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quarta-feira, 21 de maio de 2014

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: O HOMEM DAS POMBAS

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: O HOMEM DAS POMBAS: Às vezes sou agraciada com uma imagem do cotidiano, nem sei o porquê disso. Nesses momentos, só tenho vontade de inventar alguma manei...

O HOMEM DAS POMBAS



Às vezes sou agraciada com uma imagem do cotidiano, nem sei o porquê disso. Nesses momentos, só tenho vontade de inventar alguma maneira de eternizar este presente gratuito. Acontece comigo todas as manhãs. Não, não vou exagerar. Acontece nas manhãs em que me digno a acordar cedo e caminhar na Orla de Vilas do Atlântico.
Bem cedo, mais ou menos umas seis da manhã, ele surge, o Homem das pombas. Veste todos os dias a mesma roupa: uma calça surrada de pano marrom, uma camisa de botão com mangas curtas e cor clara. Nas mãos, traz um saco de pão cheio de farelos e acho que sementes. Ele desponta e as pombas já começam a segui-lo. Na verdade, elas começam a surgir vagarosamente, de muitas direções.
Depois de sua entrada litúrgica no caminho que leva à praia, o Homem das pombas, senta-se em frente ao mar, abre um livro grosso de capa resistente marrom que parece ser a Sagrada Escritura e começa a entoar cânticos de louvor. Ao mesmo tempo que ele canta, põe a mão no saco de papel e de lá – num gesto leve e calmo – retira o alimento das aves. O céu fica salpicado de pontinhos ocres e elas vêm em bando. Não são cem. São muito mais. Meu olhar embevecido diria que são milhares.
E eu, contemplando a cena, me pergunto: haverá, meu Deus, uma explicação científica para isso? Ou elas, as pombas já agradecidas iluminam a passagem do homem pela sua boa ação diária? Vai saber...
Lembro-me de Cecília em sua janela de felicidades e transformo o verso em pergunta: será que essa imagem existe para todos ou “só existe diante das minhas janelas”? Asseguro que o Homem das pombas é de verdade. Tenho testemunhas. Mas não posso afirmar que para todos, ele conceda esse alumbramento.
Um dia em que chegamos no mesmo horário à praia, fui em direção a ele, tomei coragem e perguntei coisas vagas, tentando entender o porquê daquela diária missão poética. Ele me respondeu caoticamente. De seu olhar, reverberava uma loucura sã. Disse que, no passado, tivera uma vida errante. Envolveu-se em crimes, abuso de drogas e estivera preso por muitos anos. Na cadeia, encontrou Jesus. Não sei se numa visita carcerária. O fato é que daí se arrependeu de seus pecados e prometeu que, após sair da cadeia, louvaria a liberdade todos os dia de sua vida. Reverenciaria aqueles que se elevam aos céus em sinal de seu total desprendimento à matéria e representam a mais íntima e verdadeira libertação: os pássaros.
Essa é para mim a imagem mais franscicana que meus olhos já captaram em vida. No dia em que conversamos, senti-me atordoada e um pouco sem chão... Ele tentara me convencer de que eu também precisaria me converter antes do fim dos tempos. Só não entendi se eu deveria me doutrinar à fé em Cristo ou à missão poética. Achei que os dois caminhos exigiam um desapego radicalmente intenso demais para gente rasa como eu.
Enfim, após meses de devoção minha ao Homem das pombas, compreendi que nem tudo são flores mesmo. E Cecília mais uma vez me explicou: “é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim”. De dentro de uma daquelas mansões situadas na Orla de Vilas, ouvi um som seco de tiros. Ou seriam fogos? De início, pensei em assassinatos. Depois, observei a repetição do barulho, a fumaça e confirmei: eram fogos.
Certamente, pelo horário da manhã, espocavam em homenagem a algum orixá do candomblé. Logo depois, descobri que a intenção dos fogos não era essa. O caseiro da dita mansão, com o rojão em riste, gritava, para espantar as pombas. Ele esbravejava, reclamava da balbúrdia que elas, por causa do Homem, deixavam na praia. Pombo é bicho sujo, condutor de doenças, bramia o operário, seco de razão, sem poesia, mas inquestionável em seus argumentos.
Eu olhava tudo despida de poesia. Perplexa. Entristeci-me. O que era louvor e contemplação para mim constituía-se obrigação religiosa para o Homem das pombas. O que era louvor e contemplação para mim constituía-se tarefa doméstica diária, sofrida, opressiva e exploratória para o empregado.
Fiquei em silêncio entre os dois. As pombas despertaram em fuga. E eu, solitária, constatei... O romântico, em frente à amplitude do mar, alimenta as pombas e louva a vida. O realista, já cansado de limpar todos os dias, tardes e noites tanto coco de pombo, espanta-os com tiros secos. E eu fico de que lado? Jamais soube. Não sei suportar tal dicotomia. Nunca saberia quem estava com o direito. Abortei minhas caminhadas filosóficas diárias. Abdiquei do fim desse enredo.
No meu mundo ideal, invento que eles entraram num consenso. Agora, ambos louvam a liberdade sem sujar os jardins alheios. De longe, sem ousar desfechos, prevejo um mundo onde caseiros preocupados com cocos de pombo dialogam com os Homens das pombas e quiçá se transformam neles.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

