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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

ENTÃO É NATAL?!?!?!

Mais outra maluquice. Em pleno maio, comecei a pensar no Natal. Vê se pode? É porque nunca na história de anos passados, houve uma comemoração atrás da outra, como neste 2011. Páscoa, colada com dia das mães, um monte de outdoor de São João. Daqui a pouco é Natal, mesmo!

E como minha cabecinha não pára de pensar, já fui ficando incomodada com a rapidez do passar do tempo, com o consumismo desenfreado. Ô cabeça que não pára. Fiquei viajando (e sofrendo um pouco, é claro) com certa loucura que ocorre em todo dezembro (quiçá em toda brecha de tempo que a indústria encontra para vender). Todos criticam o comprar, comprar, mas também participam. Dentre este todo mundo é óbvio que eu me incluo até o último fio de cabelo. Já no final de novembro, faço listas de presentes e presenteados, vou ao comércio inúmeras vezes para comprar os presentes, gasto mais de 30 horas neste empreendimento. Compro embalagens, durex e fitilhos. Gasto em média... Deixa para lá. Nem eu mesma sei. E nem teria coragem de revelar mesmo.

Nessa fúria louca de comprar, comprar, embalar, embalar, fico a pensar no espírito que move/origina todos estes eventos... Como uma boa menina cristã e educada pelos dogmas católicos, apesar de ir com a multidão, algo fica martelando em minha cabeça: por que me envolvo de forma ensandecida nesta onda? Sei da superficialidade disso, sei que muitos dos presentes que compro são só para cumprir um papel, critico o consumismo excessivo, discuto a linha tênue entre amor, amizade e hipocrisia. Em suma, sou uma das chatas do politicamente correto.

Nessas viagens para responder a tal provocação desnecessária, mas insistente, lembrei dos natais que tive e talvez esteja aí a descoberta da pólvora. As coisas que lembrei estão nítidas na minha memória afetiva, mas eu nem mesma sei se elas de fato aconteceram ou se fazem parte daquilo que na memória é misto de realidade e invenção. Não tenho como as comprovar. Talvez compartilhá-las seja uma forma de ouvir alguém dizer: “foi mesmo, eu também me lembro”. E essas testemunhas oculares dessas minhas histórias de natal sejam as provas daquilo que vivi. Ou não, sei lá. O que importa?

Jamais me esquecerei, por exemplo, da vez em que meu pai muito seriamente nos disse, a mim e a Zau, que não teríamos presentes de Natal. Fiquei triste, pois o peso de ser uma boa menina foi sempre um fardo que tive de carregar, sendo assim não havia razão para tal decisão extremista. Depois, veio a explicação, iríamos a alguma loja de atacado de brinquedos, acho que era A.Gomes, compraríamos muitos presentes para meninos e meninas das nossas idades, e no dia da confraternização da enorme indústria da qual meu pai era dono (foi nisso em que sempre acreditei, é óbvio que não era verdade, mas também não era mentira – coisas da memória), eu e Zau daríamos aqueles presentes a cada funcionário para eles entregarem aos seus filhos. Me lembro de pegar cada presente e entregá-los. Me senti tão feliz, tão maravilhosa e importante, me senti uma pertencente verdadeira desta coisa imensa que chamam de humanidade. E não me venham provocar com aquela história de assistencialismo nem caridade. Eu era a menina com a mão extendida para o outro e um presente na mão. E como disse Clarice, hoje descubro que sou e sempre serei esta mesma menina de presente na mão e olhar fixo na mão do outro que se aproxima da minha. Que bom!
Não há como esquecer também dos Natais na casa de minha vó Benita em Lauro de Freitas. Ganhava tantos presentes. Minha família nunca foi rica. Éramos de uma classe média bem média, sempre labutando muito para não descer de padrão. Coisa bem brasileira. E os presentes eram vários, mas jamais os caríssimos jogos super-mega-master-plus-hi-tech.A casa era tão linda, tão cheia de gente. Meu avô estava lá para animar tudo, para receber as pessoas e fazer com que nós acreditássemos que aquilo era o mundo inteiro. Eu lembro da cor vermelha emanando de todas as coisas, lembro de um presépio colorido que ficava armado na enorme estantes da sala e lembro da areia que colocávamos no lugar onde ficaria o presépio. É impossível esquecer do algodão da árvore de natal, certamente para dar um ar mais europeu, já que meu avô Umbelino como todos sabem era sueco (de pais negros e de Maragogipe, mas era sueco).

Natais como aqueles nunca mais senti. Em um Natal, recebi de meu avô, uma caixa enorme com fantoches maravilhosos de todos os personagens da história de chapeuzinho vermelho. Não era um brinquedo, era um convite a fantasia, a criação, a contação de histórias. Talvez por isso, eu ame tanto as palavras, estude-as com a minha alma e adore conta-las. Inesquecível também uma boneca bebê japonesa (olhinhos puxados e tudo) que Zau ganhou. Eu que falo tanto em diversidade, em respeito as múltiplas identidades, jamais vi uma boneca japonesa para presentear aos meus trocentos sobrinhos. Como será quando nascer um bebê Fugiwara, onde mesmo acharei tal presente? Onde é que eles arrumavam estes brinquedos? Eram coisas tão magníficas, tão ímpares. Onde estão estes brinquedos? Se eles não vendem mais, será que eles existiram um dia?

Depois, vi inúmeras vezes minha avó, minha mãe e minha tia Lúcia fazendo as listas de presentes. Nelas estavam as pessoas muito amadas, as queridas e as nem tanto. Elas iam juntas a velha e boa Avenida Sete comprar os presentes. Passavam o dia inteiro na rua, nos levavam, riam muito, se divertiam, brigavam também, sempre se perdiam uma da outra, usavam aqueles instantes para celebrar o amor que tinham umas pelas outras. Depois era a casa cheia de presente. E isso, era mais magia para os meus olhos, pois uma casa farta e cheia de presentes é tudo que uma criança quer. Júlia e João o Pedro que o digam.

O próximo movimento é embalar e levar os presentes. Por muitos anos, minha mãe fez e faz uma peregrinação para a entrega dos presentes. E na lista estão desde dona Anita, ex-servente do Colégio Kleber Pacheco, até a secretaria de Bem estar Social da prefeitura de Lauro de Freitas. Para minha mãe, mais do que entregar o presente ao presenteado; é a hora de se sentar no quintal da casa de d. Anita e falar sobre o tempo (de outrora, de agora e de sempre).

Há alguns anos, veio o primeiro emprego e aí tive uma vontade imensa de fazer a primeira lista. Nela havia somente sete nomes: GUIDO, NORMA, ZAU, LÚCIA, SUELI, SANCI, CARMINHA. Depois a família aumentou, chegaram muitos novos amores e a lista também cresceu. Então acho que é por tudo isso. Creio que a resposta para essa fúria desenfreada na qual me insiro seja uma enorme vontade de retribuir às pessoas que me proporcionaram essas memórias novas histórias para contar. Desejo mesmo que em cada presente esteja o meu amor e o meu agradecimento por todas essas historinhas, sejam elas inventadas ou acontecidas.

UMA HISTÓRIA MINHA DE LEITURA

Lauro de Freitas, Bahia, 20 de janeiro de 2012.

Oi, Pepeu! Depois de uma semana em Salvador, já estou cá de volta a Porto Alegre, lembrando-me da nossa despedida no aeroporto. Todos com olhos vermelhos de lágrima e só você bem alegre. Pensavas que viria comigo, não era? Até tentou entrar no saguão de embarque e quando me viu chorar, disse bem alto: “Vamos ser alegres em Porto Alegre”. Todos caímos na risada, menos você, porque já percebia que eu entrava por aquela porta sozinha, sem você, sem Mamá, sem nossa família. Foi só ai que se desesperou e acho que de tudo entendeu bem pouco...

Mas enfim, nem tudo é tão alegre aqui em Porto Alegre, como você pensa. Há coisas bem estranhas por estas bandas. E você, como bom detetive que é, sabe o quanto eu, medrosa de carteirinha, fico assustada com coisas misteriosas. Pois bem, contando ninguém acredita. Estava na casa onde moro, quando do nada, bateram na porta: toc-toc. Perguntei quem era e a voz disse apenas: “Correio”. Abri a porta bem devagarzinho, já que não tenho olho mágico nem na porta nem na cara. Então vi aquela figura assustadora: era um velho mal encarado, com uma cicatriz no nariz, barrigudo, de capa preta e... Sem farda dos Correios Brasileiros. Ele rapidamente me deu um papel, pediu que eu assinasse (e assim o fiz). Entregou-me um livro bem pequenininho com capa de madrepérola. Parecia um breviário. Você sabe o que é um breviário? É um livro em que os religiosos colocam suas orações.

Entrei em casa e fiquei pensando de onde viera aquele livrinho tão pequeno, sem identificação do remetente. Tomei coragem e abri-o. De lá de dentro, Pepeu... Você não vai acreditar... Aliás, você eu sei que irá compreender, mas se fossem seus pais ou sua avó. Hahaha. Duvido que acreditassem nessa história. Iriam dizer que era um sonho ou mais uma das minhas invencionices... Pois bem, lá dentro, só havia a imagem de um longo caminho vazio. Não havia nem flores, nem bichos, nem florestas, nem gentes. Achei tão esquisito, mas quando tentei folheá-lo, saíram das páginas pós brilhantes. Eu de grandona que sou fiquei pequenininha feito o Polegar e cai dentro do livro. Pode? Meu coração saltava de tanto medo. Eu suava que nem um cuscuz. Olhei para todos os lados e nada vi. Tentei buscar uma saída, mas só havia o nada em minha frente. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas, como não existia outra opção, decidi seguir pelo caminho para descobrir onde chegaria e como faria para voltar para casa. Há poucos metros, avistei uma enorme placa, onde se podia ler: OS LIVROS ONDE SE DESEJA MORAR. Achei engraçado, apesar de toda aquela confusão e angústia. Onde já se viu? Livros para morar?

Seguindo a placa, encontrei uma casa enorme, parecia uma velha fazenda, cheia de janelas grandes e toda avarandada, mas não havia viva alma. Bati na porta delicadamente, e ninguém atendeu. Como achava que não havia ninguém lá mesmo, abri a porta. Ledo engano... Lá estava um monte de gente, amordaçados, amarrados, com olhares entristecidos. Eram conhecidos, mas eu não me lembrava bem de onde. Havia uma lesma[i], bem gordona, com roupa de festa, que parecia estar se arrumado para ir a um aniversário. Do outro lado, estava um grupo de crianças pequenas, todas amarradas umas nas outras, uma fedia tanto que não sei como os outros podiam suportar e a outra, aos prantos, segurava um coelhinho[ii]. Bem, no centro, estava uma menina. Devia ser a mais perigosa, pois estava ela e outra mais velha, amarradas de cabeça para baixo, com vara de condão nas mãos, um relâmpago no pescoço e um enorme bolinho de chuva enfiado na boca[iii]. Espalhados pela sala estavam vários bichos de estimação, até um bicho de pé, todos eles amarrados ao pé de Sua Avó. Calma, não me refiro a Vovó Norma, mas ao cãozinho basset que não podia nem se coçar e muito menos latir.[iv] Pepeu, não fique assustado, mas não eram só esses bichos: tinha mosquito, pingüim, leão, galinha d’ángola. E o pobrezinho de Assis... Isso mesmo! São Francisco, descalço, de mão e pés atados, literalmente.[v] Que heresia, meu Deus, que heresia! Por último, vi uma galinha, um jumento, um cachorro e uma linda gata[vi]... Estavam amontoados um em cima do outro, parecendo formar um horrendo monstro. Fiquei a pensar de onde os conhecia e sem contar conversa, comecei a soltá-los. Por que você sabe, não é, Pepeu? Corajosa eu não sou, mas injustiça eu não tolero. E aí, menino, foi aquela algazarra. Todos ficaram a falar, a fadinha começava a ter idéias para me agradecer, os bichos queriam festejar, a lesma no seu jeito devagar, agradecia e perguntava se ainda daria tempo de chegar a festa. E cada um tomou a sua direção. Todos arrumaram um lugar no entorno da casa e de uma forma barulhenta juntos começaram a providenciar suas moradias. Só que agora livres a cantar, brigar, bagunçar e correr. Eram muito animados aqueles seres encantados, viu?

