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quarta-feira, 27 de abril de 2022

A LOUCA

 

Eu atraio gente louca. Ou como diz Suassuna: “como sou do ramo, identifico os doidos logo”. E nem falo metaforicamente, falo de doido com CID, laudo médico e receita tarja preta. Desde menina, seja estudando na Lapa ou transitando por espaços do Centro, sempre eu era abordada por uma dessas pessoas para pedir algo ou até mesmo para conversar. Por isso, atualmente, sou eu a primeira que faz questão de falar, dar bom dia. Assim, minha aprendizagem sobre não invisibilizar essas pessoas se deu porque, de algum modo, eu nunca fui invisibilizada por elas.

Mas entre tantos e tantas, uma delas marcou minha alma profundamente. Ao contrário de Drummond, nunca soube onde ela habitava. Ela era, na minha cidade, a louca folclórica, conhecida por todos, afastada dos lugares e colocada num espaço entre o escárnio e o temor. Eu a via, circulando pelas ruas. Era magra, alta e negra, cabelos escorridos, ora presos, ora soltos. Devia ter no máximo uns 40 anos e transcendia nela uma imperatriz escondida na mendiga. Vestia sempre um maiô surrado e uma canga rota. Nas mãos, levava arames e um alicate. Dizia-se artesã e tentava empurrar a qualquer preço os produtos que inventava. Alguns falavam que ela era hippie e enlouquecera graças às drogas.

Eu sempre a via e de algum modo a respeitava. Um dos lugares onde mais a encontrava era na missa dos domingos na Igreja Matriz. Um dia, estávamos nós quatro, meu pai, minha mãe, eu e minha irmã numa pizzaria. Era um momento bem nosso aos finais de semana e ela entrou no restaurante. De cara, quando percebi que ela se dirigiu a nós, pensei: “vai pedir dinheiro ou comida”. Mas como num passe de mágica, ela rapidamente se recompôs, se empertigou, ajeitou a roupa e dirigiu-se a minha mãe:

- Professora Norma Moreno.

Minha mãe, entre assustada e surpresa, apertou os olhos e tentou enxergar a mulher que vinha antes de a louca ser a louca, ao que no silêncio de minha mãe, ela continuou, com voz mansa:

- Fui sua aluna no Instituto Federal de Biologia. Eu sou Benedita.

Os olhos de minha mãe se arregalaram e eu pude sentir seu coração murchar e bombear sangue até os olhos que rapidamente incendiaram e se alquebraram. Mas como minha mãe não é dada a esmorecimentos, imediatamente, levantou-se, abraçou-a:

- Meu Deus. Me lembro sim. Quanto tempo?

Benedita então conversou como se pessoa sã fosse, lembrando com minha mãe memórias da professora e da aluna. Portou-se com a educação da imperatriz que eu sempre achei que ela era, nada pediu, disse já ter incomodado bastante e se foi... E ninguém pense que ela se curou e voltou a ser quem era. Ela continuou sendo a louca da cidade, praguejando alto, andando suja e drogadiça pelas ruas, ora xingando as pessoas, ora aproximando-se para vender algo sem valor e sem beleza. No entanto, apesar disso, toda vez que via minha mãe era a mesma coisa. Começava dizendo: “Professora Norma Moreno”, parecia voltar a si, conversava com total equilíbrio e seguia vivendo a vida perturbada que talvez para ela se tornara sua masmorra.

É obvio que eu, meu pai e minha irmã, no dia da pizzaria, após a saída dela, fizemos uma imensa cara de interrogação, apesar de termos ficado em silêncio e perplexos durante toda a conversa. Foi aí que minha mãe, boa contadora de história que é, abriu seus fios de tecelã e nos narrou que Benedita era uma jovem pobre que ingressara na Universidade e havia sido uma aluna brilhante, dedicada e promissora. Belíssima como era, despertou o interesse de muitos homens, mas acabara se apaixonando por um estudante de Medicina, jovem também, branco e uma das maiores fortunas da cidade. O desejo foi mútuo entre ambos. Começaram a namorar e, em plena revolução social e libertária dos anos 60, decidiram se unir apesar do repúdio da família dele ao casamento. O noivo a priori decidiu franciscanamente largar tudo e viver com Benedita que logo engravidou. Benedita afirmava amá-lo, mas dizia-se radiante por aquela plenitude que agora habitava seu ventre. Era uma lua cheia de afeto por aquela que daria continuidade a sua existência na Terra. Mas depois, bem próximo ao término da graduação de ambos, ninguém nunca mais os viu. Desapareceram completamente. E circulou um boato de que Benedita havia parido em condições precárias e que a mãe do namorado tinha pego a força a criança recém-nascida e a levado para o Europa. O pai seguiu atrás de sua filha e Benedita, uma Iracema negra, sozinha, não morreu de tristeza, mas jogou-se no mundo em busca da filha. Ao que parece, para sempre, perdeu a filha. Perdeu a lucidez, perdeu o rumo, perdeu-se de si.

E talvez essa história devesse parar aqui porque ela já é triste demais. Mas outro evento com a louca também envolveu a mim e a minha família. Numa dessas missas de domingo, a que íamos religiosamente, ela entrou na igreja muito contrita, sentou-se próxima a nós e permaneceu atenta e entregue a todos os momentos do rito. Na hora da comunhão, entramos todos na fila para receber a hóstia consagrada e ela, como qualquer fiel, fez o mesmo. O padre lá na frente procedia como orienta o dogma e colocava o “corpo de cristo” nas mãos de cada pessoa, entretanto quando se deparou com a louca, de forma agressiva, cenho franzido e lábios rijos em forma de bico, balançou como o ponteiro de um relógio o dedo indicador num retumbante não e, ainda sem qualquer sinal sonoro, chacoalhou as mãos, enxotando-a dali. A louca saiu da fila, voltou-se a sentar próxima a nós, que olhávamos aquilo entre assustados e entristecidos. Ela não contou conversa, começou a bradar num grito mais intenso do que a voz do padre blindada pelo microfone:

- Que corpo de Cristo é esse que não alimenta quem mais precisa dele? Que Igreja é essa que não sabe acolher a única alma aqui que realmente precisa de alimento e cuidado? Que padre é esse que expulsa aquela que mais precisa ser incluída e abraçada?

Meu pai e minha mãe num gesto de proteção foram para perto dela na tentativa de alentá-la. E ela abruptamente pegou o alicate com a mão para atirá-lo no padre. Meu pai a conteve, a levou para fora da Igreja em seus braços, acompanhado de minha mãe e nós duas os seguimos de olhos arregalados. Lá fora, meus pais a afagaram, conversaram tempos a fio, até que ela se acalmou e se foi. Não ficou por aí, meu pai e minha mãe, cristão radicais, sentiram-se aviltados com aquilo, bradavam com certa raiva que ainda que o padre não desse a hóstia, ele tinha que ter sido protetivo e amoroso. Fizeram carta de repúdio para a paróquia, marcaram reunião com o padre e, até onde sei, apenas ganharam uma sacra inimizada.

