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sexta-feira, 28 de junho de 2019

SOBRE "DENTE-DE-LEÃO: A SUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER"


Depois que Sacolinha veio à Bahia em 2017, muita coisa aconteceu de formativo para nós do GELPs. Eu, por exemplo, fui afetada de muitas formas e convidada a conhecer o que era a Comunidade do Conto e a realizar um trabalho de revisão dos textos literários ali produzidos. Destaco que, como professora de Língua Portuguesa, já havia revisado artigos, monografias, dissertações, mas nunca havia realizado o mesmo empreendimento com textos literários. Sacolinha, corajosamente (ou seria cegamente?), me convidou a fazer este trabalho. Experimentar a revisão de textos literários de diversos autores, tratando de temas contemporâneos e arriscando estruturas e linguagens as mais diversas, foi uma aventura deliciosa. 



Era um teste para o que viria depois: revisar o primeiro livro de crônicas do Escritor Sacolinha. Confesso que fiquei tensa com o convite, mas, como versejou Drummond, “fomos de mãos dadas”: aprendi neste processo um tanto de coisa sobre a escrita literária e o trabalho de “inspiração e transpiração” de um escritor. Eu recebia as crônicas, as revisava e as enviava de volta ao autor. Homem aperreado, Sacolinha defendia com unhas e dentes cada milímetro do seu texto, mas aceitava e compreendia as sugestões dadas para ampliá-lo. O texto e sua comunicabilidade estavam sempre à frente de tudo. Nas idas e vindas que houve em cada uma das leituras, ele perseguia a palavra perfeita e não sossegava enquanto não enxergava a fluidez do verbo. Isso cansava, exasperava, mas era bonito de se ver.



Depois das revisões feitas, pude acompanhar sua preocupação com todos os detalhes que compõem esse bem material/ objeto cultural/ produto de mercado chamado LIVRO. Lembrei-me que, certa vez, ouvi na UNICAMP uma pesquisadora dizer que Machado de Assis conversava com editores sobre tamanho de letras e melhor gramatura do papel para agradar aos leitores. Sacolinha e Machado sabem que livro tem que circular, tem que ter vida, tem que conversar com seus leitores. Livro não é objeto decorativo para ornar estantes. Livro só serve se for bem aberto e lido!



É preciso pensar o livro como esse objeto táctil, memorando agora Caetano Veloso. É bom tocá-lo, cheirá-lo, passar as mãos nas folhas. É bom riscá-lo, autografá-lo, profaná-lo. Livro não é objeto sagrado. Livro é mundano. Vai na mão de qualquer um e se arreganha ao mais leve toque de um leitor atento e cuidadoso. Tudo isso evoca prazer, porque livro é sensual demais para ser feito de qualquer jeito. Para além disso, ao mesmo tempo que nunca é sacro, ele é mágico, enfeitiça, pois funciona como um portal por onde adentramos para dentro e/ou para fora de nós mesmo.



Sacolinha sabe e me ensinou com generosidade que essa potência entre o material e o transcendental precisa ser trabalhada com zelo, e também[1]  sem muitos pudores, porque livro é produto de mercado, precisa ser vendido, por muitos motivos, dentre eles, o fato de o escritor ser um profissional que vive dos livros que comercia. Por compreender a questão do mercado e da arte como conjugáveis, o escritor susanense investiu numa bela capa, em paratextos que se afinam à proposta do seu livro sem antecipá-lo, mas cumprindo a função de aguçar o desejo do leitor pela leitura. Cuidou de uma diagramação cheia de fotos poéticas, produzidas por diversas pessoas, dentre elas a bela assistente Alanda, cria rebento do escritor.



Atentou-se para uma divulgação paulatina, fazendo várias etapas de pré-venda e também publicizando ações para promover o acesso ao livro. Sacolinha é daqueles que, para além do livro físico, explora outros suportes que contribuem para a disseminação da informação de que o livro existe e está sendo lançado e comercializado. Tudo isso também tem como finalidade atrair leitores, o que fomenta a prática da leitura literária, como instrumentaliza os leitores a se letrarem. Por isso, quem quiser pode ter acesso a marcadores de livro, a adesivos, a postais e camisetas com fragmentos do livro de Sacolinha que servem como aperitivos para os leitores. Provam um tiquinho aqui e acolá para sentirem-se famintos pela obra completa.



Neste processo que acompanhei, vi o escritor ser o editor e passar por todas as etapas que envolvem este processo: a criação, a revisão, a construção de paratextos, a preocupação com os aspectos gráficos, a divulgação, a distribuição. É muita coisa. E talvez nem seja justo exigir que todo escritor faça isso. Mas eu me pergunto: quem não está nos espaços de privilégio deste país e provavelmente não fará parte do grupo excludente das editoras multinacionais que aqui dominam um mercado (o legitimado, incensado, mas não o único), pode apenas escrever e não se comprometer em fazer circular seu livro? Pode apenas escrever e não se envolver com a formação de público leitor entre os nossos? Nós que creditamos à leitura um potencial revolucionário para os nossos, podemos aguardar bom tempo para que os textos literários produzidos pelas populações pretas e periféricas deste país cheguem aos seus leitores ideais? Eu sei as minhas respostas, mas as deixarei em aberto...



O livro “DENTE-DE-LEÃO: A SUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER” é obra que sai da linha. Vai na contramão do que superficialmente (ou preconceituosamente) se diz de uma escrita proveniente de contextos periféricos. Quando se quer inferiorizar tais textos, afirma-se que são descritivistas, tratam de temas limitados e ligados apenas as mazelas sociais ou a uma margem criminal. Sem sair da cena das periferias de São Paulo, Sacolinha vê seu Jardim Revista como Alberto Caeiro: “Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/ Porque sou do tamanho do que vejo”. Na periferia do Sacola, cabe o mundo todo, pois é o olhar vasto (assim como vasto é o mundo) do escritor que consegue enxergar o que ali está, mas é negligenciado, negado, silenciado.



Nas crônicas, Sacolinha ora compreende a dimensão política de fazer uma horta orgânica ora denuncia as artimanhas das tecnologias de comunicação contemporâneas para roubar nossa atenção e nos encarcerar em cavernas. O escritor provoca-nos a pensar o quanto, para além da violência do armamento empunhado pelo estado e pela criminalidade, estamos sendo mortos lentamente por uma indústria alimentícia associada à indústria farmacêutica.