Notei que naquele vuco-vuco, tornaram o local menos inóspito, mas o tempo passou e lá estava eu sozinha e perdida novamente. Na agonia, nem perguntei, porque estavam presos, nem como eu sairia daquele lugar. Mas cavucando a memória, lembrei que todos aqueles eram personagens das histórias que me faziam feliz na infância. Lembro-me que eu me agarrava a cada um daqueles livros e dormia com eles, comia com eles e pedia que os adultos os contassem várias vezes da mesma forma, sem esquecer nadica de nada. Eu queria viver intensamente lado a lado, quando menina, em cada um daqueles livros, com cada um daqueles personagens. Mas seguir era minha única opção. E fui. Até que outra placa apareceu: OS LIVROS QUE SAEM DA BOCA. Achei mais uma vez engraçado e decidi arriscar. Eu estava ali mesmo, perdida, sem noção de nada. Não custava descobrir.

Depois de alguns metros da casa, vi um mar enorme e uma casa grande, de pau a pique. O céu era de um azul intenso, mas o sol de rachar deixava o calor abrasador. Nem bati na porta. Fui logo entrando. E dessa vez, o susto foi maior. Era uma cena de terror de verdade. Então, se prepare, Pepeu, porque tem que ter muita coragem para ouvir o que agora eu vou contar. Havia uma mesa. Nela estavam sentados velhos e velhas com as bocas costuradas e o olhar perdido no nada. Meu Deus, eu não sabia bem o que fazer. Como descosturar bocas costuradas? Você sabe? Eu também não sabia, mas como dizem os antigos: “necessidade faz mulé véia parir”. Com o peito apertado, fucei a casa toda e achei uma faca afiada. Tive tanto medo de cortar os pobres velhos, mas com delicadeza, tirei as linhas de cada boca, cuidando para não sangrar ou ferir. E uma lágrima abundante correu do olhar deles em agradecimento. Tinha a mesma sensação da casa anterior: achava que os conhecia. Até que ao sair a última linha, os quatro velhos saltaram sobre mim, me apertando num abraço já sentido. Foi a vez das lágrimas caírem dos meus olhos... Eram meus avós, os seus bisavós, Pepeu. Você pode acreditar nisso? Há quanto tempo não os via? Há quanto tempo não os ouvia? Nem posso contar nos dedos. Maria, Antônio, Benita e Umbelino. Lá estavam eles, levantando-se da mesa, sorridentes e já colocando a boca liberta no mundo para contar histórias. Foram à cozinha da casa que ficava nos fundos e tinha uma enorme mesa. Do nada, surgiram bolo de puba, cuscuz de tapioca, banana da terra cozida e frita, um fruta-pão quentinho, um mingau de milho, tapioca seca, café, suco e muita siriguela, pitanga, manga. Que mesa farta! Não havia dúvidas. Eram meus avós mesmos!

Umbelino já começou fazendo graças e jurando de pé junto ser um rico fazendeiro em cuja fazenda há um rio cheio de bacalhau. Afirmou também que nas suas terras existia somente uma vaca (“para que mais?” ele perguntava) que num dia dava leite, no outro, dava leite condensado, no seguinte, produzia queijo e, no último dia, o queijo já saia na cuia. Depois, a vaca descansava, porque era uma trabalhadeira retada. Maria vinha docilmente aconselhando, dizendo que rezar era importante. A cada conselho aparecia um dito popular reflexivo: “quem a boca do meu filho beija, a minha adoça” ou outros cheios de picardia: “quem é dono dos beijos é dono dos peidos”. Antonio falava das histórias de seu irmão Manoel, tão diferente dele. Contava da raiva que o irmão sentiu em não ter sido convidado para o forró, porque o povo das redondezas achava que festa com Manoel sempre dava em confusão. Foi a deixa para mais uma das suas muitas artimanhas safadas. Dizia meu avó que o irmão se escondeu do lado de fora de uma das janelas. O arrasta-pé, comendo no centro, o povo suando e ele colocando pimenta malagueta de uma em uma no salão. Até que o povo começou a pisar nas danadas e a se coçar e foi um levantar de saias, foi um arde-arde que todo mundo acabou a festa e dali por diante aprenderam que folia com Manoel era bem mais tranqüila do que sem o sapeca. Por último, falou Benita sempre tão delicada, tão meiga. Uma mulher tímida, cuidadosa, mas que na hora de contar histórias só sabia assombrar. E começava a falar da menina que mesmo morta chamou o médico na estrada pra salvar a mãe; falou da madrasta que enterrou a enteada vivinha da silva só porque a pobre menina se descuidou da figueira; falou de um homem belo e sedutor todo de branco, que na verdade era o diabo. Por último, me chamou perto dela, colocou-me no colo como se criança ainda fosse e pegou debaixo da cadeira de balanço onde estava sentada várias gravuras de lendas brasileiras. Ela me mostrava as belas imagens e contava cada uma das narrativas. A do Boitatá, Caipora, Vitória Régia, a dos Bandeirantes, do Negrinho do Pastoreio, da Iara, da Mandioca, do Guaraná[vii].

Adormeci e quando percebi já era de manhã e eu estava sozinha na varanda. Olhei para dentro da casa e estavam todos em seus afazeres, cozinhando, cosendo e conversando. Percebi que muitas crianças tinham aparecido e ouviam felizes as histórias dos meus avós. Fiquei sem jeito de falar a eles da minha partida e com o coração aos pedaços decidi ir embora silenciosamente. Já na estrada, vi-me sozinha mais uma vez. Ao olhar para trás, vi todos eles rodeados de crianças, acenando para mim. De suas bocas saiam livros inventados e livros de verdade. Muitas de suas histórias me aninhavam, me assombravam, me faziam rir e adormecer. Nos seus rostos, havia felicidade e compreensão.

Mais uma vez, a emoção me impedira de buscar as razões que explicassem porque os havia encontrado daquele jeito e de que forma conseguiria retornar para casa. Mas meu coração estava pleno de gratidão pelo efeito que aquelas bocas contadoras de histórias haviam desde muito plantando em mim. Mas como seguir era mesmo minha única opção... Lá fui eu de novo. Olha, Pepeu, foi bom parar na casa dos nossos antepassados. Além de ajudá-los a sair daquele sufoco, pude descansar e recarregar minhas baterias para prosseguir. Você deve estar orgulhoso de mim, não é, Pepeu? E achando até que eu tenho os super-poderes dos heróis que você adora. Que nada, menino. Sou gente de carne e osso.

E estava mais uma vez completamente desnorteada. Andei léguas e nada de placas. Até que vi um muro branco, cercando toda uma casa, cheia de grades e um enorme portão. Parecia uma escola... Ou uma prisão? Confesso que tive muito medo, pois nenhumas das opções eram agradáveis para mim. Aproximei-me do local. Não havia placas. Apenas uma pichação na parede que dizia: “LIVROS DE CONFORMAÇÃO”. Aproximei-me do portão e logo veio um homem fardado que me inquiriu: “Quem é? De onde vem? O que faz? O que deseja? Volte depois”. Falou tudo num rompante, sem esperar resposta e me deu as costas. Que deselegância, Pepeu. Você sabe que sou medrosa, mas indelicadeza eu não suporto... Então, com as mãos nas cadeiras e dedo em riste, respondi tudinho: “Sou Luciana. Venho da Bahia. Estou perdida. Preciso de ajuda. Não posso voltar depois. Me ajude agora, logo e rápido”. E sabe o que eu descobri? Para um mal educado, um mal educado e meio. Só foi falar grosso e ríspido, o talzinho voltou e sem pestanejar destrancou os portões. Lá dentro eram muitas salas e em cada sala havia crianças, sentadas em fileiras em total silêncio com ouvidos enormes e sem bocas. Crês, Pepeu? Existia também em cada sala uma mulher, com um chicote numa das mãos, na outra, livros ‘embolorados’ e sem ouvidos nem olhos. As mulheres eram só boca. E como falavam. Liam dos livros maneiras de ser educado, não escarrar no chão, não arrotar na mesa, ser bom menino. “Eita, vida besta, meu Deus”.

Notei que havia um enorme pátio e nele estavam amontoados diversos livros. Fui até a pilha e encontrei livros que amava. Vi logo os livros da Coleção Vagalume, como O Caso da Borboleta Atíria, Meninos sem pátria, Açúcar Amargo, Sozinha no mundo. Depois, vi todos os volumes da Coleção para Gostar de Ler. Olhei para cada um deles e lembrei-me dos contos e das crônicas que li de Drummond, Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos. Havia também aquela coleção linda de capa dura, cor bege com letras douradas que minha mãe certa vez me presenteou: O Mundo da Criança. Ah, espalhados estavam os lindos poemas de Olavo Bilac, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Henriqueta Lisboa. Meu Deus, naquele amontoado, havia um manancial de prazer e saber! Desejei me jogar na montanha bagunçada, quando novamente apareceu o homem do portão, com fósforo e garrafa de álcool em punho. Fiquei perplexa, sem entender bem qual seria o próximo movimento dele. E sabe o que ele começou a fazer, Pepeu? Resmungava, jogando o liquido perigoso nos livros: “Mais porcarias para queimar. Isso não deve estar aqui. Não educa. Não conforma. Sem utilidade alguma”. Por que livros tão maravilhosos tem de ser úteis? Aí, aquela ousada que habita em todo ser vivente, se apossou de mim novamente e puxei a caixa de fósforos das mãos daquele louco. Na minha raiva, abri as salas, puxei as crianças com força e disse que pegassem os livros que quisessem, sentassem-se onde quisessem e começassem a ler. Afirmei que caso a leitura não as agradasse, escolhessem outro e outro livro até encontrarem aquele por que se enamorassem. Empurrei as resistentes mulheres e disse que fizessem o mesmo. Acho que eram todos tão obedientes que nem pestanejaram e fizeram o que ordenei. A partir dali e, nem me pergunte como, Pepeu, mágicas aconteceram... Apareceram bocas nas crianças e olhos e ouvidos nas mulheres. O homem timidamente começou a se aproximar da montanha e foi buscar seu livro também. E pasme, meu lindo menino! As grades se transformaram em janelas, o portão desapareceu, dando lugar a uma linda ponte e cores e flores e frutos e árvores irromperam do vazio. Havia uma “silenciosa algazarra[viii]” de olhos, bocas e ouvidos que iam de um lado a outro lendo e lendo...

Fiquei a olhar aquele movimento e me lembrei que li muito poucos livros indicados pela escola. Na verdade, os achava chatos e sem graça. Pedia que os colegas os resumissem. Depois, fazia o teste e era aprovada. Simples assim. Entretanto, aquela montanha a ser jogada no lixo eram os livros que moravam nas estantes de minha casa e me embeveciam. Eram desprezados pela escola e amados por mim. Nunca me serviram para fazer provas ou para passar de ano, mas me fizeram feliz, constituíram-se em experiência de vida e leitura, não apenas passaram por mim, mas me transformaram neste ser que hoje sou.

Bem, Pepeu, não preciso lhe dizer que saí mais uma vez sorrateiramente, solitária e sem respostas. E também, não preciso lhe dizer que segui em frente por ser esta a única opção que me restava. E fui... Dei alguns passos e vi uma placa, caída no chão cujos dizeres eram: “CABEÇAS INVENTORAS DE LIVROS”. Só que não havia casa, nem muros, nem nada. Andei pelo caminho e vi alguns jovens sentados no chão. Eram mais uma vez conhecidos e dessa vez não tive a menor dúvida. Sabia exatamente quem eram cada um deles. Não havia sido apresentada a eles na infância. Infelizmente. Mas a vida adulta e minha vocação de professora tinham há muito os colocado em meu caminho. Fiquei um pouco a olhá-los. Mesmo inertes, eles eram tão sedutores... Digo isso, pois suas mãos estavam atadas por detrás das costas. A frente deles, havia um enorme piquenique. Havia também máquinas de escrever, computadores, canetas, papéis. Mas tudo intocado por eles. E lá fui eu mais uma vez, já acostumada a desatar nós, a empurrar meninos, a cortar linhas de bocas. Desatei as mãos atadas e das mãos soltas saíram livros. As mulheres se apresentaram: Lígia[ix], Ana[x], Ruth[xi], Elisa[xii], Eva[xiii], Maria Clara[xiv]. Os homens, garbosos, diziam seus nomes: Ziraldo[xv], Lobato[xvi], Ricardo[xvii], Charles[xviii], Hans[xix] e dois irmãos que não se desgrudavam e falavam tudo juntos[xx]. Nem eram necessárias as apresentações, sabia cada nome. E os amava como se amiga de infância deles fosse. Fiquei mais uma vez a ouvir suas histórias. Estavam animados e não paravam de parir novos contos, novas fábulas, novas histórias...