E a louca, ou melhor, Benedita, eu, ainda jovem, desapareceu de nossos dias para todos sempre. Desapareceu, digo, dos nossos olhos que enxergam a materialidade das coisas, porque nas vistas da memória, ela fincou sua história em nós. Plantou em mim um desprezo por muitas das práticas de religiosos da igrejas cristãs. Mas também por isso me mostrou quem são meus pais e que talvez eles sejam tão cristãos como o foi o próprio Cristo e como nunca foram a maioria de seus seguidores. E mais que tudo isso me fez ver que uma mãe sem sua filha é alguém que nunca terá paz, sanidade, alento. É alguém eternamente a procura, com olhar fixo para o além, perdido num porvir. É alguém sempre disposta a atravessar um oceano para encontrar seu rebento. 

terça-feira, 10 de agosto de 2021

COMO APRENDI COM LUIZ GAMA A ENFRENTAR O RACISMO NA CONTEMPORANEIDADE

 


1.    Propague a história gloriosa de sua família, de seus ancestrais africanos. História bonita não é de rei nem rainha que passa o dia sentado no trono, sendo abanado. Sua avó nunca foi uma ignorante. Ela era uma retada, que sustentou os filhos sozinha e graças a sua lida na terra, possibilitou uma vida melhor a seus descendentes.

2.    Tenha uma meta vital inegociável: a liberdade.

3.    Invista em saber quem você é e afirme orgulhosamente em todos os espaços onde circular sua identidade racial.

4.    Aproveite todas as oportunidades de acesso ao conhecimento. Para nós, muitas vezes, eles são escassos ou subaproveitados. Invista principalmente em práticas de leitura e escrita (essas são tecnologias fundamentais que nos foram usurpadas).

5.    Evidencie de maneira destemida seu repertório intelectual e cultural. Isso vai te dar trabalho, porque num mundo racista, o negro sabido é um boçal. Não se importe, você sabe que não veio ao mundo à passeio.

6.    SEJA O MELHOR EM TUDO QUE FAZ. INFELIZMENTE ESSA AINDA É UMA REGRA NECESSÁRIA.

7.    Não esconda sua insubmissão. Assuma-a com inteligência e honradez. Seja altivo e teimoso. Ainda que pague a juros por isso.

8.    Nunca se ponha “no seu lugar”. Usufrua do direito constitucional de ir e vir. Acesse os espaços que quiser, sem ingenuidades, pois é possível que vc seja barrado inúmeras vezes.

9.    Rompa quando tiver que romper com qualquer instituição e/ ou pessoa que tente o aprisionar ou abafar seu caráter insubmisso (ainda que estes tenham contribuído com vc de algum modo, em algum tempo).

10. Crie uma rede de proteção. Aproxime-se de quem pode te ajudar, ampliar seu repertório, te proteger de situações adversas, mas nunca seja subserviente a essas pessoas. Diga sempre a elas que “dá-se com a mão direita sem que a esquerda veja”.

11. Crie estratégias autônomas de sustento da sua militância. Problematize suas ações, explore rasuras, enxergue e denuncie brechas do sistema.

12. Não permita que qualquer coisa te distancie de sua causa. Nunca se renda. Compre brigas monumentais, mas sempre busque um intervalo para o descanso.

13. Encare os momentos de enfrentamento, tragédias como reviravoltas que marcarão a sua vida e darão outros sentidos a luta.

14. Use a ironia e a sátira para falar de coisas sérias sem aparentemente agredir a quem te odeia, mas dizendo exatamente o que pensa e afrontando quem tem que ser afrontado. Isso não te colocará em lugar de vantagem, mas será um marcador fundamental de seu posicionamento político.

15.  Busque outros caminhos para realizar seu sonho. Luiz Gama publicou literatura e não teve a ressonância imaginada por ele. Foi para o Jornalismo... E revolucionou essa seara da comunicação.

16. Use seus recursos materiais e intelectuais para se aproximar de seus pares e auxiliá-los a chegar no lugar onde você chegou. De nada adianta conquistar um lugar ao sol se estiver sozinho, se não houver mais dos seus usufruindo do “topo da montanha”.

17. Não se preocupe em ter filhos biológicos, se você for um homem ou uma mulher que vive plenamente os desafios de seu tempo, terá sempre uma gente inspirada em seus feitos e honrando sua existência na Terra.

18. O mais importante: se for diabético, pratique exercícios regularmente, nunca coma açúcar ou carboidratos em excesso. Não é justo que uma doença crônica tão cruel não te permita ver seu maior sonho sendo concretizado.


Para os meus alunos de Literatura e Cultura Afro-brasileira (ainda que não gostemos do nome da disciplina), Campus XIII - Itaberaba.

 