A leitura é tema recorrente. Leitor que é de Saramago, preocupa-se com uma cegueira que nos nega a ver e, sobretudo, a reparar... Indica textos preciosos que vão desde o clássico “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marques à canção “Era uma vez” de Kell Smeth, passando pelo filme “A livraria”, de Isabel Coixet até chegar a um almoço no Restaurante Bacalhau do Firmino. Traduz o centro da capital paulistana para afirmar que a periferia precisa apoderar-se de seu espaço, sem jamais deixar de ocupar o centro das cidades.



O livro tem a leveza e a força da flor “Dente-de-leão”, que com uma brisa se despedaça e parece se dissolver no ar, mas que, ao se espedaçar, vira semente e alcança a amplidão, fertilizando lugares inimagináveis. Lê-lo é prazeroso, mas é sobretudo formativo e orientador, pois aponta caminhos possíveis das pequenas revoluções cotidianas. De cá, sinto-me repleta de gratidão pela trajetória, porque enquanto Sacolinha gosta de ostentar sua biblioteca, como está numa das crônicas, eu ostento sem modéstia as aprendizagens amealhadas com aqueles e aquelas que me dão a honra de seu convívio. Ouvi da pesquisadora-poeta Hildália Fernandes, num Teoria Sobre Nós, que Carolina Maria de Jesus dizia a si mesma: “Muito bem, Carolina”. Em uma de suas crônicas, Sacolinha repete a ação de Carol e diz a si mesmo: “-Parabéns, viu? Você está de parabéns! Ficou muito bonito e de bom gosto”. Eu de cá só faço coro!

Luciana Moreno

Uma aprendiz de revisora


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

LÁ NO CEMITÉRIO

Quando venho a Ilha Grande é de lei a visita ao cemitério com meu pai. Lá está a carneira onde meu avô Antônio Egídio foi enterrado e hoje também estão os ossos de meu Tio Vavá. A gente segue caminhando lá para o Cantagalo. No percurso, meu pai vai revendo os antigos amigos. Eles se apresentam, se olham, miram os rostos uns dos outros, marcados pelo tempo, até que se reconhecem e começam a contar histórias do passado. Aqui meu pai não é Guido Moreno (o sobrenome de meu avô). Aqui ele é Guido Dócio, filho de Maria Dócio e irmão de seu Vavá. Moreno só no continente, porque na Ilha ele é lembrado pelo dócil nome da mãe.
Depois dessa procissão animada e risonha, a gente começa a ficar mais quieto porque o cemitério vai se aproximando. Fica bem no alto. Meu pai diz que é para se chegar mais perto ao céu. É cercado por uma mata onde pode se ouvir de lá o barulho da maré. Do lado da carneira onde estão os meus, nasceu um cajueiro, em que parasitam gravatás e faz uma sombra tímida. A gente vai se aproximando meio contrito e o choro de meu pai é certeiro, forte, emocionado. Ele se justifica dizendo que sabe que não tem mais nada ali. E acrescenta: "o que meu pai deixou não se guarda num túmulo, se expande na vida". É que meu pai é metido a prosador. Eu nem posso entender a emoção dele. Só sei que gosto de ir lá. Ainda que me pele de medo de alma. Mas ouso dizer que ali é o melhor cemitério do mundo: no alto de uma ilha quase paradisíaca, com direito a mata verde e brisa do mar.
Lá, eu e minha irmã só acompanhamos meu pai. Eu tiro os matinhos que insistem em crescer em volta do túmulo e faço orações de agradecimento. Aliás quando estou na ilha rezo o tempo inteiro. Agradeço a beleza de ter os meus ‘beiradeiros’ vindos daqui, vejo o quão privilegiado é poder desde sempre usufruir de um mar que não se acaba e de um céu que nunca se finda. Lá, eu, meu pai e minha irmã vamos apenas para prestar homenagem ao meu avô que me daria um nome se eu menino fosse. Vamos para dizer a ele o quanto ele foi cedo, apesar de ter feito tanto por todos nós.
No fundo, não estou certa, mas desconfio que gente só vai lá mesmo para reverenciar o passado e confirmar a nossa existência. Ser quem somos hoje depende demais de conhecer uma história anterior a nossa.
Por isso, nessa caminhada rumo ao cemitério, apesar de ser povoada por tantos medos, o único receio que me aflige é de no próximo verão não poder mais voltar. Porque sei que sou finita, que minhas gentes são finitas, assim como “tudo que é sólido desmancha no ar”, como afirma o velho Marx.
Eu e minha irmã dizemos que parece que a Ilha parou no tempo e a gente de forma egoísta gosta bastante disso. Mas meu pai nesse passeio fúnebre e, ao mesmo tempo, festivo, porque é um passeio de encontros e da confirmação da despedidas, nos mostra as casas que desmoronam porque os jovens já não veem mais futuro por aqui, nos mostra onde era a festa de são João, padroeiro da Ilha, e havia quermesse e quadrilha. Aponta para o campo, na verdade a maré seca, onde o time de Futebol Bonsucesso fizera história. Meu pai no nosso passeio também nos mostra algumas ruinas, dentre elas as da antiga Igreja de São João. E eu, na vã tentativa de não deixar o passado escorrer por entre nossas mãos, as fotografo para assegurar nesses tempos líquidos um pouco mais de solidez.
No caminho, entre conversas e lágrimas, lembrei de um texto que constava num cd de músicas italianas de Zizi Possi. Ela dizia que sonhou com o avô já falecido. Este percorria um dos bairros italianos de são Paulo a procura de vestígios de sua história. Mas a casa onde morara no passado, a rua onde viveu e o bonde já haviam sido apagados pelo progresso. Em um momento, o avô no sonho desespera-se e chega a duvidar da própria existência. Fiquei a pensar se Antônio Egídio volta-se a Ilha... Será que tomaria o mesmo susto? Até que o avô narrado por Zizi Possi encontra as ruínas da igreja onde havia se casado e só assim se conforta. Ao olhar para as marcas do passado deixadas no presente, ele confirma que um dia realmente existiu.
A ilha é assim para mim. É o meu relicário. Nela, eu compreendo que antes de mim houve gente para garantir minha estada aqui. E essa gente existiu de fato. Elxs mercaram nas venda, cruzaram essa baia de canoa, tamanca, saveiro ou navio, se casaram, fizeram filhos, netos, bisnetos... Na Ilha, eu me reenergizo simplesmente porque vejo que se hoje existo e resisto é porque houve outros que também se aventuraram nas incertezas da vida.