Até que a mais querida, Ana, pediu silêncio e dirigiu-se a mim com ares de sabedoria: “Sabes o porquê de tantos desafios, menina professora?”. Meu olhar afirmava um não, mas “boca não disse palavra”... E ela continuou: “Foi aquele tal de Celso Sisto, contador de histórias e colega nosso no ofício de escrever. A culpa é todinha dele. Estávamos todos adormecidos em sua memória e não é que o danado lhe aperreou até que você seguisse sozinha esse belo caminho?”. É verdade, Pepeu, tenho um professor novo que colocou como dever de casa o exercício de lembrar. E Ruth pegou a deixa de Ana e continuou: “Mas você, subversiva como é, menina professora, percorreu um caminho maluco, cheio de prolixas páginas... E vai dar um trabalhão danado ao pobre”. Ziraldo, com objetividade masculina, aquietou meu coração: “Não se avexe. Essa é a última placa dessa estrada. Na verdade, a penúltima. Olhe pra frente que voltarás para casa e nem vai precisar bater os pezinhos como Dorothy”.

E eu olhei. Havia sim mais uma placa, onde estava escrito: LIVROS DO PORVIR. Fui pelo caminho e lá estava a casa onde moro aqui em Porto Alegre, Pepeu. Entrei nela com satisfação e tranqüilidade. Ao abrir a porta, deparei-me com uma enorme estante repleta de livros nunca lidos. Aí, meu amor, foi só acariciar uma daquelas lombadas, tirá-las da estante e começar novamente a trilhar novos caminhos. Mas essa, meu lindo menino, é uma história que nem sei aonde vai dar. O importante é que retornei sã, salva e doida pra te contar essa deliciosa aventura...

Um grande beijo cheio de saudades da dinda que muito lhe ama;

Luciana Moreno.

[i] Lúcia Já vou indo, Maria Heloisa Penteado. [ii] Histórias em Quadrinhos da Turma da Mônica. [iii] A fada que tinha idéias, Fernanda Lopes de Almeida. [iv] Os bichos que tive, Tatiana Berlinky. [v] A Arca de Noé, Vinícius de Moraes. [vi] Os Saltimbancos, Chico Buarque. Na idade adulta, li os Músicos de Bremmen, recolhidos e escritos pelos Grimm.. [vii] Minha mãe contava muito a história da Dona Baratinha, cantando as canções, inclusive. Mas não cabia inclui-la aqui. [viii] Expressão usada por Ana Maria Machado em livro de mesmo nome. [ix] Lígia Bojunga (A bolsa amarela). [x] Ana Maria Machado (Raul da Ferrugem Azul, Menina Bonita do Laço de Fita, Bisa Bia Bisa Bel, Abrindo Caminhos, Do outro lado tem segredos, No país dos prequetés...). [xi] Ruth Rocha (Marcelo, Marmelo, Martelo; O dono da Bola; Terezinha e Gabriela, As coisas que a gente fala, O Barba Azul...). [xii] Elisa Lucinda (A menina transparente). [xiii] Eva Furnari (A bruxinha atrapalhada). [xiv] Maria Clara Machado (Pluft, o fantasminha; Eu chovo, tu choves). [xv] Ziraldo (Menino Maluquinho, Flicts, As anedotas, A menina Nina, o Menino Marrom, Um professora muito maluquinha, A bela borboleta...). [xvi] Monteiro Lobato (Reinações de Narizinho, As caçadas de Pedrinho, Negrinha). [xvii] Ricardo Azevedo (Baú do Folclore, Histórias de enganar a morte, Histórias de bobos, bocós, burraldos e paspalhões). [xviii] Charles Perroult (Cinderela, Chapeuzinho vermelho...). [xix] Hans Crhistian Andersen (A sereiazinha, Patinho Feio, A princesa e a ervilha, A pequena vendedora de fósforos). [xx] Os Irmãos Grimm (Branca de Neve, os Músicos de Bremen...).

sábado, 10 de novembro de 2012

ALUMBRAMENTOS

AS (antes-scriptum): Tenho elencado as coisas boas que Porto Alegre colocou em minha bagagem. Certamente, isso se transformará em texto. Todavia, já adianto uma coisinha: as atividades paralelas promovidas na Feira do Livro. Na semana passada, fiz uma oficina, chamada SOLTANDO A LÍNGUA, com o escritor pernambucano Mercelino Freire (outro texto relato para produzir). Muito bom. Maravilhoso mesmo. Dentre as mil viagens e maluquices que ele nos ofertou como provocação, veio essa. Pediu que dissessémos uma palavra que achávamos bela e a partir dela torceu de nós um texto. Um texto que revelasse nosso olhar singular sobre o que todo mundo vê no mundo. Amo a palavra ALUMBRAMENTO, conhecida por mim, ao ler EVOCAÇÃO AO RECIFE, de Manuel Bandeira (http://www.casadobruxo.com.br/poesia/m/evocacao.htm) e a escolhi... Desse encontro, entre as minhas maluquices e as de Marcelino Freire, saíram minhas imagens de alumbramento. Sirvam-se!

ALUMBRAMENTO 1 (DA AUSÊNCIA)
  • Acho que nunca o vi...

ALUMBRAMENTO 2 (DA MEMÓRIA)
  • Vestida de rumbeira, meus pais me puxavam pela mão. A frente, um céu de azul intenso E um mar de gente preta a dançar como se aquele fosse o último dia de toda existência.

AULMBRAMENTO 3 (DO NASCIMENTO)
  • Na madrugada, da bolsa partida, irrompia a vida.

ALUMBRAMENTO 4 (DA APRENDIZAGEM?)
  • Jamais vi Pôr-do-sol Corpo humano Nascimento Mais alumbramento Do que aquele... Plantado em mim por Bandeira.

sábado, 3 de novembro de 2012

10 INFALÍVEIS CONSELHOS PARA FUTUROS ESCRITORES DE LITERATURA INFANTIL

'ANTES' SCRIPTUM: Como se não bastasse uma tese para escrever, envolvi-me num Laboratório de Escrita para produção de textos de literatura infantil, com o Prof. Dr. Celso Cisto. Por conta disso, toda semana, somos convidados (ou convocados?) por ele a escrever texto. Assim, vou postar algumas das minhas produções neste curso a partir de hoje.
1. Escreva. Escreva bastante. Assim, como curar doenças qualifica os médicos; projetar casas, os arquitetos; ensinar gentes, os professores, a única ação que caracteriza a existência de um escritor é a prática constante da escrita.
2. Ao escrever, pense em seus leitores e exponha a eles os seus escritos... É o leitor quem dá sentido (ou não) às idéias que você coloca no papel. Sem ele, você não existe.
3. Ouça sem fazer bicos, muxoxos ou esperneios as críticas e sugestões dos seus leitores. Você escreve para crianças, mas não deve ter o mau comportamento de algumas delas. Saiba ouvir com entrega e educação.
4. Filtre as críticas. Ouça-as com atenção e carinho, mas tenha consciência que nem tudo o que dizem sobre seus escritos deve realmente ser levado a sério.
5. Viva o mundo da criança. Goste do universo infantil; divirta-se com coisas típicas da infância; comporte-se como um brincante. Esta é uma ótima maneira de inserir-se, por dentro, na perspectiva infantil de compreender o mundo e também um jeito barato de viver com mais saúde e alegria.
6. Nunca subestime as pontecialidades das crianças. Não é porque elas não aprenderam tudo sobre linguagem, conhecimentos matemáticos e geográficos, por exemplo, que elas não podem compreender questões mais elaboradas. Até porque nós adultos, tais quais as crianças, nunca sabemos de muitas coisas, apesar de nos fazermos de entendedores de desde parição de formiga a enterro de anão.
7. Conheça a fundo a criança. E para isso a leitura de bons artigos científicos, o estudo aprofundado de dissertações e teses, a presença em eventos acadêmicos sobre infância não bastam (apesar de terem sua relevância). Vá até elas e ouça suas demandas, observe suas preferências e modos de agir.
8. Seja leitor de literatura infantil. Os seus colegas escritores te darão algumas “réguas e compassos” para seguir. É o que se produziu no mundo nesta seara literária que lhe dará nortes e caminhos para trilhar ou para ir à contramão.
9. Não escreva para ser útil ou pedagógico. Não caia na tentação de ensinar a criança a ser boa e educada. A dimensão de vida e humanidade que aportam em seu texto são professoras cuidadosas e competentes e se encarregam sozinhas deste ofício.
10. Faça suas regras. Invente seus conselhos. Ignore os que estão acima. Até porque se conselho fosse bom mesmo, ninguém dava. Vendia-se. E caro!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

ESCURIDÕES EM DIAS SOLARES

“Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio” (Fernando Pessoa, Chuva Oblíqua).

Tem dias que o queixo teima em ficar encostado rente ao peito e leva nosso olhar para perder-se no abaixo. Nada de amplidão de céu azul. Só se tem a pequenez do chão marrom na nossa frente. E não adianta as pessoas dizerem que se é filha de Oxum, que se tem íris ponta de lança; já ter feito trocentos anos de terapia ou estar convencida de que se gosta do ser que se é. Nada nos convence a arrebitar narizes e brilhar olhos. Nada nos acende a alma.

Fazemos mil avaliações do porquê do olhar melancólico; do porquê da cara amarrada. Buscamos rejeições na infância, buscamos tanta coisa e nos deparamos com o olhar desafiador do outro. É ele que nos maltrata, que nos exclui. É ele que nos invade e nos habita. É preciso digerir esse olhar. Compreendê-lo. Interpretar o mistério da energia que ele – o olhar do outro – desprende, atingindo-nos. E não adianta dizer: “nem te ligo, sou mais eu”, pois nessas horas tudo é menos. Tudo é ausência.

Não tem jeito, o corpo fala. Morde-se o lábio, balança-se a perna, franze-se a testa. O bicho carpinteiro se apossa de nós e nos denuncia. Descobre-se uma dor corporal. Logo abaixo do peito. É tão forte. É física, concreta. Vê-la tão palpável nos ameaça e coloca não só o olhar no chão, mas a nossa inteireza... Sair desse lugar é um exercício árduo de achar essa outra mais solar, mais confiante, mais segura que também é de nós. Cadê ela? Onde ela se esconde? Por que o olhar desse outro a eclipsou? Aí, lembramos, acertando contas com o real:“existe alguém em nós e muitos dentre nós esse alguém que brilha mais do que milhões de sóis, e que a escuridão conhece também”...

Sim, me afirmo solar. Apresento-me assim e bato a carteira radiante na mesa. Sou dessas expansivas, que fala com as mãos, que sorri largo, que faz piadas de minhas certezas e das verdades outras. Canto, danço e sapateio no meu diário. Mas, impossível negar: escondo em mim escuridões... As conheço não só porque as vivi, mas, sobretudo porque já me escarafunchei de corpo e alma em seu lamaçal. Já bebi de suas águas, já me acomodei nelas e resisti em sair de suas entranhas. Já gostei da escuridão. Na verdade, não era um gosto; era um hábito.