terça-feira, 26 de maio de 2020

O CORPO DAS MULHERES COMO PAUTA DO FEMINISMO NEGRO


O corpo feminino sempre foi, para as mulheres, o primeiro território a vivenciar violências. Mais do que a família, do que o trabalho, do que as instituições educacionais ou religiosas, o corpo de mulher, no patriarcado, sempre foi alvo concreto de repressões, retaliações, proibições e marcas. Simplesmente porque não há como se apartar dele. Estamos presas a ele, ele denuncia nosso ser feminino, ainda que sejamos mulheres cis ou trans. Por isso, certamente foi e continua sendo importante pauta do feminismo negro. Entretanto, as questões reprodutivas - o direito por parir, por não parir, por saber quando parir ou o direito ao aborto - sempre vieram na frente de outras tantas questões que cabem no corpo, como a alimentação, padrões de beleza, o repúdio aos corpos gordos, o racismo, a branquitude como ideal de beleza, a obrigatoriedade das mulheres serem sempre jovens. E, por isso, toda uma sorte de violência patriarcal que nos oprime e nos condena acaba por se materializar em estupros, abusos na infância, violência doméstica, exploração sexual etc.
Infelizmente é fato que o patriarcado legisla desde sempre sobre nossos corpos femininos. As mulheres em algum tempo e de alguma forma já ouviram expressões que desqualificam ou seu jeito de vestir ou algum atributo de seu corpo ou algum comportamento ligado a ele. Eu, por exemplo, já ouvi expressões como roupa de vadia, roupa de periguete, roupa de mulher casada. Quando ouço isso, rastreio mentalmente as lojas de departamento que existem onde vivo e me recordo que em nenhuma delas há seções para as putas, para as santas, para as “belas, recatadas e do lar”... As roupas simplesmente estão lá numa seção feminina, o que realmente há é uma segmentação por faixa etária, perfil socioeconômico e por tamanho do corpo. Apenas isso. Ou tudo isso!
Além das vestimentas somos sancionadas sobre os comportamentos com o corpo. Qual menina brasileira no auge da sua liberdade infantil e espontânea de ser não ouviu um “fechas as pernas”, um “senta direito, menina”? Eu, menina, que amava ficar só de calçola, cabelos desgrenhados ao vento, invejava os meninos sem blusa até a eternidade. Lembro de uma viagem que fizemos ao Rio de Janeiro e a imposição de usar blusas dado os primeiros calombinhos de peito. Fui presenteada com um sutien rosa de algodão para amenizar o desejo infantil de andar sem blusa pela paisagem carioca. Ali, as fotos comprovam, estou eu menina moleca no Corcovado só de sutien de algodão e os cabelos crespos ao vento bem livres. Apesar de uma acentuada liberdade infantil, havia a censura: “Isso é um sutien, menina, tem que botar a blusa”.
No depois, tantas observações sobre o meu corpo de mulher. Eu, ainda menina, mas já grande e cedo ouvindo: “corpo de moça, hein?!?!” Não entendia objetivamente o sentido daquela fala. Com o tempo, ao viver as primeiras emoções de andar sozinha para ali e acolá bem pertinho (comprar um pão, quem sabe?) comecei a entender esse incômodo de ter tão cedo o tal “corpo de mulher”. Eram os assobios de homens, já velhos até, eram os gracejos sem graça ou os apelos pretensiosamente pornográficos e vulgares. Hoje na vida adulta, usando meu crachá de feminista e me afirmando identitariamente como mulher negra, não sigo o rito. Não faço conforme o combinado, porque a ordem quando ouvir as cantadas masculinas na rua é usar sisudez, fazer cara de séria. E eu só tenho vontade de explodir em risada, de tão bizarras que considero as cenas. Queria que o patriarcado não existisse para eu dizer: “Venha cá, velho. Você...  Você mesmo aí... Me chamando de gostosa, dizendo querer chupar a manga que carrego entre as mãos como se fosse a que está entre as minhas pernas... Você acha que essa é a melhor técnica de convencimento para atingir uma relação sexual ou você só quer me constranger mesmo”? Ou: “Quando vc diz: que saúde. Você acha que eu já não sei que sou uma pessoa saudável”? Ou: “quando você diz: vou te chupar todinha, você acha que minha libido vai explodir em êxtase e eu na rua mesmo vou transar com você”? Juro que queria segurar esses homens, olhar dentro dos olhos deles e aguardar a resposta que viesse. Desconfio que fugiriam de mim e me chamariam de louca, puta ou má. Assim, como por outra via, eu, jovem estudante de Letras, passando diariamente pela Lapa, quis olhar fundo nos olhos daquele menino negro, vendedor ambulante, que me disse entre risos: “você não anda, você desfila”. Eu o teria namorado, sim. Se não houvesse machismo... Simplesmente porque aquela cantada me fez mais mulher, não me feriu, nem me ofendeu, nem me invadiu, apenas levou poesia para meu dia.
E se falarmos de práticas sexuais, a questão não se apazigua. Pelo contrário, o problema se potencializa. Os meninos desde sempre cobrados ao namoro e ao sexo com uma mulher, já as meninas sempre sugeridas que deixassem tais práticas para cada vez mais tarde. Isso me trazia uma questão: se os meninos devem transar logo cedo em relações heterossexuais e as meninas devem retardar essa prática, com quem eles transarão? Na minha adolescência, virgindade ainda era um valor para as mulheres. Um valor diferente da época da minha mãe. Ser virgem era um problema para a minha geração. Era importante experienciar o sexo antes do casamento, mas não se podia ter muitos parceiros. Os meninos eram incentivados a não ter namorada fixa, a trepar muito e com diversas mulheres. O que só comprova que o sexismo também dificulta a vidas dos homens porque os obriga a ser uma máquina de sexo que está à disposição de toda e qualquer investida de uma mulher.
Já as mulheres deveriam se preservar, não podiam ser fáceis. Transar no primeiro encontro? Nem pensar. E essa conta não batia. Para eles, possuir o selo de “os putões” era uma qualidade. Para nós mulheres, ser puta era e ainda é tratado como um demérito. E tome-lhe idealização do masculino pelas mulheres, tome-lhe ficcionalização pelo homem perfeito. Muitas mulheres ainda esperam um príncipe encantado... E com o avanço da nossa presença na esfera pública, o crescimento nosso no mercado de trabalho e nas formações especializadas/ acadêmicas, muitas de nós travamos quando percebemos que nossos candidatos a companheiros não têm os mesmos salários que a gente, não galgaram a mesma titulação stricto sensu que a nossa ou não avançaram tanto profissionalmente como nós. Muitas de nós se intimida em ser a provedora de uma casa, porque simplesmente ainda anseia ser tutelada, cuidada pelo macho. Ou melhor, salva da torre por ele para ir viver no castelo dele. Isso sim, um perigo. Entretanto, homem nenhum por mais intelectualizado ou abastado financeiramente que seja se constrange em casar com uma mulher mais pobre e/ou com menor grau de instrução que o dele. Para o machismo, uma mulher casável só precisa ser bonita, a partir da ideia de um binômio absurdamente limitador: se bonita, burra X se inteligente, feia e perigosa.
E aí vem outro elemento opressor para as mulheres: uma certa obrigatoriedade em ser bela e leia-se ser bonita como aquela que se conforma ao padrão estabelecido de beleza. Havia um pagode que descrevia um indivíduo feminino com aspectos designados pela voz narrativa como feiura e um dos versos afirmava: “ela não era uma mulher, era uma assombração”. Ou seja, se não possui a beleza normativa sequer o signo de mulher pode carregar. Eu mesma vivi essa dicotomia que foi mais um motivo para me afastar do corpo. Na minha casa, havia essa diferenciação entre mim e minha irmã. Eu, a inteligente e ela, a bela. Isso gerou uma disparidade nociva entre corpo e intelecto, isso rompeu com o caráter holístico de todo indivíduo que, hoje sei, abarca em si inteligências, belezas, comportamentos, espiritualidades. Tudo junto e misturado. Tudo no plural. Somos mais complexas que uma coisa ou outra e ninguém condensa em si a completude de uma coisa só. Também ouvi por vários segmentos da cultura que os homens teriam medo ou repúdio a mulheres como eu. E eu na minha insegurança achava que falavam de uma possível falta de beleza minha, mas na verdade, queriam afirmar que minha capacidade de me posicionar, meu potencial para estar com segurança nos espaços públicos e minha autonomia gerariam certo desconforto aos homens imersos no patriarcado. E o pior: era verdade!
Sempre lembro das recorrentes listas das dez mais bonitas da escola como fator de opressão. E pensar que elas ainda vigoram nas academias, nos locais de trabalho. Antes, eu ficava curiosa para saber quem aparecia nelas na esperança de me ver lá dentro. Nunca tive coragem de saber se eu havia sido uma das eleitas. Agora finjo as ignorar. E a palavra é fingir mesmo, porque elas continuam me inquietando e me chamando atenção. Quando alguém me fala da existência das listas, logo penso que se eu não estiver dentro dela, vou ficar mal, porque não estarei sendo considerada bela e beleza é sim para mim aspecto importante. E também penso que se eu estiver dentro dela, eu também ficarei mal, porque se as listas obedecem ao normativo, caso eu esteja nelas é justamente porque estou formatada, adequada, conformada a um padrão que recrimino.
A parte pior e talvez mais vexatória é que essas listas são produzidas por homens, completamente defensores do sexismo e do patriarcado. E pasmem? A maior parte deles misóginos, ou melhor, podem até gostar de buceta, de trepar com pessoas que tem vagina, mas não gostam de mulher, não gostam do cheiro, das conversas, dos comportamentos, da existência feminina. Admiram mesmo, coçando seus sacos e cuspindo no chão, os homens e uma pretensa força bruta inventada sobre eles. São “homossocializados”, ou seja, mulher é um detalhe na vida deles, pois o que amam mesmo é se agregar entre seus iguais. E dentro do padrão de beleza masculina, a maior parte dos homens que conheci que faziam essas listas eram baixinhos, barrigudos, carecas, cheios de espinha na cara, eram feios para a normatividade de beleza masculina. Mas ainda assim se sentiam poderosos para definir quem eram as mulheres belas, as aceitáveis, as casáveis, as trepáveis...