Então, eu, meu pai e minha irmã vamos cumprindo nosso trajeto de volta ao Furado (localidade onde está a casa de nossos avós). Ficamos reflexivxs. E eu cá com um certo medo de num futuro próximo me perder do meu passado e já não ter nem gentes nem prédios para me garantir que minha existência não passou de um sonho feliz. Porque, por mais ilusórias que elas sejam, a gente precisa de eternidades.







domingo, 5 de novembro de 2017

NO AEROPORTO

No aeroporto

E agora cá estou
Pensar é um imperativo 
(pelo menos, para mim)
Tem gente (e como eu as admiro) 
que consegue ir indo na vida,
Deixando rolar
Querendo entender só na hora do acontecido (e olhe lá)...

Eu e meu zodíaco que me dicotomiza
Ora vou como quem navega sem rumo (e sobrevivo)
Ora sou a cigana oblíquia dissimulada ansiosa por vaticinar o futuro
Também me travisto da terapeuta (ou seria da Sherlock Holmes?) 
e fico buscando as pistas da vida 
para afirmar com exatidão tanto o que já está dado quanto o porvir.

Vivo e vivi tanta coisa nesse tempo que acaba de fechar a porta
Que agora me obrigo a pensar:
O que eu vou fazer com tudo isso que ora trago na mala?
Amor, sonho, encontro, perdição, sorte
Nó na gargata, amizade, risos intermináveis...
Não vai ser mesmo fácil desarrumar essa mala
Até porque nesse movimento o pior é saber onde encaixarei o que sairá da mala.
Nunca sei se escondo, se escancaro, se uso logo, se desprezo.
Pior... Me programo para usar o que acabarei desprezando
Me organizo para desprezar o que certamente vestirei até ficar roto de tão gasto

Mais do que o que está na mala,
Trago em mim um universo inteiro 
e a lágrima queima na garganta
Trago e uma fumaça sai lentamente pelo nariz e pela boca 
Ela se dissipa pelo meu corpo, minha alma, meu sexo
É uma fumaça lenta
Que evoca o fogo que mora em mim
Fogo e ar. Combinação explosiva
O ar não apaga o fogo.
Pelo contrário, o alimenta.

Respiro, me controlo, faço agenda e diário
Vou pra terapeuta
Tento racionalizar
Mas eu sei (como eu sei) que eu sou dessas...
Sou dessas que sofrem, anseiam, planejam
Mas permitem que a vida flua
Sou dessas que pensam por A e por B, que se obrigam cautela
Mas que na hora H fazem o que o corpo, a alma, a emoção ordenam.
Considero melhor assim para a saúde física e para evitar enlouquecimentos.

Estratégias não há...
Como sobreviver para a eternidade assim
Sem ter lido, resenhado e aplicado a Arte da guerra?
Como sobreviver desprezando o sobreviver e acreditando que tem todo direito a viver com plenitude?
Como sobreviver a mim mesma sem saber como lidar com aquilo que carrego na mala?
Vim com apenas dez quilos. 
Agora volto com uma tonelada.

Antecipo. É de lei!
Só o tempo vai dizer que caminho trilharei
O que quer que aconteça
Agradeço o que coube na mala
Era o que precisava vir.
Ela não me pesa. 
Era mesmo o cabível que ali entrou
Nada que precisava estar ali foi excluído.
Sou eu inteira quem está na mala
Portanto, parece robusta e forte, mas...
Cuidado. Frágil!

Mais um percurso e eu descubro
Quais os cantos acomodarão tudo o que está na mala
Pressa não há, nem nada
Vejo apenas a mim mesma
Arriando as malas em casa
E abrindo-a...
Mistério!





ps: sorry, nunca sei fazer poemas!

domingo, 27 de agosto de 2017

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS...

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS...: Ela me disse que, em outros tempos, morria de medo de mostrar o corpo, seja na praia, seja na intimidade com um parceiro. Assustava a ela ...

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS...

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS...: Ela me disse que, em outros tempos, morria de medo de mostrar o corpo, seja na praia, seja na intimidade com um parceiro. Assustava a ela ...

SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS

Ela me disse que, em outros tempos, morria de medo de mostrar o corpo, seja na praia, seja na intimidade com um parceiro. Assustava a ela a ideia de revelar o escondido.
Eu concordava, balançando a cabeça, porque despir-se para quem tem mais intimidade com o outro do que consigo mesmo parece mesmo assustador. O medo é de frustrar o que a imaginação do outro construiu sobre nós. Sermos menos do que aquele que nos desejou idealizou. E aí vem outra questão: nosso corpo é sempre tratado mais como objeto de prazer do outro do que de nós mesmas. Custa para nós entendermos que não temos o menor poder sobre os gozos alheios. A gente pode até mediar, envolver, mas cada um só lida com o próprio desejo.
Tudo isso ela me dizia como ares de que já aprendeu a lidar com suas próprias cicatrizes. Me contava, meio garbosa, que celulites e estrias a assustavam menos. Mas ao distanciar o olhar ao longe, ela constatava com pesar: as cicatrizes sempre a intimidaram... Na infância, ela foi a que subia em árvores, vivia em quintais, tomava banho de chuva, ia para a praia à pé, onde ficava esticada ao sol, “lagarteando”. Por isso, desde cedo, marcas diversas povoaram seu corpo.
Um dia me falou sobre um texto que recebera via whats app. Narrava uma tradição oriental de não descartar louças quebradas, mas corrigi-las com uma tinta dourada e, quanto mais marcas houvesse, mais a louça era reconstituída, mais tinta iluminada era colocada e mais valorizada se tornava a peça. Ela me disse que o corpo dela é como essas porcelanas. E hoje narra-se assim.
Num antes, sempre tivera medo de que a vissem despida. Sem casca. Na superfície. “Olhar meu corpo nu no espelho é conquista da idade adulta. E cada vez com mais tranquilidade. E pior mais costumeira, pois como se fala na Bahia, descarei...” Me dizia isso, rindo alto. E assegura que em seu corpo há várias cicatrizes. E todas elas contam história... São as primeiras tatuagens que carrega.
No punho do braço direito, ela tem um raiozinho. Foi uma vez em casa, antes dos seis anos. A mãe na rua, trabalhando. Era professora, trabalhava fora desde sempre. Ela e a irmã só com a babá. Ela corria como correm as crianças e ainda tinha nas mãos uma xícara cheia de doce de leite. Então, a lei da probabilidade foi certa. Caiu, a xícara quebrou, rasgou o punho. A vizinha que foi levar ao hospital. A mãe, coitadinha, tão culpada se sentia por não estar lá na hora da confusão, na hora dos primeiros pontos. Ela nunca considerou isso ruim. Sempre achara o máximo ter a mãe provedora, independente... Heroína!
Na parte interna entre braço e antebraço direito, há uma outra de quase quinze centímetros. Foi uma queda de bicicleta já na segunda infância. Aprendeu tarde e com muitas dificuldades a andar de bicicleta. A mãe prometia pagamento a quem conseguisse o feito de ensinar a garota a pedalar. Ela era medrosa e até meio abestalhada. Enquanto todos corriam de lá para cá, se negava a passear com a magrela. Mas, depois, não sei se por desejo ou cobrança social, pegou a bicicleta escondida e desceu um beco estreito cheio de arame farpado que ficava ao lado da casa dos avós maternos. Por que ela é daquelas que está no oito ou no oitenta. A história de que a virtude está no meio diz nada a ela. Assim seria sua vida, entre não querer nem chegar perto da montanha ou se jogar do alto do despenhadeiro. Depois disso, aprendeu a andar de bicicleta e ficou com sua marca vida a fora.
Os seios dela se emolduram, pela parte de baixo, numa linha fina e rosa. Outra cicatriz. Delicada. Mas cicatriz. Foi já no fim da adolescência, a opção por fazer uma plástica de redução de mama. Essa foi a única cicatriz que não veio num rompante. Veio como um presente da avó materna, seu símbolo maior do feminino. O arquétipo de Athenas que a persegue, a sufoca, pedia a feminilidade, a sensualidade da Afrodite soterrada por ela desde criança. Ter sido parida pela cabeça do pai, ter nascido para ser um menino que nunca conseguira ser, sempre dera um trabalho danado a ela. Sempre pronta a agradar, a resolver, a liderar, a ordenar o mundo de fora. E silenciar o mundo de dentro. Nesse movimento, esquecia-se de contemplar seu próprio corpo, de vivê-lo ... Então, decidiu muda-lo ao seu bel prazer. Não queria a ausência da mama. Pelo contrário, queria que ela apontasse para cima, que fosse possível encobri-la com a palma da mama, a queria rija e delicada, segura e juvenil. E assim, fez. Aos 17 anos.
Outra linha cicatriz vai de um lado a outra da parte inferior da barriga. Essa, a mais dura. E também a fundamental. Parece uma marca de cesárea, mas não foi uma parição, pois ela nunca teve filhos. Quando ela me fala dessa cicatriz, ainda que sua boca pareça sorrir, seus olhos estão molhados de água do mar. Foi na idade adulta, num tempo em que acelerou tanto os motores do empoderamento, das conquistas individuais, dos sonhos de trabalho, que mais uma vez deixou o próprio corpo à deriva. E no auge das suas conquistas profissionais e financeiras, se viu numa sala fria e escura: ela, o médico e a faca apontada para si. Havia algo perigoso no lá de dentro, mas ele deveria sair e pior estava colado a algo que era dela, algo que para ela significava o futuro. O doutor não contou conversa. Foi definitivo. Puxou a falsa semente pelos dentes e cabelos. Mas esta, por sua vez, sabe-se lá se por vingança, grudou-se no ovário e só deixou o corpo de minha amiga, arrastando-o de lá junto consigo.
Depois disso, a naturalização médica. “Não era nada”, afirmava o doutor com ares divinais. Havia sim possibilidades. Remotas. Mas havia. E o caos, o fundo do poço, a solidão a aninharam por longos dias e longas noites. Banhou-se em suas próprias lágrimas, até quase afogar-se na sua própria exaustão. Frações de segundos antes de submergir para sempre, ela abruptamente boiou, como se uma majestosa vitória régia fosse e seguiu cicatrizada, transformada. Essa cicatriz arrancou ela de dentro dela. Pariu-se a ela mesma. Desdobou-se numa outra, bela, assustadora, transfigurada.
E assim, seguiu... Marcada vida a fora. Agora, nua, vê-se no espelho. Contempla as cicatrizes. Algumas se apagaram. A mais recente foi pintada em branco na parte interna da coxa esquerda, próxima a seu sexo. Foi num passeio pelas águas doces de Andaraí. Na hora, da queda, ela riu, porque parecia que o galho que a marcara desejava penetrá-la, como homem.

Feita de terra e água como ela é, certamente, não vingará ilesa. Deverá mesmo recorrer a artimanha da porcelanas chinesas e deixará suas cicatrizes serem decoradas em tinta reluzente para ornarem seu corpo. Não sabe quantas ainda virão. Mas já ama suas marcas/textos. Não teme mais a rejeição do outro sobre suas cicatrizes. Só agora entende o verso, traduzido por Caetano. Só agora aprendeu que “ela é um livro místico e somente a alguns a que tal graça se consente é dado a lê-la”. Pena haver tantos iletrados!