Um rápido olhar para cima outrora me salvou... Nem estava planejado. Mas era a hora da cabeça rodar... Piruetas outras. Porque dor não tem hora marcada. Vai embora tão sorrateira como chegou. Ver luzes multicores nos dá asas. É tão fugaz o renascer. É tão célere fazer de cinzas brasas. No tempo do escuro, escolhi-o porque a literatura me convenceu que para cruzar caminhos de contramão era preciso zangar-se com a vida; aborrecer-se com as ofertas mundanas, irritar-se bravamente com os sentimentos mais humanos. Era preciso perguntar com ferocidade. Mas a idade – tão bela, tão certa, tão decisiva – mostrou-me espelhos feito de verdades. E fez-me enxergar que ser melancólico num mundo tão cruel é fácil, banal, ordinário. É o óbvio! Heróico mesmo, gauche de verdade é aquele que consegue gostar de sol; refestelar-se em águas abundantes; abraçar o humano, comendo-o. Este que se alegra é quem ousadamente decide ir pelo caminho inusitado. É aquele risonho que segue o percurso de quem nunca foi e de quem viu com olhos de primeira vez. Até porque quem tem heranças que atravessaram o Atlântico Sul sabe que alegria nunca é alienação; é antes de tudo uma resistência possível para poucos. É uma forma de inquirir: “não me quer? Não me olha? Não me toca?” E depois, espocar risos abundantes e fundos. Incontroláveis. Sinceros. Ora gargalhadas. Ora só risos de Monalisa. Talvez seja uma defesa. Mas, certamente, a mais bela, corajosa e saudável arma.

No agora, o queixo se desprende levemente do peito. Ainda não se ouvem sons festivos, nem se regala em mesa larga de fundo de quintal com abundante ceia. Ainda não, mas se sabe que o tempo que nos afasta de tudo isso mora no bem ali e para quem é do dia, sóis chegarão... Plenos. Abundantes.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

SER MADRASTA É PARA OS FORTES!

Há mais ou menos 12 anos atrás, a vida me deu um presente. Na verdade, no primeiro momento, não achei que fosse um presente. Achei que era um Cavalo de Tróia. Era apenas uma criança, filho de uma outra mulher, com o qual eu teria que conviver. Mas na minha imaginação fértil, pensava que talvez abarcasse dentro de si o exército inimigo. Primeiro, vi uma foto, o achei engraçadinho. Depois, o encontrei no Shopping Center Lapa. Estava emburrado. O motivo informado: o pai não dera um brinquedo que queria. Mentira. Com certeza, não era aquilo. Era a desconfiança e certamente as questões que invadiam sua mente infantil: “quem é essa mulher? O que faz aqui? Cadê minha mãeeeeeeeee?”.

Depois, nos encontramos num dia das crianças. E tudo deu errado. Cai no zoológico. Certamente este o acontecimento mais feliz do dia para ele, devido as gargalhadas que emitiu. Depois, fomos naqueles pula-pulas enormes do antigo Aeroclube e sai de lá com uma torção. “Minha carreira de madrasta estava bem promissora daquele jeito”... Eu pensava. Naquele dia, tive vontade de sair correndo. Tive a certeza de que ele não gostou de mim. Fiquei frustrada, mas banquei a amiga legal do pai.

Depois, disso, lembro-me de uma formatura em que ele se apegou a minha irmã e eu chegando à família, namorando com um cara separado e já com um filho, só queria sumir. Era demais tanta avaliação, tanto questionamento, a família toda querendo saber quem eu era, o que eu fazia. Depois, o amor entre mim e o pai dele se consolidou, mas a relação inicial entre mim e ele foi muito difícil. Para mim e para ele. Nem eu nem ele sabíamos quais os nossos papéis na vida um do outro. Eu sabia que não era a mãe e ele sabia que não era o filho. O pior é que em muitos momentos ele conseguia demonstrar um afeto por mim muito maior do que eu conseguia demonstrar por ele. Eu me sentia retraída, tinha medo. Ele, como sempre, um sedutor, já sabia desde muito cedo que precisava me tolerar, porque se o maior amor da vida dele: O PAI comigo provavelmente se casaria, então não adiantaria me anular.

O pior é que tive que assumir o novo título de madrasta e ninguém está preparado para assumir um vocativo tão semelhante ao de bruxa. Certa vez, me perguntaram na frente dele se eu era má-drasta ou boa-drasta? Nem eu mesmo sabia a resposta. Acho que no início, fui uma omissa-drasta. Muito por medo e ansiedade. Não sabia que tipo de sentimento poderia nutrir por ele. Tenho certeza (ou melhor, consciência tranqüila) que me policiei ao máximo para jamais desrespeitá-lo, para jamais ser falsa ou hipócrita e, sobretudo, para jamais afastá-lo do pai. Tentei, ao máximo, ser sincera com ele. E ai, veio uma decisão difícil que tive que tomar sozinha e dizer ao pai, a ele e a todos. Quando casássemos, ele não nos acompanharia no primeiro momento. Foi uma decisão acertada, mas muito complicada e eu que já sou uma questionadora de carteirinha me perguntava: “essa criança vai me odiar por isso???”. Mas me fez bem dizer a ele: sou eu que não quero agora que você venha. Ora, eu estava começando um relacionamento; indo pela primeira vez morar e conviver com alguém tão diferente de mim... E num pequeno apartamento. Eu merecia provar, comer pelas beiradas, antes de tomar uma decisão mais definitiva.

Mas a vida nos deu de presente uma casa maior depois de dois anos de casada e todos os meus argumentos caíram por terra: o espaço pequeno ficou grande, a fase da experiência do casamento havia passado. Sem pestanejar, o convidei para morar conosco. Isso significava se afastar do bairro em que ele nasceu, da avó e segunda mãe, da família, dos amigos, da namorada e da escola onde estudou a vida toda. E ele foi... Pois é um cabra corajoso. Não é frio, como gosta de afirmar. Apenas se esforça ao máximo para ser mai racional do que sentimental. E essa foi uma das decisões mais acertados que tomamos. Neste momento, ocorreu outra coisa. Do nada, ele me convidou para ser madrinha de crisma. Fiquei feliz, mas novamente insegura. Quais as intenções por trás do gesto? Nunca soube, nunca saberei. A primeira e maior aprendizagem que este jovem me deu é: importa menos o amor que o outro sente por nós e importa mais o amor imenso, inevitável que vai crescendo dentro de nós pelo outro. Minha vida ficou melhor quando deixei de me questionar: “será que esse menino gosta de mim?”. E comecei a compreender: “que importa se gosta ou não gosta? Eu gosto, amo, quero bem, quero o melhor...”

Essa criança que já havia se convertido em adolescente desde sempre me mostrara ser um jovem gente boa, sabe? Aquele que conversa com todo mundo, não tem medo de mostrar sua superfície (porque tem de mostrar seu coração), sabe ser solicito e educado. Faz amigos com uma enorme facilidade, apesar de ter a nítida consciência da diferença entre colegas e amigos. É alguém com quem se pode contar. Alguém que sabe ouvir e aconselhar.Principalmente é alguém que sabe enfrentar algumas durezas que eu, mais velha do que ele, jamais saberia fazê-lo. Pois bem, há quatro anos, quando foi morar conosco, foi outro momento difícil, se adaptar a uma casa diferente, com pessoas diferentes, num bairro e cidades diferentes, numa escola diferente. E esse estranhamento abarcava tudo: alimentação, hábitos, horários. E o pior longe de tudo e de todos. Como tem enorme dificuldade em expressar o que sente, ficou doente, que já descobri, é a forma de dizer que está triste, precisa de ajuda, de apoio. Não foi fácil. Mas como diz a música: “o tempo que pôs a dor nessa conta é quem desconta, passa e te aponta o ponto de sorrir”. E o tempo passou, os perrengues também.

Depois, juntos, eu, ele e o pai conseguimos fazer da nossa casa o nosso lar e nos tornamos uma família. Aprendi com esse jovem que a família não é algo dado, mas é algo construído com amor, briga, carinho, afeto, cumplicidade. Fico feliz, quando ele fala “na nossa casa, na nossa família”. Até porque já ouvi ele dizer que se sentia meio sem lar. Mas isso agora é coisa do passado. Odeio quando alguém o trata de coitado. Só porque ele é filho de pais separados ( e tem má-drasta). Por que isso é tudo que esse jovem não é. Quem no mundo tem uma mãe, uma madrasta-madrinha, uma tia-madrinha, uma avó-mãe, mais outras tias, um pai admirador, montes de primos, montes de amigos? Quem no mundo consegue administrar tantas famílias, tantas dores, tantos grupos de amigos de uma forma tão segura?

O mundo mudou. O ideal de família feliz também. Graças a Deus. Desconfio do ideal de família burguesa. Amo as famílias como as nossas que abarcam em si o slogan da diversidade. Somos felizes. Mas também sabemos que essa felicidade nada tem a ver com o “felizes para sempre” do conto de fadas. Nossa felicidade se constrói todos os dias. E tem como cimento duras lágrimas, brigas gritadas, tapinhas carinhosos e longas conversas no facebook. É fato fui conquistada pela criança que me assustava e sobre o qual eu acreditava que se escondia o exército inimigo. Esse enteado se converteu para mim num príncipe encantado. Ás vezes, o chamo de gato de botas, ás vezes de PV. O mais importante é que ele me mostrou que não devemos nos ressentir porque não fizemos algo no passado. Não devemos nos amarrar numa realidade estática, porque a vida é dinâmica, móvel. É sempre tempo de construir uma relação de amor; é sempre tempo de trilhar novos caminhos e tecer novos abraços. Não é porque não tive as dores do parto que não posso amá-lo como a um filho. Aprendi com Paulo Victor que é sempre tempo de parir um filho, mesmo quando ele já tem sete anos de idade e não sai das nossas entranhas. Pois, a parição de um filho se prolonga por toda vida.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

SOLAR EM TERRA CENTAURA

Sair de nossa casa. Do umbigo de nosso mundo. Tão caro, tão certo. Tão mediocremente limitante. Mediocremente limitante? Eu, dizendo isso? Não essa que veio. Já uma outra. Migrar sempre nos leva a outra possibilidade de viagem. Obriga-nos a dizer o que se diz sempre, porque não há outro jeito. Mais do que dizer. Obriga-nos a sentir e tirar a prova dos nove do já dito. Saímos para voltar e, mais que isso, encontrar aquele outro eu que jamais se expõe, jamais irrompe dentro do lugar costumeiro. Sair para, olhando o diverso, vermos a nós mesmos.

De onde eu venho, o diferente tem olho azul e pele branca. O eu crespo, volumoso e mestiçamente preto é ordinário, só mais um. Aqui agora eu sou a diferente, eu sou o que eles não são. Tão engraçado, tão assustador. Salta aos olhos, o olhar desse outro aqui igual (e lá diferente). Questionador, nunca indiferente, violento. O decote costumeiro (vulgar só neste sentido), as cores abundantes, o cabelo inchado de caracóis parece um estigma do meu lugar. Pior, uma insígnia. Contrapõe-se ao cinza-preto-branco das combinações de calça jeans. E por mais que queira mostrá-lo espontaneamente, surge como bandeira hasteada. A forma de andar, a bunda que insiste balançar malemolente, a boca que canta um refrão de um longe meu: “que estranho, hein, ôba!”. Tudo é denúncia. Tudo é tatuagem.

E olho para fora, encaro mesmo, e nem sei, ao certo, o que vejo. Vejo outras vozes de sotaques nasais, cheios de ãs demorados; vejo o que ouço; vejo o que pressinto. Não vejo o que toco, porque simplesmente não deixam. E é um segurar controlador de minhas próprias mãos... O Lá de onde venho é no pegar. O ‘Oi’ se bate no ombro, se puxa a mão, esfregando-a. O abraço demora longos segundos de apertameno e não há despedidas sem beijos estalados ou minimamente sinalizados a distância. Aqui mal os olhos se encontram. Eles teimam em baixar. E sorrisos há bem poucos, nunca largos, sempre esboços. Paira uma frieza orgulhosa. Mais suspeito: mais que rispidez; é medo.

Então, povoam perguntas bem diante do meu nariz. Será que no meu lá, distante do meu aqui agora, já estamos tão acostumados ao estrangeiro que sequer o olhamos? Só o destacamos e colocamos tapete vermelho quando para vender bugigangas nativas no Centro Histórico? Ou o acolhemos expansivamente a ponto de deixá-lo entrar na nossa casa, partilhar nossa conversa e roubar nossos tesouros? Será que aqui, ao olhar com estranheza o estrangeiro, querem nos ver, nos olhar, beber de nós? Nos comer (antropofagicamente ou não)? Querem ter-nos neles mesmos? Ou não. Ao nos olhar, querem nos abortar? Aniquilar o nós em suas européias Histórias? Colocar o muro sinalizador cujo ingresso só é possível com crachá e comprovante de dupla nacionalidade?

