professor de matemática. Disciplinador, cheio de regras e com rigor quase militar para tratar os estudantes. Por incrível que pareça, eu e ele – dois antônimos – éramos os queridinhos entre os alunos. Que loucura. Talvez isso me ajude a pensar o país e o cidadão brasileiro, pelo viés do quanto gostamos de transitar entre o que consideramos bonzinho progressista e o ditador conservador. Quando um radicaliza, apelamos para o outro nos salvar. Vamos sempre entre o folgar e sufocar.
Naquele ano, o tal professor sugeriu que realizássemos um projeto com os alunos. Era algo para incentivá-los a ser bom no que eles seriam fatalmente. E, no dizer daquele caro colega, eles certamente seriam domésticas, caseiros, garis, pedreiros. E já que trabalhariam naquelas profissões, indicava que nossa função de professor era fazer com que eles desempenhassem tais papéis com excelência. Aquilo me causou um estranhamento. Acho que foi a primeira vez (das muitas) que me pronunciei com veemência contra algo. Não sabia ao certo o porquê, apenas sentia um forte incômodo. Eu indicava que nada tinha contra as profissões, que segundo o professor já estavam direcionadas para os nossos estudantes, entretanto, eu afirmava que eu gastava minhas tardes naquele espaço não para que fossem doutores ou garis, mas para que ofertássemos caminhos pelos quais eles mesmos escolheriam, de forma autônoma e consciente, trilhar. Não seria eu quem diria se seriam advogados ou domésticas, mas eles próprios. Para variar, eu ouvi a frase que me acompanharia por longos anos da minha atuação docente: “você é muito jovem; está começando agora, por isso, tem essa visão romântica”.
Óbvio que fui voto vencido entre os colegas. O projeto foi realizado, aplaudido pela Secretaria de Educação da época e funcionou da pior maneira entre nossos estudantes. Naquele tempo, havia um ano de promulgação da Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e os Parâmetros Curriculares Nacionais só seriam publicados no ano seguinte. Assim, as mudanças que aconteceriam a partir da consolidação de tais documentos não tinham sido ainda aplicadas com amplitude.
Mas, a partir dali, tornou-se obrigatória as formações inicial e continuada para todo aquele que atua como professor na educação básica; muitas avaliações para aferir os avanços e continuísmos da educação foram implantadas; palavras como diversidade, ludicidade e tecnologia foram incluídas como reflexões importantes; o trabalho com as culturas, história e literaturas de matriz africana ou afrobrasileiras e indígenas tornaram-se obrigatórias. O ensino de Língua Portuguesa mudou radicalmente de perspectiva, tirando o foco do gramaticismo e atuando a partir do ensino da língua pelo uso das competências leitoras, escritas e orais.
O mundo mudou. O Brasil mudou. Tudo mudou.
Em 2014 (ou melhor, 17 anos depois da minha experiência), meu marido, também professor de Língua Portuguesa, foi convidado a participar de um projeto na escola em que ensina, uma escola pública estadual de Ensino Médio. Lá, professores muito bem intencionados idealizaram e executaram uma ação pedagógica para fazer com que os estudantes que concluirão a educação básica se munam de mais informações sobre as áreas em que ingressarão como profissionais no mercado de trabalho. A idéia consistia em distribuir profissões entre os estudantes, para que eles as pesquisassem e falassem para os colegas sobre a importância, formação, atuação, mercado de trabalho, perspectivas e remuneração.
Era uma boa idéia, se não fosse a repetição de uma cena já vivida há anos atrás. Ao elencar as profissões, os docentes sinalizaram para os alunos apenas profissões como empregada domésticas, auxiliar de serviços gerais, pedreiros, motoristas, garis, secretárias, segurança, garçons, recepcionistas. Meu marido também se revoltou. Achou estranho. Mais do que isso, ele estava respaldado por leis, referenciais, parâmetros, diretrizes. Mas, assim como eu, ele foi voto vencido.