terça-feira, 1 de agosto de 2017

CORRER PODE SER PEDAGÓGICO

Se eu nunca tive dúvidas que a arte nos aponta um caminho, ultimamente tenho começado a aceitar que talvez o corpo também esteja envolvido nessa experiência de nos “salvar” de nós mesmos e de nossas vidas miudinhas. Ainda mais nestes tempos em que vivemos “Um show de Trumman”, trancafiados em nossos carros que, ainda que populares, possuem vidro fumê e trava elétrica. Ou presos nos condomínios onde moramos. Ou enclausurados nos shoppings centers onde nos divertimos e resolvemos toda sorte de situações.
Experiênciar o corpo, através da atividade física, pode ser um caminho para contrariar esse mundo superficial do “big brother” em que vivemos. As corridas de rua, por exemplo, nos empurram para uma atividade individual, mas que se efetiva na coletividade. E melhor, ao ar livre, fora dos espaços de “proteção”, que na verdade, se configuram em lugares de “vigilância social”.
Desde menina sempre fui mais afeita às questões intelectuais e artísticas do que a qualquer ação que me aproximasse de um esporte ou algo que mexesse com o físico. Nos últimos anos, por um desejo a uma forma física mais magra (por questões estéticas e também de saúde) envolvi-me de cabeça na atividade física regular. Isso teve consequências como emagrecer e me tornar uma corredora amadora, algo impensado até meus 37 anos de idade.
Na verdade, o professor responsável por minha fidelização ao treino funcional apresentou a mim e a outras colegas as corridas de rua para nos motivar a treinar... Nenhuma de nós imaginava onde essa “brincadeira” poderia nos levar. No início ele, nos acompanhava às corridas, lado a lado, dando-nos um apoio, que ia desde a orientação do quanto correr a oferta de água e palavras de ânimo.
Então, para além do que se diz de que correr é bom para a saúde, hoje vejo essa história de suar, treinar, malhar como algo que tem um potencial humano, psicológico e até filosófico. Talvez eu creia nisso, porque como diz o querido Sérgio Vaz, quando algo nos transforma, a gente fica que nem cristão novo querendo catequizar os outros para a nossa “nova fé”.
Nesse embalo, uma das coisas que me chamou atenção na minha primeira corrida de rua era a imensa diversidade presente ali na pista. Era possível perceber que havia gente que após 15 minutos de prova já cruzava a linha de chegada, havia gente cuja compleição física era de atletas de alto rendimento, mas havia gente de toda sorte de idade, ritmo e forma física. Gente como eu!
Fato que me marcou profundamente foi uma jovem corredora desconhecida. Ao ver o apoio e força que meu professor me dava, ela, possivelmente, tendo as mesmas dificuldades de respiração, de desconfiança no próprio potencial se achegou a nós e perguntou se poderia nos acompanhar. Ele, bastante agregador como é de sua natureza, a aproximou de mim e mesmo sem conhecê-la deu a ela o mesmo apoio que me dava, sugerindo quando devia avançar e quando devia diminuir o ritmo, oferecendo água, conversando (talvez para nos distrair) e nos sinalizando o silêncio nos momentos em que mais precisaríamos de fôlego.
Cruzamos os três a minha primeira linha de chegada. Eu, sentindo minhas forças irem embora, e confundindo êxtase com cansaço. Naquele dia, eu fui testemunha de um sentimento agregador. Entendi que tal solidariedade havia sido provocada pelo meu professor, mas para minha enorme felicidade, fui compreendendo com o tempo que estava para além dele.
Ao final daquela corrida, a menina desapareceu de nossos horizontes. No ano seguinte, ela achou nosso grupo numa rede social e fez questão de contar a história, dizendo o quanto nosso professor havia sido gentil e solicito e o quanto aquilo havia feito com que ela continuasse a correr. Ela, ao final do seu relato na rede, ainda indicava algo que eu só iria aprender depois: “o mundo de corridas tem muita gente assim”.
É que meu professor continuou sendo meu professor, mas cada vez que evoluíamos na corrida, ele se desgarrava da gente, como deve ser. Não precisávamos mais daquele tipo de auxílio. Então, nosso grupo continuou com a corrida, com o irrestrito apoio dele, mas sem sua presença necessariamente. E quase um ano depois, era a minha vez de ser a “desconhecida”. Eu fazia uma prova noturna, estava sozinha e tentava fazer o que todo/a corredor/a quer: baixar seu tempo. Entretanto, estava gripada com uma tosse seca, sem respirar direito. Já perto dos quatro quilômetros eu sentia um cansaço fenomenal e minha respiração estava ofegante demais. Nesse momento, um corredor, nem lembro o rosto direito, vi que um homem da minha idade, forte, se aproximou de mim e disse: “vá com calma, menina”. E ficou do meu lado. Não bastando isso, me orientou como segurar melhor a respiração, disse que a corrida noturna enganava, que eu poderia desmaiar se não a controlasse e seguiu ao meu lado até o momento que deixei de ficar ofegante e minha respiração se regularizou.
Eu nem pude agradecer a ele, porque assim que a situação se normalizou, ele correu como um raio e seguiu o caminho dele. Ele, ainda que pudesse ter um tempo melhor, se não me ajudasse, optou por me auxiliar, perder tempo e seguir. Ele olhou para fora de si e enxergou a mim e a minha dificuldade. Assim, como em outro momento meu professor fez com uma desconhecida. Isso é marcante e formativo.
Por isso, penso que a corrida de rua (ainda que seja uma modalidade que tenda a um elitismo, numa sociedade capitalista como a nossa) possa nos direcionar para uma vida mais saudável, menos  “fake”, a céu aberto, sem proteções nem coerções, sem vigilância, fantasiada da ideia de segurança.

Falo da surpresa do auxílio de um desconhecido, mas é óbvio que com o tempo todo o grupo, os mais chegados, os nem tanto assim, o professor, todos auxiliam uns aos outros, seja com dicas de exercícios, alimentação, desafios, seja com uma palavra amiga, um afago, um olhar que crê em nosso potencial. Por isso, por mais que meu professor insista, eu não acredito que a salvação é individual. Apesar de compreender o argumento bíblico (para quem acredita em reino do céu), é fato que o caminho e a linha de chegada a gente trilha é com a gente mesmo, “sozinho da silva”, todavia o percurso anterior é feito coletivamente e isso faz toda diferença. Pode até mudar a maneira com que lidamos com a vida nessa contemporaneidade liquida e louca.

domingo, 23 de abril de 2017

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: CANÇÕES DE AMOR E DENGO: UMA LEITURA

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: CANÇÕES DE AMOR E DENGO: UMA LEITURA: A ideia inicial era tecer uma análise sobre o livro de poemas da Cidinha, mas tragada por sua leitura considero que vale mais narrar a min...