Tardiamente, confesso, passei a considerar meu corpo e a beleza física como aspectos fundamentais da existência humana. Por longos anos de minha vida, desprezei falsamente tudo isso. Investi fortemente no intelecto e tratei como superficialidade tais questões. E até dizia que mulheres que se importavam com isso era fúteis e serviam ao patriarcado. E até podia ser. Mas eu na verdade, não estava sabendo compreender meu próprio discurso. O que eu queria dizer e não sabia é que meu combate não era a beleza e ao meu corpo físico. Minha briga era e é cada vez mais com a normatividade, com um padrão imposto como único e verdadeiro e este padrão vem a ser o da branquitude, da magreza, da juventude. Digo e repito isso didaticamente para que “entendedores entendam”.
Essa minha demora em considerar meu corpo de mulher como elemento fundamental da minha plenitude tinha um motivo legitimo. Hoje, sei. Eu o negligenciei por medo. Eu o calei e coloquei meu mental a frente dele, como medida protetiva. Não tolerava ser associada a alguém vazia e precisava lidar com a esfera pública com elementos como segurança, expressividade, coragem, ousadia. Não podia ser confundida com uma mulher bonita e sem conteúdo. Como se essas duas forças precisassem ser antagônicas ou precisassem uma anular a outra. Ouvi de uma colega que muito admiro, mulher negra, professora de um idioma estrangeiro, que costumava usar roupas antiquadas para dar aulas, para não ser desrespeitada, ou melhor, descreditada por parte dos alunos. E eu pensava: “será uma questão de gênero ou raça”? Eu mesma, certa vez, e já com outra perspectiva sobre tais questões, fui convidada a ministrar uma palestra sobre os resultados da minha tese na UFBA. A professora que me convidara, apesar de nunca ter estado comigo presencialmente, tinha lido meu trabalho na internet e o considerou interessante. Ela, uma mulher mais velha e branca, ao me ver, olhou-me de cima abaixo e me perguntou: “Você é mesmo, Luciana Moreno? Tão jovem". Eu apenas ri. E eu já contava 37 anos.
No agora, pela busca em torno do meu ser mulher e por questões de saúde, passei a me dedicar com certo constrangimento a alimentação saudável e a atividade física frequente. Falo desse constrangimento porque ainda permanecem em mim e fora de mim certa cobrança pela polaridade: como uma pesquisadora, doutora, professora da Universidade, pode ter mais fotos com roupas de malhar e de biquíni nas redes sociais, do que fotos com os trajes designado estereotipadamente para as professoras? Me inquirem. Como uma feminista negra pode dar tanta atenção ao corpo? Como se essas práticas de autocuidado e de consideração central do físico não fossem também importantes pautas do feminismo negro...
Mas confesso que ainda me aflige pensar que o normativo quando se fala em beleza do corpo feminino está associado a uma pele quanto mais clara melhor, a um cabelo liso ou alisado, a narizes finos, a olhos azuis ou verdes. Me preocupo quando me estresso com os meus fios brancos que já insistem em denunciar que já passei dos 40. Nem sei se me aflijo mais com os fios ou com a minha própria neurose em escondê-los. Essa insatisfação significa que envelhecer não cabe na norma de beleza. Numa fase de pouco autoamor, ouvi de uma colega aparentemente feminista, ao ver meus cabelos não pintados, que eu corresse para empretecer os brancos porque aquilo me fazia parecer desleixada. Certamente, ela não diria o mesmo das garotas escovadas e com mechas, que apesar dos cabelos poucos saudáveis, sujos, enfraquecidos e cheios de química se adequam mais ao tal do padrão. Por fim, sempre olhei para mim - uma mulher nunca magra, sempre cheia de pernas, braços e bunda - com dúvidas e temores. O 36 tão sonhado nunca vi passar pelos meus quadris que no auge da minha rara magreza comportam apenas o 42. Me entristece ver as fotos da minha infância e adolescência em que eu me julgava uma pessoa imensa, e eu era apenas uma menina com largos quadris, pernas e braços longos, seios fartos. Tinha no máximo um sobrepeso que não me prejudicava a saúde física, mas massacrava minha saúde mental.
Tenho uma amiga negra um pouco mais velha, com sobrepeso e solteira que diz de forma jocosa uma violência sofrida... Ela afirma que na Balada quando vê jovens, magras e brancas, fala para si mesma: “fudeu”. Então, espera os caras escolherem as brancas, depois as magras, depois as jovens. E ela fica num dos últimos lugares da fila à espera de um boy que a deseje. E eu fico a pensar se está no campo do desejo mesmo esse preterimento a ela. E chego à conclusão que a tardia escolha por essa amiga nas festas se dá mais por racismo, gordofobia e questão de faixa etária do que por ausência de afeto, atração física, tesão, excitação.
Uma das provas disso é que essa amiga não tem namorado, mas ela trepa muito. Ela tem muitos amantes. Mesmo na solidão de seu apartamento, está sempre com uns boys, seja em casa, nas redes sociais ou na rua. Os caras a procuram, ligam para ela. Ela tem uma vida sexual bastante ativa, mas tem dificuldades para arrumar um namorado, um companheiro, um esposo, um marido seja lá como se nomeie essa pessoa que além de trepar com você trancafiado nas paredes de um quarto, também desfila com você nas ruas, te apresenta para a família e muda o perfil de relacionamento do facebook.
Então, eu penso que há uma contradição aí, porque esses corpos femininos fora do padrão hegemônico atraem o desejo e também o afeto do outro para si e atraem muito. Essa amiga diz que quando quer dar um basta naquele cara que sempre a procura para sexo que já não se pode mais ser considerado como casual, dada a frequência, os caras simplesmente enlouquecem, fazem cena de filme romântico americano, prometem amor eterno. E eu me pergunto: se fazem isso, porque não assumem essas mulheres para além do espaço íntimo, ainda que elas queiram? Então, eu reafirmo que essa não escolha pelas mulheres pretas, gordas, mais velhas não se dá na maior parte das vezes pela ausência de desejo e afeto, mas sobretudo por algo mais do social do que do íntimo. Também entendo que quanto mais a gente fala disso mais mulheres negras, gordas e mais velhas questionam o padrão excludente, tomam a ideia de beleza para si e rompem com o sexismo, se vendo como bonitas e defendendo seus próprios padrões de beleza.
Eu sei que mulheres brancas, magras a até jovens também possuem reclamações legítimas. Nenhuma mulher cabe em padrão tão limitante e irreal, nem as super top moldels. Elas também são achincalhadas quando escapa nas fotos uma estria na bunda. As fotos delas também passam por uma série de aplicativos para a adequação de seus corpos pretensamente perfeitos. Mas há de se pactuar que umas mulheres – justamente por questões de raça, classe e faixa etária – são mais preteridas que outras.
Nesse caos repressivo por qual os corpos femininos têm passado na história do patriarcado, há um reencontro. Aliás, um enamoramento. E essa paquera sensual, erótica e intensa é de mim para o meu próprio corpo feminino. Nada tem a ver com estratégias para potencializar o desejo do outro – geralmente um macho – sobre o meu corpo. O fato é que a duras penas e olhando para o meu corpo sem véus nem subterfúgios, comecei a perceber que há um corpo que me abriga, me acolhe, me conforta. Há um corpo no qual me sinto segura e dona de mim. Esse corpo não está dentro da normatividade, porque ele não é magro, não é branco e não é mais tão jovem. Entendi – ou inventei – que esse corpo tem que ser fora de qualquer padrão mesmo, porque a ordem do universo é a diversidade e só existe uma eu no mundo. Eu não caibo e me esforço para nunca querer caber num padrão, seja ele da superioridade magra ou do empoderamento gordo, por exemplo. A minha terapeuta sempre me chama atenção do quanto eu quero me filiar a esse ou outro bloco e a resposta talvez seja eu perceber que o meu corpo de mulher pode muito, ele é livre, não cabe em caixas, não tem limites.
Entretanto, se eu parar por aqui, terei uma visão ingênua e descontextualizada, pois ao mesmo tempo que meu corpo é livre, eu vivo num mundo que não é livre, que é sexista, patriarcal, racista, gordofóbico etc. Para além disso, vivo num mundo onde pessoas enriquecem construindo limites e insatisfações sobre e para o meu corpo. Por isso, esse corpo livre também precisa ser político e se rebelar. Esse corpo precisa perguntar-se a si mesmo e lançar perguntas ao mundo sobre as razões de tantos limites, repressões e violências. Esse corpo precisa não se conformar nem se confinar. Ele deseja se expandir e se afirmar cotidianamente.
Não querendo desdizer o que eu já disse antes, afirmo: não descarto o outro como fundamental para eu me assenhorar do meu corpo. E no meu caso, esse outro ou esse alguém que eu quero despertar o desejo sobre o meu corpo é geralmente um homem. Que como diz uma amiga minha: “homem é bom, mas eu não recomendo para ninguém”. E eu não recomendo justamente por esse homem na maior parte das vezes estar imerso no sexismo,  ser defensor de um padrão e juiz da normatividade dos corpos femininos. Eu não quero isso para eles também. Não quero que os corpos deles sejam escravizados por uma norma de beleza masculina. Até porque no meu ideal de beleza dos homens para além do corpo físico, me chama a atenção a inteligência, a sensibilidade, o bom humor, a sedução.
Só que apesar da minha identidade ser construída também a partir desse olhar masculino, eu sei que esse processo de afirmação de mim não só perpassa pelo olhar do outro. Eu descobri que invisto fortemente no corpo que me sustenta não apenas para mero prazer do macho. Quem se deleita e goza no meu corpo sou eu mesma, por isso, devo tratá-lo como um templo sagrado, como uma pauta política e ideológica de minha existência. Meu corpo é pauta do feminismo negro e cuidar dele e amá-lo e querer que ele seja saudável e pleno é uma ação política. Não é justo que, tendo cinquenta trilhões de células que desempenham inúmeras funções no espaço do meu corpo, eu o negligencie, o maltrate ou o violente, prendendo-o a padrões limitadores e até impossíveis de me encaixar. Deus me livre de entrar numa fôrma e aniquilar a liberdade deste lugar que é a única morada de minha alma.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