Não há respostas. Ainda. Ainda? Certeza única: nada é definitivo. Vejo-me num distante outro. E gosto desta que vejo. Rio dela... E com ela. Aprendo-a. Prendo-me a minha torre, sem autocrítica nem bairrismo, mas me largo e deixo a corda correr solta. Tão ousado saltar ao largo. Nem eu sabia que podia. Nem eu sabia dessa outra. Mas ei-la aqui numa terra de centauros. Solar como sempre. Mas sozinha (apesar de nunca estar). Tomando rédeas, encontrando lascas rochosas, cortantes e... Pasmem, plantando raios de sol.

terça-feira, 17 de abril de 2012

FIQUEI PRA TITIA

(Para Carlinha Fugiwara, a minha princesa que recentemente entrou para este grupo!)

Não sei o que é ser mãe. Não sei se ainda não sei ou se nunca saberei... Mas sei que amor de tia é bonito, intenso, cuidadoso. Tem muito a ver com amizade, com fraternidade. A gente se permite a permitir o que na casa da mãe não pode. Ensinei a JP, na primeira vez que ele foi ao dentista, que ele só podia conversar com o dentista de boca bem aberta. Também já desenhei um monte de pinta nele com caneta para ele se parecer com uma onça. Isso mãe não faz. Na verdade, a mãe é quem limpa; a mãe é quem diz: "Menino, que doidice é essa. Por que está falando com a doutora de boca aberta. Quem te ensinou isso". E ele, com cara sapeca e boca escancarada: "FFFói dindaaaaaaaaaaaaa, mamãe!!!" Mãe assume perrengues. A gente é mãe de férias, sabe??? De sandália havaiana, na beira da praia, correndo atrás do menino como se menina ainda fosse.

Acho que também tem isso... A gente se faz criança de novo na companhia de nossos sobrinhos. Foi assim com o primeiro Rafa, com o segundo, com Juju, com os sobrinhos de Paulo. E é assim com JP e Mariana. Portanto, conselho de tia experiente: "se joga mulher". Faça de um tudo. E pra saber o que é esse tudo é fácil. Lembre do que você gostava de fazer em sua infância, misture com tudo que os pais de agora proíbem e execute. É isso! A matemática é exata: chateação para os pais, somada a felicidade de tia e sobrinhos, cujo resultado é memórias para uma vida inteirinha de histórias saudáveis.

Ah! Nada de dar apelidos óbvios aos sobrinhos. JP não é Joca, Mariana não é Mari. Isso é muito vulgar para uma tia especial. Invente os nomes. E não pode repetir o mesmo. Tem que mudar sempre. Tenho vários cuja etimologia deve ser africana: bulunga, berebo, lelela, biribu. E por ai, vai. Prepare-se, porque se a criança demorar de dizer seu próprio nome vão te acusar de confundi-la com tantos vocativos. Mas isso é lenda. A criança amplia o vocabulário e descobre uma ação da linguagem que só vai estudar lá no ensino médio: os neologismos. É isso, o bulundo da titia ou a lelela de dinda viram ases da arte de criar palavras. Podem até futuramente incluir um vocábulo no Aurélio ou Houais.

A gente, tia, ama demais, todavia na nossa bolsa não tem carteira do plano de saúde nem esparadrapo. Na nossa carteira, tem bombom, tinta colorida, massa de modelar e lápis cera. Ah, na nossa carteira também tem um dinheirinho. Mas este só pode ser gasto com coisas importantes como parques, cinemas, livros de dinossauros, Mac-lanhces com brinquedo e tudo o que contém diversão e sabor. Ah, e tem que ser bastante dinheiro, porque tudo que se vende com o nome infantil o preço dobra apesar de o tamanho diminuir. Vá entender a lógica do mercado e do consumo para crianças.

A gente também tenta incutir sem piedade nossas ideologias nas mentes inquietas de nossos sobrinhos. A gente acha na verdade que eles irão mudar o mundo, por isso já falamos sobre ecologia, etnia, sociologia, direitos humanos. Já falamos com eles assuntos sérios com a preservação da natureza, o respeito às pessoas, com suas inúmeras diferenças e orgulho de suas identidades. Por isso, nem se assuste quando JP disser que é um negro lindo ou se ele te mandar fechar a torneira, porque a água no mundo está acabando. Já doutrinei a criança e Mariana, antes mesmos de falar, já está entrando no clima.

Têm as maluquices de mãe também, as ansiedades. Quando João dorme aqui em casa, no meio da noite, coloco a mão nas ventas dele, para sentir o bafo quente e ver se ele está respirando. Essa aflição é bem materna, né? Essa insegurança a gente tem. Mas a leveza de tia é insuperável! E como a gente não está junto o tempo todo, tem uma admiração, uma falta de cansaço, uma (uma, não duas) paciência de Jó. Uma compreensão imensa. Um amor que não é nato; mas é construído a cada momento e vai se ampliando cada vez mais. Nem sei onde vai parar. Só sei que a gente olha aquele ser tão pequeno e parece que no dia seguinte a gente ama mais do que no dia anterior.

Lembro-me perfeitamente de um evento que marcou minha carreira de tia. A formatura (de alfabetização) de Rafael Sacramento. Foi muito engraçado, pois eu e Zau (na época, somente tia), nos emocionamos, choramos, ficamos com cara inchada. O pior é que quando olhávamos uma pra outra e caíamos na realidade (era só uma formatura de alfabetização e, por sinal, muito alegre, com balões coloridos e música de Xuxa), começávamos a gargalhar e compreender o ridículo do amor, já cantado por Pessoa. É que a gente começava, a saber, que estava acompanhando o crescimento de uma pessoa e vendo que um bichinho pequeno e indefeso a cada dia se constituía numa singularidade especial, inigualável. È assim com todo humano.

Na saída daquela festa, falei com Zau sobre a possibilidade de engravidar, porque mais do que ser mãe, naquele momento, eu queria era dar netos aos meus pais. Pode? Isaura disse que ela não queria parir ainda. E eu, como também achava que não era à hora, me assustei. Mas uma jogada do destino, uma mudança de anticoncepcional, um espermatozóide apressado e um óvulo receptivo mudaram todos os planos e veio João que não foi o primeiro a me fazer tia, mas foi aquele que me deu tempo e argumentos para entender a beleza deste papel.

Hoje, vejo novos bebês chegando ao mundo e fazendo nascer de seus nascimentos novas tias também. E eu aqui, do lado de cá, só fico olhando a abestalhada da vez, admirando-a, me vendo nela e sorrindo, brado: “chegou mais uma pra viver a aventura doce de amar sem ter que padecer em paraísos”.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

CONFIDÊNCIA IGUALZINHA AS OUTRAS

Há alguns anos, vivi no Loteamento Jardim Belo Horizonte
Mas, não! Não nasci naquelas bandas
Por isso, sou diáfana, mistura de amor e ironia,
Um mosaico de pensamentos, comportamentos.
Tal quais as tardes verdes, vermelhas e amarelas, de céu de azul intenso.
Sou ar, água e folha
Ar, água e folha por todos os cantos da casa e da cidade
Ar, água e folha impregnados na alma, na pele e nos olhos de ver o mundo
E esse intermédio entre o que na vida pode ser água de enchente e de banho.

Essa vontade de bailar sobre a vida e acreditar no impossível
Vem da casa da minha memória
De suas noites mornas de verão em que a família se reunia embaixo da mangueira
Desligava a televisão, para resolver todos os problemas do mundo e contar passados em Histórias de verdade e ficção!

E esse hábito de estar sempre junto com gentes daqui e dali
Pra comemorar, preparar ceias (natalinas ou da paixão); vem de lá
Da casa da minha memória...

De lá trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
Frutas tropicais em compotas, sucos e polpas para durar até a próxima estação
Móveis de ferro, coité, piscina que foi rio, casa de boneca que virou lavanderia
Animais de estimação: cachorro, periquito, preá, rolinha, cágado, carneiro
E este orgulho, esta voz na garganta, este brilho no olhar.
Sem qualquer tristeza, não sou o poeta.

Tive mangas, araçás, canas-de-açúcar, jamelões
Poucos cajus, bem verdade. Mas em nenhum lugar, mais belos e tão grandes
Hoje também sou funcionária pública
Num país onde a educação ainda é caos, promessa política e esperança.


A casa desapareceu. Desmaterializou-se...
Mas na memória ainda estão quentes as lembranças
Ainda consigo entrar lá, abrir a porta e sentir seus cheiros tão peculiares
Sequer havia fotografia...
Só há lembranças da Casa da Minha Memória.

MANIA DE EXPLICAÇÃO: vivi 20 anos de minha vida numa casa que há quatro anos foi completamente destruída. E dela que falo neste poema, inpirada (ou espelhada) nas Confidências do Itabirano Drummond.

sábado, 24 de março de 2012

MITOLOGIA REVISTA (OU DE REVISTA)

Dos mitos que me encantam
Os Argonautas com seus feitos
São por obra e direito
Com quem de pronto, me deleito.

A pensar bem, não só pelos 'feitos'
Mas pela conturbada história de amor
Médeia, mulher forte, incendiada,
Não mede nem teme, não sente asco ou terror
São atos de amor daquela coitada
Atos para o homem que não a amou.

Jasão é homem ordinário, vulgar
Deseja incensos e louros
Quer mais o pódium do que o caminho
Figura tão fácil em nossos dias

O erro que comete
É o maior para a alma feminina
Não desposa por amor a princesa rebelde
Toma-a em casamento por agradecimento
Então nasce a ira no seio da menina

O fim trágico todos sabem
Matar a história
Matar quem a protagoniza
E quem pode continuá-la
Para, fazer de conta, que ela nunca aconteceu.

Os gregos estavam certos
Sabiam ver os demais
Compreederam o amor
Antes de todas as 'logias'
E fizeram o que hoje
já não somos mais capazes.

FILOSOFICES

Quando querem saber
o que sou?
Abro o currículo
De prefência o lattes
E respondo função.

Quando querem saber
Qual a idade?
Olho-me no espelho
Escondo os cabelos brancos
E enumero os anos de vida.

Quando querem saber
De que gosto?
Olho em volta, abro armários
Fuço estantes
Listo coisas.

Quando querem saber
Onde estou?
Para baixo, pés. Para cima, o nada
Logo ali em frente: a amplidão,
E anoto meu endereço.

Quando querem saber
Sobre o meu existir
Arregalo os olhos...

E a cada dia, é mais evidente
Que ser se tornou fazer
Envelhecer se tornou perder
Gostar se tornou ter
Estar se tornou morar
Entornando o caldo da repetição.

Nesta ciranda decadente,
Viventes menores querem
Que eu seja tanto
Sem sê-lo intensamente.
Para eles, letras e linhas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

JARDINS SUSPENSOS

FORMIGAS INVADEM MINHA CABEÇA
FAZEM CONFUSÃO ENTRE MEUS CABELOS
PASSEIAM NAS MINHAS ORELHAS
A MÃO COÇA O CABELO BEM LÁ NO COCORUTO
PASSO A MÃO MAIS UMA VEZ NAS MADEIXAS CRESPAS...
E DESCUBRO: SÃO AS FLORES COLOCADAS EM MINHA CABEÇA
SÃO ELAS AS CULPADAS
UMA CRIANÇA ESCURA TEVE A IDEIA, MAS ERA UM BRINQUEDO
PARA ME DEIXAR ETÉREA NINFA, FADA ENCANTADA
O PREÇO FOI CARO: FORMIGAS A MÃO CHEIA.

Para João Pedro, o colocador de jardins na cabeça alheia e para Mari, a flor do jardim.

sábado, 17 de dezembro de 2011

TRAJETÓRIAS LITERÁRIAS

Há seis meses, visitei nove escolas públicas, entrei em mais de trinta salas de aula, conversei com mais de trezentos jovens. Tudo isso para informá-los e os convidar a participar de um projeto de leitura. Na verdade, círculos de leitura que serão o objeto de estudo do meu doutorado. A partir disso, alguns jovens, dez em Itinga e vinte em Areia Branca, aceitaram o desafio e vieram semanalmente aos CRAS para, por duas horas ou mais, conversar sobre si mesmos, sobre a vida e sobre o mundo, tendo como companheiro inseparável, como fiel escudeiro o texto literário. Foram questionados exaustivamente, chegando a ficar cansados quando alguém perguntava: “Por quê???” Escreveram cartas, pintaram murais, teceram seus sonhos, fizeram projeções para o futuro e as colocaram numa cápsula do tempo, encenaram peças, construíram presentes, brincaram, brigaram... Pensaram.