CANÇÕES DE AMOR E DENGO: UMA LEITURA

A ideia inicial era tecer uma análise sobre o livro de poemas da Cidinha, mas tragada por sua leitura considero que vale mais narrar a minha experiência literária ao me deleitar com as Canções de Amor e Dengo. Como ao longo do processo de ler o livro, as canções do meu repertório afetivo me tomaram, começo lembrando um verso de Caetano: “Os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil que votamos aos maços de cigarro”, porque é assim que ingresso em minha incursão nessa experiência de leitura. Antes de trazer a chave para entrar nos poemas, me encantou o formato do livro. Aparentemente é um livro de bolso. Essa característica, entretanto não evoca uma decisão mercadológica, capitalista. É também uma via para baratear custos e popularizar o texto (o que considero maravilhoso). Mas é sobretudo um meio de consolidar a ação revolucionária da Mi parió e da própria Cidinha de “editar ‘livros semiartesanais, bonitos de encher os olhos e a alma, mas sem esvaziar os bolsos”. Livros desse tamanho são delicadezas tratadas como relíquias, preciosidades que exigem cuidado. É preciso entrar neles com os “pés de flor” que encontraremos nos versos lá dentro do livro.
Ainda sobre o prazer de tocar no livro, cheirar suas páginas, alisar suas dobras, nós, leitores, somos presenteados com um fino e belo pedaço de tecido que se roça em nossas mão durante a leitura. O verde, o marrom, o branco, um leve rosa que não aparecerão nas páginas ficam grudados no corpo. E o dourado riscado no pano arremata a beleza da qual ando carente. Confesso! Durante as muitas leituras que fiz do livro, numa delas, o tecido caiu. Fiquei órfã. Senti-me obrigada a colar novamente o tecido. Eu acho que é porque depois que a beleza, a delicadeza, o singelo se grudam na gente é mesmo insólito continuar sem isso. Refiro-me à leitura. Mentira refiro-me também à leitura, mas sobretudo à vida, ao amor.
Então, abri o livro. Pássaros e flores me assaltaram. Era o amor mesmo que me elevava. Pronto, eu era a leitora, a amante, viveria ali entre as páginas. Mas Cidinha me trai logo na entrada e nas primeiras páginas joga água na leitora que eu quero ser. Que é justamente aquela leitora desprendida da professora, da pesquisadora em teoria da literatura e me amarra de volta a uma das minhas personas. Diz a mim em seu “Manifesto”, aos críticos, aos pesquisadores, munidos da máquina de dissecar textos literários, de encaixotar escritoras que façam o que quiserem, mas não a obriguem a qualquer coisa. Ela sabe que nós a pesquisaremos, ela sabe que nós escreveremos sobre ela, todavia ela seguirá seu caminho com as roupas e as caixas que lhes convier. Se lhes convier. Até porque, a ancestralidade, desde sempre já a aponta para o fogo, o trovão, a justiça.
Vou encontrando o olhar lírico da cronista. Ali estão o amor e o dengo, mas sem perder de vista a crítica social, o cotidiano como fonte primária, a vida presente, os homens e mulheres do presente, o tempo presente, como declara o poeta gauche, seu conterrâneo. Na linguagem tem “é coisa, viu?” Em bom baianês, a escritora da multiterritorialidade, cidadã do mundo, que nasceu em Minas, morou em São Paulo, em Brasília, que viajou por diversos lugares e agora vive na Bahia coloca as marcas do nosso falar nos textos. Nos jogos com a palavra derruba a ideia de que senzala pode ser sinônimo de quilombo, brinca com a sonoridade do vocábulo para fazer o que de melhor sabe fazer: nos tirar da superfície, nos arrancar das obviedades da fala corriqueira que se cola na gente e nos acostuma a não pensar. Ora potencializa a ordem do discurso, ora subverte-a. Até porque aqui “ninguém se acha. A gente é”, como um dos seus versos nos aponta.
As páginas se seguem sendo encharcadas de águas que fluem, afogam, secam e refluem. Nesse sentido mesmo. Há enchentes nas primeiras páginas, seguidas de secura e dor funda no depois, mas que, para nossa sorte, retornam cheias, abundantes, alvissareiras.
As poetas são maravilhas nas vidas de seus leitores porque nos mostram que as loucuras são humanas. Me conforta ler o “Vermelhor”, porque eu também quando não encontro respostas no universo da racionalidade, confio no “ônibus vermelho” que vai passar, ou digo, se ele me ama o terceiro carro a passar nessa via será preto e estará com o vidro aberto. E eu sigo confiando que minha brincadeira é resposta certeira, nem de longe é maluquice.
Essas águas de dengo e amor e muita, mas muita dor também são ginga, corpo, movimento e aqui na porta do poema o verbo decantar pode tanto ser fazer loas, quanto se livrar de impurezas ou se separar de algo ou alguém. Decantar na “Química sentimental” é a faca amolada da solidão, são os dias de espera. Então, ainda que haja amor quem caminha por essas páginas poéticas vai ser convidada a também fechar a cara. E vai ouvir o refrão de Nelson Cavaquinho: “tire seu sorriso do caminho”, porque há horas em que só nos resta fazer a dor imperar.
Mas no logo depois virá com força a Canção da chegada, aquela dos dias de luz, em como canta Gal a composição de Gil: “quando a gente está contente tanto faz o quente, tanto faz o frio tanto faz”. Tudo abre comportas.
E se conselho fosse bom eu diria que a minha experiência com os dengos e o amor desses poemas me disse que ainda que não saibamos se o que mais cala é o que um dia desejamos e nunca tivemos ou o que desejamos e tivemos a sorte de ter no agora... O amor é um imperativo! Eu diria pela voz desses poemas que amor é entrega, com a quase certeza do abismo, da ferida, das ranhuras e ainda que haja o desamor, o amor em si mesmo é a chave para a renovação.
Assim, fecho as comportas do livro com as águas que encharcaram tudo. Com leveza, sim com força também. Indomáveis. Intransponíveis, porque a despeito de nossas vontades, as águas retornam exuberantes. E chega o tempo da “oguniação” cessar nos dizeres da poeta e se inaugura o tempo da “oxumniação”. Das águas. Da esperança. Que venham. Porque o que nós leitores mais desejamos é que ainda que haja fúria, desesperança e medo, em algum tempo digamos: “Enfim chegaste, minha rainha, plena estou para te receber”.

A experiência de ler os poemas inaugurais da Cidinha teceram outras manhãs. Teceram as minhas manhãs e ainda que por alguns minutos fizeram da professora, a dengosa amante. Agradeço.

sábado, 24 de dezembro de 2016

NOSSA TENDA VERMELHA

Por Norma Sacramento e Luciana Sacramento


Aprendi que todo evento do presente possui um aporte no passado. É como se nossas células tivessem uma memória oculta de tempos em que nossos corpos físicos nem estavam aqui. Por isso, apesar de me inquietar com o fato de na minha família, as mulheres terem o hábito de se unir para rir, brigar, curar as dores, contar trajetórias, sabia que esta prática começava antes mesmo de eu existir no mundo.