SOBRE "DENTE-DE-LEÃO: A SUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER"


Depois que Sacolinha veio à Bahia em 2017, muita coisa aconteceu de formativo para nós do GELPs. Eu, por exemplo, fui afetada de muitas formas e convidada a conhecer o que era a Comunidade do Conto e a realizar um trabalho de revisão dos textos literários ali produzidos. Destaco que, como professora de Língua Portuguesa, já havia revisado artigos, monografias, dissertações, mas nunca havia realizado o mesmo empreendimento com textos literários. Sacolinha, corajosamente (ou seria cegamente?), me convidou a fazer este trabalho. Experimentar a revisão de textos literários de diversos autores, tratando de temas contemporâneos e arriscando estruturas e linguagens as mais diversas, foi uma aventura deliciosa. 



Era um teste para o que viria depois: revisar o primeiro livro de crônicas do Escritor Sacolinha. Confesso que fiquei tensa com o convite, mas, como versejou Drummond, “fomos de mãos dadas”: aprendi neste processo um tanto de coisa sobre a escrita literária e o trabalho de “inspiração e transpiração” de um escritor. Eu recebia as crônicas, as revisava e as enviava de volta ao autor. Homem aperreado, Sacolinha defendia com unhas e dentes cada milímetro do seu texto, mas aceitava e compreendia as sugestões dadas para ampliá-lo. O texto e sua comunicabilidade estavam sempre à frente de tudo. Nas idas e vindas que houve em cada uma das leituras, ele perseguia a palavra perfeita e não sossegava enquanto não enxergava a fluidez do verbo. Isso cansava, exasperava, mas era bonito de se ver.



Depois das revisões feitas, pude acompanhar sua preocupação com todos os detalhes que compõem esse bem material/ objeto cultural/ produto de mercado chamado LIVRO. Lembrei-me que, certa vez, ouvi na UNICAMP uma pesquisadora dizer que Machado de Assis conversava com editores sobre tamanho de letras e melhor gramatura do papel para agradar aos leitores. Sacolinha e Machado sabem que livro tem que circular, tem que ter vida, tem que conversar com seus leitores. Livro não é objeto decorativo para ornar estantes. Livro só serve se for bem aberto e lido!



É preciso pensar o livro como esse objeto táctil, memorando agora Caetano Veloso. É bom tocá-lo, cheirá-lo, passar as mãos nas folhas. É bom riscá-lo, autografá-lo, profaná-lo. Livro não é objeto sagrado. Livro é mundano. Vai na mão de qualquer um e se arreganha ao mais leve toque de um leitor atento e cuidadoso. Tudo isso evoca prazer, porque livro é sensual demais para ser feito de qualquer jeito. Para além disso, ao mesmo tempo que nunca é sacro, ele é mágico, enfeitiça, pois funciona como um portal por onde adentramos para dentro e/ou para fora de nós mesmo.