Quando vivi esta cena, nem eu nem a escola estávamos amparadas por discussões legais e teóricas que pudessem sustentar minha opinião contrária ao projeto. Mas, atualmente, a lei, a teoria, o acesso a informação, as mudanças mundiais e brasileiras são contrárias a tudo isso. Todavia, o que assusta é que a prática permanece aparentemente irretocável. Tanto tempo depois e a escola brasileira parece ratificar o lugar dos pobres como os sem lugar ou os pertencentes ao lugar que sobra.
A escola continua a determinar e indicar os espaços de acesso para aqueles que considera eleitos e para os que identifica como os da margem. Há cotas raciais. Há uma ampliação do ingresso à educação básica e, sobretudo, ao ensino superior. Há programas de distribuição de rendas, mas as mentalidades talvez tenham se fossilizado e isso é desesperador. Pelo menos para mim (ou para gente como eu) que fez e faz do cotidiano da educação brasileira a argamassa que consolida seus dias. Vejo um retrocesso na sociedade brasileira. Há gente querendo intervenção militar. Há religiões que violentam aqueles que não são seus pares. O país vive um binarismo retrógrado, centrado numa postura egoísta.
Entretanto, na minha vida, a Literatura sempre me salva dos momentos de desespero e fatalismo. Lendo um texto de Cidinha da Silva sobre a minissérie Subúrbia e o tratamento dado à jovem negra como doméstica numa casa de uma professora doutora, a escritora mineira narra uma passagem possivelmente de sua vida pessoal, que me comove e talvez me inspire.  Na verdade, abre meu horizonte e me enche de esperanças. Ela relata uma cena em que, ao adentrar a UFMG para uma aula no curso de História, uma amiga de infância, que trabalha na universidade como auxiliar de serviços gerais, provavelmente, a chama e a abraça comovida, dizendo que sabia que de todas as amigas, Cidinha seria aquela que chegaria a ingressar num curso universitário. Diz mais. Afirma, aos prantos: “quando você entra por esse portão, nós todas entramos com você”.
Essa frase se condensa em mim como uma marca e o texto-relato de Cidinha só confirma para mim a importância dos jovens estudantes de periferia (e se forem negros e mulheres, isso tudo se potencializa) serem incentivados a fazer aquilo que não está aparentemente ao alcance deles, a investir no que alguns indicam como improvável. Porque quando uns chegam a tais espaços, eles arrastam simbolicamente (e também concretamente) tantos outros. Confirmam entre suas famílias, amigos e inimigos que sim, é possível, ainda que não seja fácil. Mexem positivamente com a autoestima da coletividade, tiram as coisas do lugar e ratificam a máxima do Chico Science: “é desorganizando que eu posso me organizar”. Trocado em miúdos: é rompendo com a expectativa que a mim foi imposta bem eu sei por quem e bem eu sei quando (é assim que acontece), que eu posso construir outras relações de sentido, outros espaços, outras formas de inserção nesse tal desse lugar ao sol, que tem sido para poucos, mas pode e deve ser de muitos.
Eu imagino mesmo (sou Poliana muitas vezes) que muitos colegas temem instigar altos vôos entre tais alunos porque acreditam na ultrapassada máxima: quanto maior o vôo, mais alta a queda. Eu, admiradora da capoeira, sempre vi na queda uma possibilidade para uma negativa ou até mesmo uma rasteira. Creio que a iminência do risco, nos move para a construção de saídas. Temo, sim, o conformismo, a confirmação do vigente, a imutabilidade.
E sigo. Mais uma vez na contramão. Por conta da idade, cada vez mais sorridente e menos angustiada. Como diz o Vaz: “o que sinto não é felicidade; é desprezo pela tristeza”. Certa das intempéries, das faltas, das limitações e dos limites, mas jogando tudo pro alto e investindo no impossível. Crendo no improvável e dizendo sem medo para os Ìcaros (que graças a Deus) cruzam diariamente meus (dês)caminhos (in)certos: construam asas com o que tem e voem. Do meu lugar, eu os apoio e tento fornecer a eles instrumentos que auxiliem em percursos bem sucedidos. Os da tradição grega já nos falaram sobre penhascos e asas de ceras. Nada disso me amedronta. Estou consciente e com eles em busca de outras saídas, mas sem jamais perder de vista a iminência do vôo.