Aqui sempre tivemos a nossa Tenda Vermelha. Sempre tivemos aquele momento ou lugar, semelhante ao das mulheres de alguns lugares do Oriente Médio onde elas, durante o período menstrual, se uniam e se distanciavam do convívio com os homens. Ali, em claustro, passavam os dias juntas. Até porque eram consideradas impuras para transitar entre outros ambientes. Nesses momentos mensais, elas reconheciam sua condição feminina, se espelhavam umas nas outras, aprendiam a ser, a conviver, a agir no mundo. Ouviam as histórias de vida das ancestrais para traçarem as suas próprias formas de existência no presente.

No meu hoje, a Confraria do Torço, reunião periódica das mulheres da família Sacramento, é a minha Tenda Vermelha. Nela, encontro a tal sororidade tão propagada pelas jovens feministas. O termo soa novo, mas não é. Contrapõe-se a fraternidade, já que frater é irmão e designa a aliança entre os homens. Sororidade, que vem do termo sóror, irmãs, significa o elo entre mulheres, através do companheirismo, da empatia. Tal sentimento celebra as experiências subjetivas vividas entre o feminino em prol de vidas mais saudáveis, positivas, felizes e contra a todas as formas de opressão.
Quando olho para a nossa Confraria do Torço, fico a pensar de onde vem nossa sororidade. Me questiono sobre como intuitivamente construímos nossa Tenda Vermelha. E começo a ver as coisas de uma forma que nunca vi. Vejo as respostas na história de vida de minha avó Benita. E eu que achava que juntar gente era a força de Umbelino, meu avô... Hoje compreendo que ela era a agregadora e isso não era apenas por altruísmo, mas era, sobretudo, por necessidade de sobrevivência. Mais do que isso era por resiliência, ou melhor, pela sua capacidade de vencer os obstáculos, sem ceder nem as pressões ou as opressões de uma sociedade machista.

Minha mãe conta que minha avó nasceu no século passado, em pleno  mês de Maria,  mês das mães, mês das mulheres. Pouco sabe da origem dos meus bisavós, Catarina e Florêncio. Apenas narra que Benita, minha avó, teve uma infância difícil, sem pai presente, na companhia de sua mãe Catarina, das duas irmãs mais velhas, Adriana e Estelita e  de uma mulher negra, Josefa, que foi um esteio na sua criação. Esta, depois, também a auxiliou na criação de suas filhas e viveu em  sua companhia até falecer.
O que se diz é que meu bisavô saiu de casa para seguir um grupo de uma igreja evangélica e minha bisavó, católica fervorosa, não se conformou com a escolha do marido. Um dia, meu bisavô chegou em casa para buscar as filhas para passear com os irmãos da igreja evangélica e minha bisavô Catarina enfrentou-o com um crucifixo na mão, gritando: “Vai embora, Satanás!”. Ele foi embora e nunca mais voltou. Infelizmente, meu bisavô procedeu como inúmeros homens de uma típica família brasileira, aquela que é gerida pelas mães, porque o pai ou aparece sazonalmente ou sai para comprar um cigarro e não volta mais. Meu bisavô desapareceu na história e ao que parece na vida daquelas cinco mulheres também.
Assim, essas cinco mulheres moraram sem a presença masculina inicialmente na Vila dos operários da Fábrica de tecido Luiz Tarquinio, na Boa-Viagem, Cidade Baixa. Minha avó tinha somente o curso primário (nesta época, melhor e mais completo que muito curso superior). Nele, aprendeu matemática, caligrafia e até francês.  Então, muito cedo precisou enfrentar o trabalho fora de casa para ajudar a sustentar a família. Trabalhou, ainda adolescente, na fábrica de tecidos, juntamente com Josefa enquanto as irmãs e D.Catarina, minha bisa, tomavam conta da casa e serviam refeições para alguns operários.
Essas cinco mulheres mais adiante se mudaram para o Bairro Santo Antonio Além do Carmo, para a Rua dos Carvões. Lá, minha avó fez amizade com umas jovens costureiras que faziam seus vestidos e quando prontos eram entregues por um jovem e belo rapaz, recém chegado de Maragogipe, que estudava no Instituto Normal. Nesse vai e vem de entrega das costuras, Benita, mesmo sendo um pouco mais velha que o garboso maragogipano se apaixonou por ele e passaram a namorar. Mas essa já é uma outra história.
Agora, me interesso pela vida dessas cinco mulheres. Imagino as inúmeras dificuldades passadas por elas, com a total ausência de um homem numa sociedade patriarcal e provinciana como aquela das primeiras décadas do século passado, no Brasil, na Bahia, em Salvador. Neste contexto, cinco mulheres tiveram que viver juntas, suster-se, irmanar-se, curar-se e sobreviver. Essa casa com cinco mulheres certamente se opôs (e ainda se opõe) ao padrão tradicional de família esperado para a época. Nela há uma mulher negra, provavelmente ex-escravizada, e as demais usufruem da vida pública e do mundo do trabalho, fato incomum para outras mulheres de seu tempo que se ocupavam apenas da vida privada, dos afazeres do lar e contavam com o marido ou pai, como o provedor de seu sustento e o tutor de suas ações.
Não devia ser fácil aos olhares externos compreender a dinâmica daquela casa de cinco mulheres. Imagino que devem ter ouvido dixotes, piadas, falas preconceituosa de outras mulheres, como também devem ter sofrido provocações, assédios dos homens. Mas para trilhar esse caminho difícil, sobre o qual eu nunca havia pensado, vejo que a sororidade, a parceria, o companheirismo entre elas foi o lenitivo que as fez de cabeça erguida vencer toda sorte de obstáculos. Por isso, ainda ecoa em mim o orgulho de ser mulher, uma confiança fora do comum de que eu posso transitar nos espaços que desejar, que meu trabalho é minha força motriz, que minha família, especialmente, no seio das mulheres, é o lugar de acolhimento e amor para me curar e me dar forças para prosseguir.
Pensar dessa forma, ouvir o quanto para elas essa trajetória deve ter sido exaustiva me tornou mais parceira de minha avó Benita. Me fez ver o quanto o ocultamento do fatos das vidas delas era uma estratégia para nos proteger e nos fazer seguir adiante, acreditando que nós precisaríamos construir nossa Tenda Vermelha, a Confraria do Torço. Só agora entendo porque me lembrei tanto de minha avô quando li livro de nome homônimo.