Sacolinha sabe e me ensinou com generosidade que essa potência entre o material e o transcendental precisa ser trabalhada com zelo, e também[1]  sem muitos pudores, porque livro é produto de mercado, precisa ser vendido, por muitos motivos, dentre eles, o fato de o escritor ser um profissional que vive dos livros que comercia. Por compreender a questão do mercado e da arte como conjugáveis, o escritor susanense investiu numa bela capa, em paratextos que se afinam à proposta do seu livro sem antecipá-lo, mas cumprindo a função de aguçar o desejo do leitor pela leitura. Cuidou de uma diagramação cheia de fotos poéticas, produzidas por diversas pessoas, dentre elas a bela assistente Alanda, cria rebento do escritor.



Atentou-se para uma divulgação paulatina, fazendo várias etapas de pré-venda e também publicizando ações para promover o acesso ao livro. Sacolinha é daqueles que, para além do livro físico, explora outros suportes que contribuem para a disseminação da informação de que o livro existe e está sendo lançado e comercializado. Tudo isso também tem como finalidade atrair leitores, o que fomenta a prática da leitura literária, como instrumentaliza os leitores a se letrarem. Por isso, quem quiser pode ter acesso a marcadores de livro, a adesivos, a postais e camisetas com fragmentos do livro de Sacolinha que servem como aperitivos para os leitores. Provam um tiquinho aqui e acolá para sentirem-se famintos pela obra completa.



Neste processo que acompanhei, vi o escritor ser o editor e passar por todas as etapas que envolvem este processo: a criação, a revisão, a construção de paratextos, a preocupação com os aspectos gráficos, a divulgação, a distribuição. É muita coisa. E talvez nem seja justo exigir que todo escritor faça isso. Mas eu me pergunto: quem não está nos espaços de privilégio deste país e provavelmente não fará parte do grupo excludente das editoras multinacionais que aqui dominam um mercado (o legitimado, incensado, mas não o único), pode apenas escrever e não se comprometer em fazer circular seu livro? Pode apenas escrever e não se envolver com a formação de público leitor entre os nossos? Nós que creditamos à leitura um potencial revolucionário para os nossos, podemos aguardar bom tempo para que os textos literários produzidos pelas populações pretas e periféricas deste país cheguem aos seus leitores ideais? Eu sei as minhas respostas, mas as deixarei em aberto...



O livro “DENTE-DE-LEÃO: A SUSTENTÁVEL LEVEZA DE SER” é obra que sai da linha. Vai na contramão do que superficialmente (ou preconceituosamente) se diz de uma escrita proveniente de contextos periféricos. Quando se quer inferiorizar tais textos, afirma-se que são descritivistas, tratam de temas limitados e ligados apenas as mazelas sociais ou a uma margem criminal. Sem sair da cena das periferias de São Paulo, Sacolinha vê seu Jardim Revista como Alberto Caeiro: “Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer/ Porque sou do tamanho do que vejo”. Na periferia do Sacola, cabe o mundo todo, pois é o olhar vasto (assim como vasto é o mundo) do escritor que consegue enxergar o que ali está, mas é negligenciado, negado, silenciado.



Nas crônicas, Sacolinha ora compreende a dimensão política de fazer uma horta orgânica ora denuncia as artimanhas das tecnologias de comunicação contemporâneas para roubar nossa atenção e nos encarcerar em cavernas. O escritor provoca-nos a pensar o quanto, para além da violência do armamento empunhado pelo estado e pela criminalidade, estamos sendo mortos lentamente por uma indústria alimentícia associada à indústria farmacêutica.



A leitura é tema recorrente. Leitor que é de Saramago, preocupa-se com uma cegueira que nos nega a ver e, sobretudo, a reparar... Indica textos preciosos que vão desde o clássico “Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marques à canção “Era uma vez” de Kell Smeth, passando pelo filme “A livraria”, de Isabel Coixet até chegar a um almoço no Restaurante Bacalhau do Firmino. Traduz o centro da capital paulistana para afirmar que a periferia precisa apoderar-se de seu espaço, sem jamais deixar de ocupar o centro das cidades.



O livro tem a leveza e a força da flor “Dente-de-leão”, que com uma brisa se despedaça e parece se dissolver no ar, mas que, ao se espedaçar, vira semente e alcança a amplidão, fertilizando lugares inimagináveis. Lê-lo é prazeroso, mas é sobretudo formativo e orientador, pois aponta caminhos possíveis das pequenas revoluções cotidianas. De cá, sinto-me repleta de gratidão pela trajetória, porque enquanto Sacolinha gosta de ostentar sua biblioteca, como está numa das crônicas, eu ostento sem modéstia as aprendizagens amealhadas com aqueles e aquelas que me dão a honra de seu convívio. Ouvi da pesquisadora-poeta Hildália Fernandes, num Teoria Sobre Nós, que Carolina Maria de Jesus dizia a si mesma: “Muito bem, Carolina”. Em uma de suas crônicas, Sacolinha repete a ação de Carol e diz a si mesmo: “-Parabéns, viu? Você está de parabéns! Ficou muito bonito e de bom gosto”. Eu de cá só faço coro!