Poxa, estes jovens nadaram contra muitas marés. Marés que eu nem posso imaginar ou descrever, apenas intuir. E vieram viver esta aventura com coragem. Mostraram-se sempre questionadores, polêmicos, engraçados, ativos. Souberam posicionar-se, dizendo o que pensavam. Fizeram novas amizades; fortaleceram os antigos laços e se tornaram singulares, imprescindíveis uns para os outros, sobretudo, para mim.

Nosso ponto de partida e de chegada foi sempre a leitura de literatura e a partir dela falamos de nós mesmos, olhamo-nos no espelho, uns de peito aberto, outros ressabiados. Falamos de nossas famílias, do futuro, do passado, das ausências e das presenças. Compreendemos que os contos de fadas não são só para crianças. Viajamos em máquinas do tempo, ficamos curiosos por saber as razões de um vestido misterioso estar preso na parede. Até um coelho apareceu, querendo ser preto e questionando uma menina de laço de fita. Depois conhecemos Socorro com seu cabelo cauterizado e sua ânsia em ter uma pele mais clarinha. Então, tentamos olhar nos olhos do coelho branco que queria ser preto e da mulher negra que queria ser branca para ver as razões de seus desejos.

Voltamos a infância e rasgamos saco, puxamos cadeira, levamos ovo na colher e demos muita risada. Entendemos que tudo aquilo que nos dizem hoje vai ser dito de uma forma bem diferente daqui há trinta anos. Gente fantástica apareceu em nossas vidas, como uma fabulosa mulher que era capaz de tecer tudo o que desejava, mas quando se zangava ou se cansava também sabia destecer seus próprios desejos. Conhecemos outras mulheres, estas de carne e osso, como Pagu, que mesmo sem mágica de varinha de condão, conseguiram transformar feiticeira corcunda em rainha do tanque. Além de gente, apareceu bicho diferente, como um jumento que entrou na faculdade e desejou uma outra escola, com mais brincadeira, mais arte, mais riso.

Falamos de festa, de micos, de namoros e paquera. Lemos revista de fofoca e sentimos falta de gente de mais cores na revista Todateen. Estranhamos em ver e ouvir uma história às avessas em que a menina branca é que era maltratada e vista como feia. Que diferente. Que distante de nosso mundo, onde nos ensinaram que menina bonita mesmo é a loura esbelta da Malhação. Depois, falamos do amor que talvez transforme nossa vida a tal ponto que faça o mudo falar pela força mágica de um pão de queijo. Ou o amor escondido por trás de um vaso japonês cheio de tesouros.

Por fim, palhaços vieram nos convidar a achar no lixo, no lugar mais feio, mais sujo, a beleza da palavra que é construída para provocar a ira, o riso, o ódio, o amor, a auto-estima. E nesta valsa tresloucada, neste caminho inesperado, às vezes difícil, cheio de labirintos, ouvíamos as vozes de gentes várias, daqui e de acolá, que ainda estão no mundo ou que já desapareceram. Estiveram conosco Clarice Lispector, Roseana Murray, Pedro Bandeira, Vânia Abreu, os irmãos Grimm, Rubem Alves, Ana Maria Machado, Legião Urbana, Carlos Drummond de Andrade, Cristiane Sobral, Moacyr Scliar, Marina Colasanti, Rita Lee, Cláudio Torres, Jotacê, João Ubaldo Ribeiro, Joel Zito Araújo, João Lima, Adonias Filho. Muitos nos agradaram, outros nos aborreceram, mas todos, com certeza, provocaram algo em nós.
Depois de tudo isso, olho para trás e nem acredito que em tão pouco tempo, fizemos tantas coisas. Também ainda não consigo acreditar que as areias da ampulheta do tempo escorreram tão rapidamente. Chega a dar um nozinho na garganta e um medo de olhar para frente. Mas é inevitável: o tempo não pára. Como diria o poeta, não há futuro, só há o presente, por isso não nos afastemos dele, vamos de mãos dadas. Assim, agora só nos resta dar uma pausa, reorganizar nossos rumos para no novo ano, partilhar novas experiências e saborear novos saberes que emanam de uma mera folha de papel salpicada de manchinhas-desenhos pretos, prenhes de sentido e imageem.

sábado, 10 de dezembro de 2011

RELATO DE UMA PROFESSORA EM FORMAÇÃO

Sempre fui boa aluna em português e inglês; por causa disso, já aos quatorze anos, meus professores começaram a indicar-me como professora de banca para alunos mais fracos. Era uma ótima forma de ganhar dinheiro! Foi assim que ganhava uns trocados até meu terceiro ano do ensino médio.

Entretanto, era chegada a hora de decidir o curso para o qual iria prestar vestibular. Apesar da minha paixão por literatura e pela língua portuguesa só ter aumentado, ser professora não foi nem de longe minha primeira opção. Não desejava ganhar pouco, ser maltratada por alunos, sociedade, governo, nem passar a vida inteira fazendo greves, implorando uma valorização financeira e profissional. Pelo menos, era esse o discurso que me educou e me fez construir uma imagem de como vive e trabalha a categoria profissional, chamada professor. Por tudo isso, tentei jornalismo enão fui aprovada. Assim, fui obrigada a fazer cursinho pré-vestibular, mas como odiava auqela dinâmica do macete, me inscrevi no vestibular em Letras Vernáculas. E passei. Em primeiro lugar!

E lá a história se transformou em outra. Sentiu uma angústia pelo fato de muitos professores na faculdade ratificarem o tempo todo a dor de ser professor, os problemas, a impotência e a falta de solução. Isso me arrasava e eu ainda nem sabia o que era uma sala de aula. Vivi, de fato um conflito, pois, ao mesmo tempo, que amava estudar língua e literatura, falar, discutir e debater com colegas e amigos com paixão sobre o que estudava, o o único campo profissional para o qual o meu curso se voltava - ensinar - possuía perspectivas de êxito extremante restritas e desoladoras. pelo menos, era o que diziam enfaticamente.

O tempo foi passando e ansiedade que me é peculiar só me corroendo por dentro. Desejava concluir o curso, mas a necessidade de cumprir o desafio de entrar em sala de aula era inevitável. Decidi começar a lecionar antes mesmo do estágio obrigatório. Consegui uma vaga numa escola pública do município onde moro. Daria aulas de português para as turmas de quinta série no ensino fundamental.

No primeiro dia de aula, nervosa, ansiosa e cheia de opiniões negativas à escola. Naquele momento, tudo aquilo que estava no discurso da sociedade sobre o fracasso da escola pública se materializavam em minha frente: não havia salas suficientes para o número de alunos matriculados, os alunos corriam e gritavam de um lado para o outro, a diretora falava alto com eles, mas não conseguia ser ouvido. Era um cenário de guerra.
Nesta confusão imensa, apresentei-me a diretora sem certeza de ter sido ouvida. ela me respondeu com um sinal de positivo e pediu-me para entrar em qualquer sala e começar a das aula. Eu não acreditei, pois eu estava ali para trabalhar com as quintas séries, dar aulas de língua portuguesa, ensinar alunos a escrever segundo a norma padrão e os ensinar a ler e a apreciar os clássicos da literatura universal. Eu não estava ali para 'tapar buracos' nem acalmar alunos em fúria.

No entanto, resolvi entrar e enfrentar o desafio. Entrei na primeira sala de aula que vi e alguns alunos que se diziam quinta série também entraram, sem certeza de que aquela era realmente sua sala. Eles se sentaram calados, em fila indiana e me olharam com curiosidade. Só ali percebi que eles estavam tão assustados quanto eu. Sorri com ternura, pois naquele momento em que nos olhávamos, percebi o quanto um discurso propagado socialmente (e que só muito depois percebi que não é ingênuo; é carregado de preconceitos, falácias e criado intencionalmente para reforçar a auto-estima baixa do pofessor) podia nos fazer aceitar que a escola é mesmo o fim da linha e não há mesmo o que se fazer.

De fato, naquele momento de silêncio mútuo, o primeiro até então, me emocionei com aqueles olhares já cansados da obrigatoriedade de ir para uma escola que ele já sabiam ser enfadonha, mas, ainda assim estavam curiosos, ansiosos e, de certo modo, esperançosos como a possibilidade do novo.

Ai só me restava mesmo começar... Apresentei-me, falei da importância de se conhecer a língua falada por eles para saber entender os discursos veiculados socialmente. Além disso, expliquei que eles seriam convocados pela sociedade para produzir uma diversidade enorme de textos orais e escritos, por isso precisavam saber adequar os textos produzidos às exigências do contexto, do momento, do interlocutor, da situação comunicativa para não serem alvos de discriminação nem exclusão social e para se comunicarem com eficiência.

Quando parei de falar tudo aquilo, notei que tinha conseguido pernder a atenção daquela ‘galera’ e que eles me olhavam como se nunca tivessem ouvido falar nada daquilo. Comecei a pensar que não tinha sido entendido e perguntei se eles queriam dizer algo. Calaram-se. Fique assustada. Provavelmente eu tinha falado uma língua bonita, com palavras difíceis, mas cujo conteúdo era incompreensível para eles. Ledo engano, essa era apenas mais uma das sensações causadas pela idéia preconcebida de que os alunos são tabulas rasas. Só depois, entendi que eles entenderam minha fala e acho até que concordaram com ela.

Deste dia em diante, muito aconteceu e sei que muito ainda está por vir. Foi ai que descobri que podia usar a sala de aula, como um espaço de diálogo, troca de saberes. Foi em pleno caos que vi que era possível construir minha própria vida. Sei que o que falei não é novo nem surpreenderia muita gente, mas naquele dia surpreendeu meus alunos. Então entendi que estava impregnada pela utopia (no sentido mais realista do termo) de que através de uma educação de qualidade é possível mostrar as pessoas que o mundo oferece inúmeros caminhos e cada indivíduo precisa se instrumentalizar intelectualmente para ser capaz de escolher seu próprio caminho sem que tenha que dizer: “ a vida me levou” ou “faltaram oportunidades”.

Sem dúvida alguma sou educadora. Aprendi a ser no trabalho paulatino e duro com meus alunos. Aprendi a ser na escola básica e não na universidade. Esta vocação, como qualquer outra, tem sua dor e delícia, como afirma o Caetano Velloso. É maravilhoso lidar com o ser humano, auxiliá-lo em seu crescimento individual e coletivo. Mas a dor é latente sempre, pois o mesmo ser humano que encanta e emociona é aquele que assusta, entristece, estarrece.

Além disso, as questões sociais, políticas e culturais jamais podem estar fora da pauta, porque interferem violentamente em nossas práticas diárias na escola. Nas escolas públicas por onde passei, sempre foi muito triste lidar com a insalubridade de salas escuras e calorentas, com a existência de muitas grades e poucas áreas livres. A evasão, a defasagem idade /série, a carência de saúde e alimentação adequada, a ausência da família, acabei por aprender que eram mais conseqüências do que causas do fracasso escolar.

Para agravar a situação, a representação do professor é desmotivadora. Atualmente na Bahia é difícil até se aposentar, o salário é alvo legítimo das críticas e também serve como justificativa para o desleixo de muitos profissionais. Tal desapreço ao professor está na mídia, no senso comum. A sociedade geralmente enxerga o professor como um coitado, mal remunerado, com formação precária. Os alunos, como um chato-repressor.

No entanto, sei da possibilidade de transformar esta realidade que, às vezes, parece intransponível. E tenho visto e encontrado as faces da mudança ao longo destes anos de docência, nas inúmeras vezes que vejo meus ex-alunos tendo acesso a em situações sociais melhores do que aquelas que viviam, porque conseguiram concluir o ensino médio, fazer um curso técnico ou ingressar numa faculdade. Isso é fato e esta mudança não depende de um herói político, mas depende do esforço de muita gente e acontece como uma reação em cadeia que faz a diferença no final. O grande problema é que um médico quando termina a cirurgia sabe se o resultado foi satisfatório ou não, já nós professores só vamos ser compreendidos, valorizados e respeitados muito tempo depois, quando o aprendente colhe os frutos deste trabalho árduo e perene chamado EDUCAÇÃO.