Assim, sigo com vontade de preencher as lacunas da história de minha vó, saber de onde ela veio, o que de fato aconteceu como meu bisavô... Todavia, entre tantas heranças fortes que ela nos forneceu, fico feliz que essa aliança entre mulheres tenha sido a mim mostrada pela experiência dela. Compreendo que se hoje teço tantos laços entre mim e outras mulheres, parceiras, amigas, irmã é porque foi ela quem teceu cada um dos pontos que nos unem. Por isso, celebro seu amor em forma da maior gratidão possível. E desejo ansiosa que essa linha tênue costurada por essas cinco mulheres se vá tecendo entre as vidas das Júlias, Claras, Dris, Naianes, Camilas, Marianas, Açucenas e quem mais vier...

domingo, 14 de fevereiro de 2016

FESTA EM TRANSE




O Carnaval de Salvador sempre foi uma expressão máxima de suas classes populares e seu encantamento vinha, sobretudo, dessa força genuína. Todavia, a sua transformação em bem de consumo começou a atrair os olhares e interesses da indústria capitalista.
Na Bahia, tal atenção forneceu uma renda vultosa a muitos artistas, políticos e empresários, mas se transformou num ciclo que, praticamente, asfixiou o que dava vida ao evento. Empresários começaram a “camarotizar” o Carnaval, ou seja, investiram pesado em estruturas físicas com caros restaurantes e serviços que iam desde cinemas a massagistas, em espaços privados, com sistemas por eles denominados de all inclusive, a preços exorbitantes. A maior contradição é que, apesar de ambientados no circuito carnavalesco, os clientes desses locais se enfurnavam neles e mal assistiam àquela que um dia fora intitulada de maior festa popular de rua do mundo.
Outro fenômeno era o interesse de cantores e bandas baianas, profissionais mais do consumo do que da arte, em integrar o staff dos camarotes, legando a festa atrações desconhecidas e/ou sem o reconhecimento popular.
Simbolicamente, a violência é maior. O povo, que inventou a festa e que dá o tom dos ritmos e das canções, estava mais na margem do nunca. O sonho da felicidade, ainda que efêmero, havia sido alijado para os mais pobres. É óbvio que os governos baianos (municipais e estaduais), responsáveis pela festa, eram coniventes com tudo isso. O pior, a população baiana, sem condições de pagar pela inclusão em tais ambientes privados, ficava espremida nas ruas, sem sequer ter onde brincar, porque a abundância de camarotes gerava uma diminuição do espaço físico nas avenidas.
Atrelado a esse contexto, para os blocos afros, afoxés e aqueles que oportunizam espaços às classes populares era reservada a madrugada como único horário disponível de apresentação. As falas sobre segregação e até apartheid no Carnaval baiano apareciam nos principais veículos de comunicação do país. Nomes como Ivete Sangalo, Bell Marque e Durval Lelis defendiam que o evento deveria ser in door. O argumento maior para o fenômeno era que as classes média e alta temiam a violência das ruas. Portanto, era em nome da segurança individual e coletiva que as pessoas pagavam convictas por este serviço. O pretexto, na verdade, constituía-se em uma tentativa de tornar a festa mais rentável para alguns; em suas entrelinhas, o interesse dos clientes e empresários era elitizar o Carnaval baiano. E no Brasil, e principalmente na Bahia, isso significava embranquecê-la. Significava vendê-la para os turistas.
Entretanto, outra transformação começava a acontecer. Observava-se que os soteropolitanos começaram a debandar da cidade no período carnavalesco. Abundavam as meninas de salto agulha e cabelo escovado, fardadas dos abadás dos camarotes, ladeadas de garotões malhadões, pousando mais para as fotos das redes sociais do que se entregando ao êxtase da festa ou à “chuva, suor e cerveja”, cantada por Caetano, ocorrendo, assim, seu quase total esvaziamento.
Assim, quanto menos os soteropolitanos procuram a festa, mais artificial ela se torna, e aí, acaba por desagradar aos turistas também. Sem compradores de dentro ou de fora, os preços passam a ser menores. Decaem-se as vendas e a mesma indústria que praticamente destruiu a festa inventa estratégias de reanimá-la. Pouco a pouco, o Carnaval soteropolitano tem dado ares de fênix e evidenciado o seu tom educativo, pois, ao perder seu brilho, ao decrescer a participação popular e, proporcionalmente, aumentar os índices de violência, forçou muitas mudanças.
 Muitos blocos carnavalescos começaram a deixar de usar as cordas; o ministério público tem acompanhado e buscado evitar o péssimo tratamento dessas empresas aos cordeiros, uma espécie de seguranças da festa. Ocorreu a paulatina diminuição do número de camarotes e também um maior controle dos espaços da rua que eles ocupam. Hoje existe a revitalização de alguns circuitos, o retorno do Carnaval nos bairros populares com atrações localmente conhecidas, o incentivo a participação dos blocos afros e de índios em horários diurnos.
Esse conjunto de ações ocorreu graças a pressões populares e à união dos poderes públicos e privados. Isso diminuiu os índices de violência e fez com que os soteropolitanos voltassem à festa. Mas há ainda muitas mudanças a serem implementadas. A principal delas nem é na festa; é nas relações sociais que imperam no país, pois a desigualdade que se evidencia no Carnaval de Salvador faz parte da histórica conjuntura brasileira em que as classes trabalhadoras utilizam, às vezes, servilmente, suas forças para sustentar as regalias de uns poucos endinheirados e poderosos.
No mais, a lição que fica dessa história de ascensão, queda e tímido renascimento de uma festa popular tão rica quanto o Carnaval baiano é que o povo, o ator principal da festa, tem poder. Sem sua participação zombeteira, intensa, que inverte papéis socialmente impostos (de gênero e de classe, especialmente), sem a possibilidade da catarse e do sonho que o evento evoca esvazia-se seu sentido. Fica a lição a ser aprendida: este é um evento pedagógico, que nos evoca o poder popular, através da arte e da festa, e assinala o quanto tais manifestações nos ensinam a conviver com a diversidade, nos exortam a vivenciar o corporal, sem temer o suor, a carne, a sensualidade.