Luciana Moreno

Uma aprendiz de revisora


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

LÁ NO CEMITÉRIO

Quando venho a Ilha Grande é de lei a visita ao cemitério com meu pai. Lá está a carneira onde meu avô Antônio Egídio foi enterrado e hoje também estão os ossos de meu Tio Vavá. A gente segue caminhando lá para o Cantagalo. No percurso, meu pai vai revendo os antigos amigos. Eles se apresentam, se olham, miram os rostos uns dos outros, marcados pelo tempo, até que se reconhecem e começam a contar histórias do passado. Aqui meu pai não é Guido Moreno (o sobrenome de meu avô). Aqui ele é Guido Dócio, filho de Maria Dócio e irmão de seu Vavá. Moreno só no continente, porque na Ilha ele é lembrado pelo dócil nome da mãe.
Depois dessa procissão animada e risonha, a gente começa a ficar mais quieto porque o cemitério vai se aproximando. Fica bem no alto. Meu pai diz que é para se chegar mais perto ao céu. É cercado por uma mata onde pode se ouvir de lá o barulho da maré. Do lado da carneira onde estão os meus, nasceu um cajueiro, em que parasitam gravatás e faz uma sombra tímida. A gente vai se aproximando meio contrito e o choro de meu pai é certeiro, forte, emocionado. Ele se justifica dizendo que sabe que não tem mais nada ali. E acrescenta: "o que meu pai deixou não se guarda num túmulo, se expande na vida". É que meu pai é metido a prosador. Eu nem posso entender a emoção dele. Só sei que gosto de ir lá. Ainda que me pele de medo de alma. Mas ouso dizer que ali é o melhor cemitério do mundo: no alto de uma ilha quase paradisíaca, com direito a mata verde e brisa do mar.
Lá, eu e minha irmã só acompanhamos meu pai. Eu tiro os matinhos que insistem em crescer em volta do túmulo e faço orações de agradecimento. Aliás quando estou na ilha rezo o tempo inteiro. Agradeço a beleza de ter os meus ‘beiradeiros’ vindos daqui, vejo o quão privilegiado é poder desde sempre usufruir de um mar que não se acaba e de um céu que nunca se finda. Lá, eu, meu pai e minha irmã vamos apenas para prestar homenagem ao meu avô que me daria um nome se eu menino fosse. Vamos para dizer a ele o quanto ele foi cedo, apesar de ter feito tanto por todos nós.
No fundo, não estou certa, mas desconfio que gente só vai lá mesmo para reverenciar o passado e confirmar a nossa existência. Ser quem somos hoje depende demais de conhecer uma história anterior a nossa.
Por isso, nessa caminhada rumo ao cemitério, apesar de ser povoada por tantos medos, o único receio que me aflige é de no próximo verão não poder mais voltar. Porque sei que sou finita, que minhas gentes são finitas, assim como “tudo que é sólido desmancha no ar”, como afirma o velho Marx.
Eu e minha irmã dizemos que parece que a Ilha parou no tempo e a gente de forma egoísta gosta bastante disso. Mas meu pai nesse passeio fúnebre e, ao mesmo tempo, festivo, porque é um passeio de encontros e da confirmação da despedidas, nos mostra as casas que desmoronam porque os jovens já não veem mais futuro por aqui, nos mostra onde era a festa de são João, padroeiro da Ilha, e havia quermesse e quadrilha. Aponta para o campo, na verdade a maré seca, onde o time de Futebol Bonsucesso fizera história. Meu pai no nosso passeio também nos mostra algumas ruinas, dentre elas as da antiga Igreja de São João. E eu, na vã tentativa de não deixar o passado escorrer por entre nossas mãos, as fotografo para assegurar nesses tempos líquidos um pouco mais de solidez.
No caminho, entre conversas e lágrimas, lembrei de um texto que constava num cd de músicas italianas de Zizi Possi. Ela dizia que sonhou com o avô já falecido. Este percorria um dos bairros italianos de são Paulo a procura de vestígios de sua história. Mas a casa onde morara no passado, a rua onde viveu e o bonde já haviam sido apagados pelo progresso. Em um momento, o avô no sonho desespera-se e chega a duvidar da própria existência. Fiquei a pensar se Antônio Egídio volta-se a Ilha... Será que tomaria o mesmo susto? Até que o avô narrado por Zizi Possi encontra as ruínas da igreja onde havia se casado e só assim se conforta. Ao olhar para as marcas do passado deixadas no presente, ele confirma que um dia realmente existiu.
A ilha é assim para mim. É o meu relicário. Nela, eu compreendo que antes de mim houve gente para garantir minha estada aqui. E essa gente existiu de fato. Elxs mercaram nas venda, cruzaram essa baia de canoa, tamanca, saveiro ou navio, se casaram, fizeram filhos, netos, bisnetos... Na Ilha, eu me reenergizo simplesmente porque vejo que se hoje existo e resisto é porque houve outros que também se aventuraram nas incertezas da vida.

Então, eu, meu pai e minha irmã vamos cumprindo nosso trajeto de volta ao Furado (localidade onde está a casa de nossos avós). Ficamos reflexivxs. E eu cá com um certo medo de num futuro próximo me perder do meu passado e já não ter nem gentes nem prédios para me garantir que minha existência não passou de um sonho feliz. Porque, por mais ilusórias que elas sejam, a gente precisa de eternidades.







domingo, 5 de novembro de 2017

NO AEROPORTO

No aeroporto

E agora cá estou
Pensar é um imperativo 
(pelo menos, para mim)
Tem gente (e como eu as admiro) 
que consegue ir indo na vida,
Deixando rolar
Querendo entender só na hora do acontecido (e olhe lá)...

Eu e meu zodíaco que me dicotomiza
Ora vou como quem navega sem rumo (e sobrevivo)
Ora sou a cigana oblíquia dissimulada ansiosa por vaticinar o futuro
Também me travisto da terapeuta (ou seria da Sherlock Holmes?) 
e fico buscando as pistas da vida 
para afirmar com exatidão tanto o que já está dado quanto o porvir.

Vivo e vivi tanta coisa nesse tempo que acaba de fechar a porta
Que agora me obrigo a pensar:
O que eu vou fazer com tudo isso que ora trago na mala?
Amor, sonho, encontro, perdição, sorte
Nó na gargata, amizade, risos intermináveis...
Não vai ser mesmo fácil desarrumar essa mala
Até porque nesse movimento o pior é saber onde encaixarei o que sairá da mala.
Nunca sei se escondo, se escancaro, se uso logo, se desprezo.
Pior... Me programo para usar o que acabarei desprezando
Me organizo para desprezar o que certamente vestirei até ficar roto de tão gasto

Mais do que o que está na mala,
Trago em mim um universo inteiro 
e a lágrima queima na garganta
Trago e uma fumaça sai lentamente pelo nariz e pela boca 
Ela se dissipa pelo meu corpo, minha alma, meu sexo
É uma fumaça lenta
Que evoca o fogo que mora em mim
Fogo e ar. Combinação explosiva
O ar não apaga o fogo.
Pelo contrário, o alimenta.

Respiro, me controlo, faço agenda e diário
Vou pra terapeuta
Tento racionalizar
Mas eu sei (como eu sei) que eu sou dessas...
Sou dessas que sofrem, anseiam, planejam
Mas permitem que a vida flua
Sou dessas que pensam por A e por B, que se obrigam cautela
Mas que na hora H fazem o que o corpo, a alma, a emoção ordenam.
Considero melhor assim para a saúde física e para evitar enlouquecimentos.

Estratégias não há...
Como sobreviver para a eternidade assim
Sem ter lido, resenhado e aplicado a Arte da guerra?
Como sobreviver desprezando o sobreviver e acreditando que tem todo direito a viver com plenitude?
Como sobreviver a mim mesma sem saber como lidar com aquilo que carrego na mala?
Vim com apenas dez quilos. 
Agora volto com uma tonelada.

Antecipo. É de lei!
Só o tempo vai dizer que caminho trilharei
O que quer que aconteça
Agradeço o que coube na mala
Era o que precisava vir.
Ela não me pesa. 
Era mesmo o cabível que ali entrou
Nada que precisava estar ali foi excluído.
Sou eu inteira quem está na mala
Portanto, parece robusta e forte, mas...
Cuidado. Frágil!

Mais um percurso e eu descubro
Quais os cantos acomodarão tudo o que está na mala
Pressa não há, nem nada
Vejo apenas a mim mesma
Arriando as malas em casa
E abrindo-a...
Mistério!





ps: sorry, nunca sei fazer poemas!

domingo, 27 de agosto de 2017

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS...

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS...: Ela me disse que, em outros tempos, morria de medo de mostrar o corpo, seja na praia, seja na intimidade com um parceiro. Assustava a ela ...

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS...

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS...: Ela me disse que, em outros tempos, morria de medo de mostrar o corpo, seja na praia, seja na intimidade com um parceiro. Assustava a ela ...