Não é preciso criar escolas, mas ainda é cada vez mais preciso cuidar da formação do professor, valorizá-lo profissional e financeiramente para que se provoque uma reação em cadeia e o professor também se preocupe com a formação do aluno, com sua valorização enquanto indivíduo que pertence a uma etnia, religião, cultura local e global, buscando ampliar o reconhecimento positivo e orgulhoso da identidade deste aluno.

Não é um trabalho fácil e rápido; é paulatino e nunca se esgota. É urgente. Não há mais tempo em nossa sociedade para esperarmos a próxima geração. Temos que construir as mudanças do agora. A prática pedagógica que em seu cotidiano está envolvida com a responsabilidade social e com a crença na transformação do quadro educacional vigente é extremante exaustiva, mas faz sim a diferença. E é tendo como ferramentas diárias a crítica, a ação e a esperança que eu exerço meu fazer educacional, não como se fosse um sacrifício nem uma missão sagrada, mas como uma profissão.

* Escrevi este texto em 2004, mas ele narrava uma situação vivida em 1997, quando ao 19 anos, entrei pela primeira vez numa sala de aulas como professora. É ingênuo, mas fiquei admirada com o ser que um dia fui! Ele foi publicado pela EDUNEB, num livro chamdo "Professor e alunos, construindo uma cultura da paz".

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

SOCIALMENTE BRANCA

No espelho que me vejo refletida
Há uma menina, na verdade, olho de menina
Corpo de mulher: bunda grande, boca grande
O cabelo duro,bem encaracolado
A Beleza é Natural, comprada na feira, mas natural
A pele é plural: escura de sol, morena de sempre
Por que não pode morena, mesmo sendo preta?

Olho e rio, plenitude de mar!
Nem sempre foi assim.
Satisfação construída a duras penas
Satisfação construída com guanidina e amônia
Poucas tranças, muito permanente afro
O nada agora. Na química vazia do cabelo cheio
Aprender em suas ausências, em suas permanências
Lembrar do bobis, dos cocós, das toalhas na cabeça.
Memória viva, sem rancor, provocadora do riso
Pelo ridículo inevitável

Só depois, bem depois, entendi
É uma melanina preta redundante, retumbante
Que escorre pela alma
É uma brancura alva que condena minha culpa
É tudo isso que faz de mim quem sou.
É pele, é cabelo, mas é mais
É família, religiosidade, festa
Língua, afeto, afago e junção!

É a História esquecida; é a História lembrada
É a história colocada debaixo do tapete
São as estórias que ainda ecoam em meus ouvidos.
São todas elas que dizem deste ser
Era um lá fora, eu intuía
Mas uma coisa que bulia lá dentro,ordenava:
“Vá, menina, buscar uma História”
História que eu via não via
Olhava que olhava, para todos os lados
Pressentia distante, presente, minha, vazia!

Até que um dia, danei a ver, perguntar, conversar
Primeiro, vi que nasci num lugar que era meu lugar
Mas força do trabalho dos outros, mudei para outro lugar
Não era lá meu lugar. Mas agora é
Sou de todo e qualquer lugar?
Sou de um todo lugar qualquer!

Nesse esforço de ver-compreender,
Vi que o lugar que não era, era!
Nele cabiam todos os estrangeiros, gente de terra, como eu
Mas dependia das paralaxes
O problema não era o lugar, mas era a luneta por onde o olhava
Branquitude, roupas de marca, escola burguesa
Era tanta gente que tinha tanta coisa
Era tanta gente que debutava em Disney
Era tanta gente com Mochila da Company
Era amar Olodum, só depois de Simon
Era tanta coisa e um vazio na alma

Desconfiava que desconfiava
Primeira pista, era a casa com gritos, palavrões festivos
Risos, carurus, muitos santos
Ritos para tudo: para juntar, sobretudo
Palavra ‘porreta’ que podia em casa não podia em outros lugares
Nestas incertezas, as velhas olhavam
Mais que olhavam, diziam histórias belastristes
Não eram histórias para criança
Era história herança, para boi nem dormir nem esquecer.

Histórias que apontavam para desorgulhos, sofreguidões.
Seriam verdades, seriam acontecidas ilusões?
Estelita, tia-avô, falava da avó dela portuguesa
Era dona de escravos e má, frisava: era má a outra velha!
Tão má que um dia a escrava entrou na sala de jantar
Era hora de jantar, gente branca a mesa
Escrava preta para servir não podia
Era petulância entrar sem ordem, entrar sem vocativo.
A avó de minha avó, nem pestanejou
Nem reclamou, a velha má
Pegou a velha mão, muniu-se de garfo de prata
Atirou nas costas da escrava.

Agora, me pergunto, envergonhada:
- Como uma menina preta se desvencilha desta história?
- Como menina preta, orgulhosa do espelho, negligencia este enredo?
Menina preta, que não é preta,
mas é preta
Tem avó sinhá. E sinhá cruel, viu?

Mas tem bisa, filha de sinhá cruel, que vê além de cores
Como pode? Eu me pergunto!
Rupturas...
Mas tem bisa que é a própria genealogia de mim mesma
Bisa que cuida de escrava ferida, caída no tacho
Bisa Catarina, catarata, cega
Bisa que, quem sabe, um dia virará filha?
Bisa tirou criança escrava da morte
Curou feridas de escrava pela primeira vez
Para ir, vida afora, curando feridas de outras gentes
Só não sei, acho que sei, que nunca teve quem curasse as suas
A menina escrava, cheia de feridas,
virou amiga para o todo sempre
E foi a casa de cinco mulheres:
Catarina, Josefa, Adriana, Estelita, Benita
Todas brancas, menos Josefa

Havia ranço de escravidão nas mentalidades
Adriana mesmo casou com português rico
Foi trocada por negona amante,
Até o gajo ser deixado pelo taxista para Adriana recuidar
“Não foi ela quem ouviu até que morte os separe?
Agora cuide, então”, dizia a nêga.
Estelita casou com poeta, teve viuvez dura
Nunca se rendeu, mas na língua dizia com graça as filhas
-“Se casar com preto, não vou pentear cabelo de neta?”
Mas há outras coisas mais difíceis, do que desemaranhar cabelo rebelde
Há ódios, rejeições, ausências, mas duras, mais crespas.

Benita, casou, grávida e com preto de Maragogipe
Benita transgressora era neta da sinhá,
era irmã das irmãs, era filha da mãe, era filha da menina ferida
Sofreu também, fez escolhas estranhas para a mulher que ora sou
Mais foi forte como jamais soube ser
E me deu de presente um Araújo distante que nem me sinto
Só sinto quando ecooam em meus ouvidos
estas histórias que ela ajudou mesma a me contar.

A história que me sinto, pressinto, me revejo, antevejo
É Sacramento, toda Sacramento e mulher Sacramento
Sempre soube antes mesmo de saber
Sempre soube antes mesmo de cientificamente comprovar
É Umbelino, que eu vejo no espelho para espelhar quem sou
Sua risada, safadeza, humor, brincantices
Sua cachaça, sua dança, sua sensualidade
É no menino de história triste, órfão de mãe mais que cedo
Que vejo meus atos, meus dons, meus receios.

Foi por ele que atravessei a cidade,
Adentrei o Gabinete Português de Leitura
Para pesquisar o verbete “Sacramento”
No Dicionário das Famílias Brasileiras
E estava lá: era gente escrava, era gente do Recôncavo baiano
Era gente que nem eu, que um dia existiu e que um dia despareceu/rá

Foi ele que me deu pistas e que começou a me convencer de uma pretitude
Foi ele, sua cidade, suas celebrações
Que me deram as primeiras pistas.
Mas, não nego, meu nêgo, não foi só ele
Foi o imbricamento da graça e da crueldade
Do preto e do branco, do preto no branco
Quem me fez ser quem sou.
Não nego, esse ranço, esse banzo que é meu
Nem morta, nem nem, nem nada
Afirmo-o entrelugares, entre vazios
São eles quem sou
É neles que encontro meus fs
De festar, fartar, forjar, fuder e amar


São mais que eles, há um outro lado
Tão escondido, tão deslembrado, tão camuflado
De origem honrada, importante, européia, viu?
EU-RO-PÉ-I-A.
Mas tem cabelo duro e beiço grande na Espanha, tem?
Tem pele morena bem queimada de sol, na Espanha tem?
Mas essa já era uma história de um outro Moreno lado
Era do outro lado: uma ilha enorme. Ilha Grande.
Sobrenome lembrado: MO-RE-NO de Antônio
Sobrenome esquecido: DÓ-CIO de Maria
Seria uma questão de gênero ou de cor?
Das duas coisas, minha menina
Foi deste lado da ilha que me vi princesa
E desconfiei: se sou princesa, se sou preta, se sou gorda?
Se sou posso ser? Sim, se sou, posso ser, sim!

Moreno é espanhol, com certeza. Que orgulho, é espanhol!
Que alegria! Fui educada a crer exultante nesta herança
Ninguém contava com a minha plena desconfiança
E eu tentava que tentava ver que não via
E eu tentava que tentava esconder minha alegria
Porque a alegria vinha de outras certezas...
É espanhol? Com certeza?
Pesquisa que pesquisa, pergunta que pergunta,
“Menina, não tem o que fazer, não?”
É de mouro, minha preta, esta herança
Pele tão queimada como os trigais
Gente perseguida pela inquisição
Origem outra tão marginal como a de agora
Era judeu, convertido em cristão
Que comia carne de porco
Não por querer, mas para provar
Para provar que a fé se prova com a boca
Mesmo que boca sangre e cuspa escondida
A fé, ninguém sabia, se prova com a pulsação de dentro
Poucos ouvem este batuque. Que bom?

Mas os meus Morenos
São tão engraçados
Negam as fotos, mas não negam os laços
Como não conheci estes avós
Os paternos
Só posso dizer do que ouvi dos seus
Dos ecos deixados, lançado a outro
Criando a teia tênue inatingível
Mas visível e pulsante

Muitas denúncias, muitas pistas
Nunca vi costa de dendê ser terra de gente de oliva
Livro de pai me revela outras histórias
Conta, sem querer, de uma mãe morena
Que afagava como preta velha e orava com sinhá cristã
Uma mãe morena que discipinava com a freira enclausurada
Uma mãe bem morena que curava feridas de alma e do corpo com folha
Como a preta rezadeira dos longes da senzala
Conta, sem nem perceber, de uma gente escura
Que fazia brincantices iguais ao preto Sacramento
E eu me alegro por achar e me achar neles
E eu me alegro por ler (e revisar) este entrediscurso.

Desculpa, pai, mas aquela negona matrona na foto
É minha avó: a Maria que é Dócio e merece trocadilho
Desculpa, pai, mas ver aquela foto foi ato de re-ligare
Eis minha ancestralidade ali imortalizada no papel fosco.
E que tá nas nossas caras, nos nossos corpos
Nos nossos atos, na nossa fé.

Mas não posso negar
Que esse movimento que conto agora
Vem de um antes
Vem de um Nelson Maca provocador, insuportável
Agressivo, radical, verdadeiro
Que com sal e vidro rasgava a ferida já há muito aberta
Me levando a crê-ver que toda aquela desconfiança
Todo aquele sentimento de que estava num lugar não-meu
Me conduzia a palavras incômodas, desconhecidas, estrangeiras
NEGRO? N-E-G-R-A. PRETO? P-R-E-T-A? eu?!?!