SOBRE CICATRIZES E O QUE SE PODE APRENDER COM ELAS

Ela me disse que, em outros tempos, morria de medo de mostrar o corpo, seja na praia, seja na intimidade com um parceiro. Assustava a ela a ideia de revelar o escondido.
Eu concordava, balançando a cabeça, porque despir-se para quem tem mais intimidade com o outro do que consigo mesmo parece mesmo assustador. O medo é de frustrar o que a imaginação do outro construiu sobre nós. Sermos menos do que aquele que nos desejou idealizou. E aí vem outra questão: nosso corpo é sempre tratado mais como objeto de prazer do outro do que de nós mesmas. Custa para nós entendermos que não temos o menor poder sobre os gozos alheios. A gente pode até mediar, envolver, mas cada um só lida com o próprio desejo.
Tudo isso ela me dizia como ares de que já aprendeu a lidar com suas próprias cicatrizes. Me contava, meio garbosa, que celulites e estrias a assustavam menos. Mas ao distanciar o olhar ao longe, ela constatava com pesar: as cicatrizes sempre a intimidaram... Na infância, ela foi a que subia em árvores, vivia em quintais, tomava banho de chuva, ia para a praia à pé, onde ficava esticada ao sol, “lagarteando”. Por isso, desde cedo, marcas diversas povoaram seu corpo.
Um dia me falou sobre um texto que recebera via whats app. Narrava uma tradição oriental de não descartar louças quebradas, mas corrigi-las com uma tinta dourada e, quanto mais marcas houvesse, mais a louça era reconstituída, mais tinta iluminada era colocada e mais valorizada se tornava a peça. Ela me disse que o corpo dela é como essas porcelanas. E hoje narra-se assim.
Num antes, sempre tivera medo de que a vissem despida. Sem casca. Na superfície. “Olhar meu corpo nu no espelho é conquista da idade adulta. E cada vez com mais tranquilidade. E pior mais costumeira, pois como se fala na Bahia, descarei...” Me dizia isso, rindo alto. E assegura que em seu corpo há várias cicatrizes. E todas elas contam história... São as primeiras tatuagens que carrega.
No punho do braço direito, ela tem um raiozinho. Foi uma vez em casa, antes dos seis anos. A mãe na rua, trabalhando. Era professora, trabalhava fora desde sempre. Ela e a irmã só com a babá. Ela corria como correm as crianças e ainda tinha nas mãos uma xícara cheia de doce de leite. Então, a lei da probabilidade foi certa. Caiu, a xícara quebrou, rasgou o punho. A vizinha que foi levar ao hospital. A mãe, coitadinha, tão culpada se sentia por não estar lá na hora da confusão, na hora dos primeiros pontos. Ela nunca considerou isso ruim. Sempre achara o máximo ter a mãe provedora, independente... Heroína!
Na parte interna entre braço e antebraço direito, há uma outra de quase quinze centímetros. Foi uma queda de bicicleta já na segunda infância. Aprendeu tarde e com muitas dificuldades a andar de bicicleta. A mãe prometia pagamento a quem conseguisse o feito de ensinar a garota a pedalar. Ela era medrosa e até meio abestalhada. Enquanto todos corriam de lá para cá, se negava a passear com a magrela. Mas, depois, não sei se por desejo ou cobrança social, pegou a bicicleta escondida e desceu um beco estreito cheio de arame farpado que ficava ao lado da casa dos avós maternos. Por que ela é daquelas que está no oito ou no oitenta. A história de que a virtude está no meio diz nada a ela. Assim seria sua vida, entre não querer nem chegar perto da montanha ou se jogar do alto do despenhadeiro. Depois disso, aprendeu a andar de bicicleta e ficou com sua marca vida a fora.
Os seios dela se emolduram, pela parte de baixo, numa linha fina e rosa. Outra cicatriz. Delicada. Mas cicatriz. Foi já no fim da adolescência, a opção por fazer uma plástica de redução de mama. Essa foi a única cicatriz que não veio num rompante. Veio como um presente da avó materna, seu símbolo maior do feminino. O arquétipo de Athenas que a persegue, a sufoca, pedia a feminilidade, a sensualidade da Afrodite soterrada por ela desde criança. Ter sido parida pela cabeça do pai, ter nascido para ser um menino que nunca conseguira ser, sempre dera um trabalho danado a ela. Sempre pronta a agradar, a resolver, a liderar, a ordenar o mundo de fora. E silenciar o mundo de dentro. Nesse movimento, esquecia-se de contemplar seu próprio corpo, de vivê-lo ... Então, decidiu muda-lo ao seu bel prazer. Não queria a ausência da mama. Pelo contrário, queria que ela apontasse para cima, que fosse possível encobri-la com a palma da mama, a queria rija e delicada, segura e juvenil. E assim, fez. Aos 17 anos.
Outra linha cicatriz vai de um lado a outra da parte inferior da barriga. Essa, a mais dura. E também a fundamental. Parece uma marca de cesárea, mas não foi uma parição, pois ela nunca teve filhos. Quando ela me fala dessa cicatriz, ainda que sua boca pareça sorrir, seus olhos estão molhados de água do mar. Foi na idade adulta, num tempo em que acelerou tanto os motores do empoderamento, das conquistas individuais, dos sonhos de trabalho, que mais uma vez deixou o próprio corpo à deriva. E no auge das suas conquistas profissionais e financeiras, se viu numa sala fria e escura: ela, o médico e a faca apontada para si. Havia algo perigoso no lá de dentro, mas ele deveria sair e pior estava colado a algo que era dela, algo que para ela significava o futuro. O doutor não contou conversa. Foi definitivo. Puxou a falsa semente pelos dentes e cabelos. Mas esta, por sua vez, sabe-se lá se por vingança, grudou-se no ovário e só deixou o corpo de minha amiga, arrastando-o de lá junto consigo.
Depois disso, a naturalização médica. “Não era nada”, afirmava o doutor com ares divinais. Havia sim possibilidades. Remotas. Mas havia. E o caos, o fundo do poço, a solidão a aninharam por longos dias e longas noites. Banhou-se em suas próprias lágrimas, até quase afogar-se na sua própria exaustão. Frações de segundos antes de submergir para sempre, ela abruptamente boiou, como se uma majestosa vitória régia fosse e seguiu cicatrizada, transformada. Essa cicatriz arrancou ela de dentro dela. Pariu-se a ela mesma. Desdobou-se numa outra, bela, assustadora, transfigurada.
E assim, seguiu... Marcada vida a fora. Agora, nua, vê-se no espelho. Contempla as cicatrizes. Algumas se apagaram. A mais recente foi pintada em branco na parte interna da coxa esquerda, próxima a seu sexo. Foi num passeio pelas águas doces de Andaraí. Na hora, da queda, ela riu, porque parecia que o galho que a marcara desejava penetrá-la, como homem.

Feita de terra e água como ela é, certamente, não vingará ilesa. Deverá mesmo recorrer a artimanha da porcelanas chinesas e deixará suas cicatrizes serem decoradas em tinta reluzente para ornarem seu corpo. Não sabe quantas ainda virão. Mas já ama suas marcas/textos. Não teme mais a rejeição do outro sobre suas cicatrizes. Só agora entende o verso, traduzido por Caetano. Só agora aprendeu que “ela é um livro místico e somente a alguns a que tal graça se consente é dado a lê-la”. Pena haver tantos iletrados!