Oxe, que maluquice. Que certeza. Que desconfiança...
Depois de achar em mim mesma a resposta
Preta, negra, branca, morena, MESTIÇA PRETA
Era ora de ouvir e imbricar a dura resposta outra
Era hora de ser acusada de oportunista, maluca, hiperbólica
Era hora de pensar tanto, gastar tanto tempo, ir fundo tanto, ampliar tanto
Era hora de ouvir o que não queria de quem mais amava
Era hora da verdade, botar a cara na rua,

Levar tapa de escutar e dar tapa de gritar:
“ Não vai mais alisar cabelo, não, é? Tá maluca?”
Vou, sim, quando quiser. Agora não quero. Sou mais bonita.
“ Você é negra aonde, menina? Tá mais pra Parmalat”
Sou negra onde eu mandar, onde eu achar que sou e pronto
“Agora, Luciana, inventou essa história que todo mundo é negro?”
E é o quê, então? Hein, Eva???
“Pior, menina, ela tá dizendo que tudo é racismo”
Nem tudo, mas muita coisa que a gente nem saca é e um dos mais filhadaputas
“Logo eu, minha Lu, que acho todo preto bom dançarino de samba e afoxé”
E de ciência, matemática, literatura, política, também né, não é ?
“Quê? Você é a favor das cotas?”
Toda a favor, até a última ponta
“Sabe o que é que estes pretos radicais querem? Transformar isso aqui nos EUA?”
Não era isso que todos vocês queriam? Tão reclamando de quê?
“Ah, mais você é socialmente branca!!!”
E essa foi fundo, marcou, feriu, magoou

Tanto esforço para ser e mudar sendo sempre
E vem uma puta dessas, com crachá do MNU,
buscando uma essência para me nomear? Ah, tá!
Eu só conto esta história
Porque só sei contar de mim
Pelos caminhos por que passei
Nem quem veio comigo sabe-os como eu os sei
Também não sei os dizer dos trajetos dos meus companheiros e companheiras

Mas depois de tanto suor, tanta lágrima
Tanto ter que duela com ser, tanto buscar-procurar
Vem uma filha da puta me chamar de Socialmente Branca?
Chuva de tempestade da Pancada mais que Grande de Tremembé
Tromba d’água assustadora, desestabilizadora
Onde sou? De onde sou? Nem cá nem lá me querem
Solidão... S-O-L-I-D-Ã-O

Depois, do pau viola, a aprendizagem, o respeito
Será que essa louca tá certa no pensar?
Esforço doido e doído de desestabilizar pensamentos
Os meus próprios, os mais difíceis
Ainda exaustivo, apesar de cada vez mais intenso
Cada vez mais tranqüilo e sem sustos
Vendo novas marcas e novas possibilidades
Certa da mudança para o sempre
Mas feliz e plena da trajetória já percorrida.
Conscientemente, levando uma única certeza:
Mudanças nunca a prazo, sempre a vista, ‘in cash’

Maluca? Socialmente Branca?
Socialmente branca, o caralho
Sou o que muito mais gente, do que não se vê na minha pele
E do que também se vê na minha pele, no meu corpo, no meu espírito, na minha alma
Construíram neste ser que ora soul.
No que agora Rebel Soul.
Sou tudo isso e ninguém, – N-I-N-G-U-É-M
Vai me reduzir, me marcar
Até porque quem tem que aceitar, esconder, acolher minha próprias marcas
Sou este eu aqui, uma mosaico plural e confuso, inacabado
Mais preto, com branco, com mouro, português.
Mais eu! Mais eu, muito mais eu!


*Textos repleto das marcas fundadas em mim por Marcelino Freire, Helena Parente Cunha, Elisa Lucinda, João Cabral de Melo Neto, Bob Marley, Carlos Drummond de Andrade. Qualquer verso parecido não é mera semelhança; é cópia reconhecida, orgulhosa e patenteada.

Mar Português, autoria de Ngunga

Mania de explicação (ou introdução para o poema): este poema nasceu numa disciplina que fiz, chamada de Literatura e Imaginário. Nesta o professor nos provocava a pensar o imaginário a partir de obras da Literatura de Portugal, Brasil,Moçambique e Angola. Neste delicioso caminhar, entre discussões, a turma ficou perplexa com o apego dos portugueses a um passado glorioso e a falta de reconhecimento em pleno século XXI das mazelas produzidas pelo colonialismo em países do continente africano como também aqui no Brasil. Então, sensibilizada pelo jovem aventureiro, criado pelo angolano Pepetela, escrevi um Mar Português como se o órfão pioneiro do MPLA o tivesse criado. É apenas uma brincadeira. Com todo respeito a pessoa de Pessoa e, mais que isso, com todo amor a obra deste português ilustre, peço licença para aportar num outro mar:

Óh, mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarem, quantas mães em América ou no Reino do Congo foram separadas do seus filhos, cometeram infanticídios e sequer puderam chorar!
Quantos filhos foram separados de seus pais, pela guerra e orfandade!
Quantos filhos foram escravizados, mortos, mutilados, silenciados!
Quantas noivas foram estupradas antes mesmos de desposada por seus próprios amores!
Para que fosses, ó mar de terras Lusitanas!

Valeu a pena?
Não se pode responder, não há mais como voltar
Via de mão única
Alma imensa que transborda híbrida de dores,
mas também de amores e de novos sentidos.

Quem quer passar além do Bojador, Chuí ou Gilbraltar
Tem que passar além da dor,
Buscando no espelho-mar
Outras, múltiplas, plurais faces
Perigosas, abismai faces,
Próprias do entrelugar
Que, inevitável, se constiuiu em nós livres colonizados

domingo, 2 de outubro de 2011

QUANDO SUA PIOR INIMIGA É SUA MELHOR AMIGA

Ela arrancou meus dois dentes da frente, só porque eu peguei uma camiseta dela sem avisar. Me trancava na cozinha, quando minha mãe saia para trabalhar, e junto a sua melhor amiga, me dizia com olhos ferozes: “entra no forno agora, vamos comer uma porquinha assada”. Eu chorona desde sempre, abria o berreiro e elas com ar de cordialidade, fingiam, retroceder: “Tá, tá bom. Não vamos assar você, vamos só cortar um dedinho e fritar”. E quando meus pais saiam à noite, era outro o sufoco. Minha casa sempre foi farta de fantasias, pois éramos as duas dançarinas, bailarinas, artistas. Casa e escola eram nossos palcos. Desempenhei papéis importantes como a Gota D’àgua e a russa (afro-nordestina, mas russa). E ela foi o Simbolismo. Olha que profundo!!! Só que havia uma fantasia de cigana que ela adorava, bem na época em que a novela Carmem fazia sucesso na TV Manchete. Então, era só o carro dos meus pais sumir do nosso portão para ela se ausentar da sala onde assistíamos TV. Voltava, vestida de cigana, com um coque e rosa no cabelo, batom bem vermelho na boca, saltos altos. Entrava bem séria na sala e eu, sempre besta, perguntava: “o que é, Isaura?”. Ao que ela respondia: “Não me chame de Isaura. Meu nome é Carmem”. E vivia o personagem, dançava, fazia os sons de castanholas com a boca e fingia estar possuída pela personagem. Isso, é claro, até ouvir o barulho do carro dos meus pais, se aproximando. Ai, ela saia, botava a camisola e retornava com carinha inocente.

Minha irmã! Era o que ela sempre fora: minha única irmã. Naquela época, ninguém falava em boulling nem violência infantil. Por outro lado, eu também tinha minhas artimanhas e vinganças. Minha arma fundamental sempre fora a pirraça. Arte em que sou praticamente uma PhD.

Éramos como gato e cachorro na infância, mas na adolescência por pressão paterna, fomos obrigadas a nos aproximar, pois uma só podia sair em companhia da outra. Lembro-me do dia, ou melhor, da madrugada, em que fui consolá-la de uma das inúmeras brigas com meu pai, por causa do primeiro namorado. Acho que foi ai que minha pior inimiga se tornou minha melhor amiga. Mas, apesar desta aproximação, jamais paramos de brigar feio, com palavrões, puxões de cabelos, tapas e ofensas graves. Ultimamente, por certa vergonha de nossos companheiros e da nossa faixa etária é que a violência física diminuiu, mas ainda temos a delicadeza de bater o telefone uma na cara da outra, de gritar uma com a outra.

Somos diferentes em tudo e é esta disparidade que nos completa e faz dela uma das mais importantes almas gêmeas de minha vida. Os amigos dela são sempre engomadinhos. Os meus são sempre amalucados. Eu nunca tenho muita paciência para ser cordial com os dela. Tem uns que nem me disponho a falar ou ser gentil. Já ela, no primeiro encontro se torna amiga de infância dos meus. Eu sou avoada, meio alternativa, do contra em quase tudo, silenciosa, introspectiva, um pouco rebelde e bastante egoísta. Ela é toda antenada, gosta do que é bom, sabe das coisas e gentes chiques, fala que nem a nega do leite, extremamente extrovertida, resolve os problemas de todo mundo, está sempre disponível e atenta para pensar no coletivo. Ela é muita católica. Sempre foi a garota propaganda dos grupos de jovens, dava palestras, sensibilizava os fieis, abraçava o ‘irmão’. E eu, sempre desconfiada de dogmas e verdades, me coçava só em ouvir falar de grupo de jovens, em Igreja, em religião. Odiava abraçar o ‘irmão’, cantar com as mãos pro alto. Apesar da fé que tenho, acho uma libertação (incomoda para alguns), dizer: “não tenho religião”.

Quando nos juntávamos para sonhar com o futuro, imaginávamos que eu ia morar na Aldeia Hippie de Arembepe e ela, no Horto, bairro nobre de Salvador. Eu teria cinco filhos, todos com nomes relativos a natureza ou África, algo do tipo, Lua Dandara ou Munanga das Águas. Ela teria apenas uma filha cujo nome seria Catarina Angélica de Albuquerque Figueroa. Os meninos iriam sujos, desgrenhados, sem pentear o cabelo passar férias com ela e voltariam limpos e passados a ferro. Já Catarina quando viesse toda engomadinha passar férias em minha casa, voltaria bem queimada de sol, com os cabelos trançados e diria: “Meu nome não é mais Catarina Angélica Albuquerque Figueroa, me chame de Nana Shara”. Nada disso aconteceu. Ainda... Mas quando inventávamos esse futuro tresloucado, ríamos muito e nos uníamos mais ainda em nossas diferenças.

Só muito depois que eu entendi que essa inimiga, na verdade tinha um imenso complexo de Felícia, aquela do Loney Tones que ama os bichinhos, mas de tantos cuidados quase os mata asfixiados. Depois é que entendi que toda aquela violência sufocante era um amor exagerado, de umas das pessoas que mais me ama na vida. Então a partir dessa compreensão pude compartilhar com ela dos meus momentos mais importantes e dos momentos mais importantes delas. Ela esteve comigo em cada concurso que fiz, em cada seleção, em cada defesa; organizou mais meu casamento do que eu mesma, comemorou cada vitória alcançada e chorou comigo em cada decepção, frustração ou percalço da vida. Eu também estive com ela em cada formatura, emprego, em cada relato das mazelas sociais seja de uma enfermaria de oncologia pediátrica seja de uma comunidade popular da região metropolitana de Salvador. Estive com ela no casamento, momento que chorei copiosamente, daquele modo nada contido que aprendi a chorar e também na noite que ela deu a vida ao menino solar e na manhã que ela deu a vida a menina lunar. Estive e sei que sempre estarei perto dela. Estamos coladas uma na outra para o sempre.

Talvez só possa entender essa complicada relação de amor quem tem duas mulheres irmãs dentro de casa. Talvez só quem tenha visto tanta calçola estirada no varal, tanto salto espalhado bela casa, possa entender essa difícil relação de duas mulheres. Mulheres, educadas para competirem uma com a outra, seja pelo amor dos pais, seja pelo lugar ao sol, mas que passam a descobrir ao longo da vida um amor fraterno tão intenso e inigualável, um amor tão vital que parece que há um cordão que me cola a ela eternamente. Talvez, não. Com certeza, essa inimiga me jogou nas maiores fogueiras, me impôs os piores desafios, mas ela também, sempre se converteu na amiga que curou as dores, trouxe os bálsamos e os aplicou nas mais fundas feridas. Essa inimiga-amiga foi a maior professora de vida que a existência me deu. Foi ela que me ensinou que há muitos caminhos e cumpriu a difícil tarefa de passar primeiro por muito deles; foi ela quem também quis fechar alguns caminhos com a vã intenção de me proteger; foi ela quem sempre cuidou de mim como se eu sua primeira e mais viva boneca fosse; foi ela quem descobriu tardiamente que eu era gente de carne e osso, não um frágil bibelô de louça, e portanto poderia ser jogada no mundo porque não quebraria fácil.

Foi com ela que eu me fiz o que sou e ela também pode dizer que a recíproca é verdadeira.Foi com ela que tal qual as irmãs Mercury, descobri minhas manias, fantasias e maluquices. Tudo isso sempre irmanada, protegida, amparada por este ser que de tão inimigo trasnformou-se em maninha, em cumadre, em amiga!!!