NO LUGAR DELE


 
Ela não foi esperada. Na verdade, a desejaram profundamente. A quiseram. Mas não queriam que ela viesse como veio. Queriam-na um homem. O enxoval era todo azul. Seu nome já estava mais do que escolhido: Jorge Ermírio. Era o nome do avô. Um nome forte, sisudo. Como ela – se ele fosse – deveria ser. Teria a rigidez, a seriedade dele. Mas porque viria num outro tempo, viveria mais do que ele e seria um tributo a existência do patriarca.
Mas ele nunca veio. O que veio foi ela travestida em si mesma. E sem ser quem era esperado, ela carregou para sempre essa marca, rasgada em si. Carregou como uma chaga aberta a certeza de que não viera para agradar. Sabia, aliás, pressentia que na fila imaginária do antes da vida – talvez no céu onde os bebê se preparam para existir – passara na frente do menino desejado, se antecipara a ele. E sabe de uma, em vida, ela se arrependera da peripécia. Por que não deixara ele vir? Por que não chegara numa casa cor de rosa onde sonhavam com uma delicada menina? Era melhor esperar no antes da vida do que viver a vida assim, almejando ser o que nunca seria. Desagradando mesmo com toda ânsia de querer agradar.
Poderia ter ficado masculina. Poderia querer ser um homem. Poderia sonhar se travestir em macho. Mas nem isso queria. Gostava de fragilidades. Sentia mais sensibilidades do que os outros. Sua consciência já viera deformada em delicadezas. Era uma mulher. Não tinha como fugir dessa certeza.
O pai, desde que soubera da sua chegada, enfezara-se. Fechara-se para o mundo. Não sabia ser desagradado. Ele também ficara sozinho. Zangou-se com ela e trocou de mal para sempre. Não haveria companhias para assistir aos jogos no Maracanã; não teria sucessores em sua empresa nem com quem conversar sobre coisas de homem. Não veria na face de outro a sua própria história. Por culpa dela, teria que passar uma vida inteira numa casa cercada de mulheres. Pior! Por culpa dela, deveria lutar sozinho contra aquelas quatro feras cooperativadas em rebelião.
Ela, renitente, apagava da lembrança essa tristeza que insistia em, por qualquer descuido seu, vir à tona. Ela sempre soubera mesmo que ele nunca tenha dito. Ouvia da tia, da amiga da tia, da irmã da tia, da prima da tia. Ele nunca lhe quisera. Nem lhe quer. Ele é infeliz, taciturno e triste, porque você veio sem ser chamada, sua intrometida. E o castigo da fada que não fora convidada para a abençoar não seria o adormecimento profundo da menina. Ela tanto desejara isso. Não! O castigo era outro. O castigo era ficar. O castigo era ter que lidar para sempre com sua irritante mania de contrariar. A coitada ensaiava acertar. Ficava horas e horas frente ao espelho, treinando o ato preciso, a hora certeira para fazer-se amada. Mas na hora da verdade, se atrapalhava e fazia justamente o contrário do que preparara. Metia pés e mãos por todos os lados, menos por aqueles ansiados.
Hoje, balzaquiana, não duvida do amor a duras penas construído entre ela e quem não a quisera. Nunca perdeu a mania de desculpar-se por ter vindo no lugar do outro. Jamais ouviu uma palavra de absolvição. Ela mesma acredita que não a merecia. A marca funda se abre e se fecha todos os dias. O nó da garganta nem os anos de terapia conseguiram fechar. Não há retornos. Ela sabe que deverá até o fim de sua vida carregar a sua história como uma cruz. Não é isso que todos fazem? Mas como dói.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: ACENDE UMA ESTRELA (Ou: Uma outra Macabéia)

AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: ACENDE UMA ESTRELA (Ou: Uma outra Macabéia): Acabou a era das mulheres que se vitimizam. Isso é coisa do passado. Ser desdobrável parece que é algo permanente, mas ser uma espécie...

ACENDE UMA ESTRELA (Ou: Uma outra Macabéia)



Acabou a era das mulheres que se vitimizam. Isso é coisa do passado. Ser desdobrável parece que é algo permanente, mas ser uma espécie envergonhada, nem pensar. Vide Macabéia, que todo mundo acredita que morreu, mas está “vivinha da Silva” e mora na beira da praia numa cidade próxima a capital baiana.
É bem verdade que, atordoada com as declarações da cartomante, andou a esmo pelas ruas, meio embriagada, e pum... Foi atropelada. Mas os poucos amigos (se é que podemos chamar aqueles lá desse nome) que a conheciam viram o corpo estendido no chão, a deram como morta e se livraram do problema, saindo da cena de fininho. O que ninguém sabe (e é bom mesmo que não saibam) é que minutos depois veio uma ambulância, carregou o corpo frágil e a levou ao hospital. Havia um fiapo de vida como sempre houvera. E Macabéia passou quase um mês em coma.
Um belo dia, acordou. Ninguém nunca a procurara. Estava meio tonta, mas uma enfermeira negra e gorda, de pele lustrosa, tratou logo de dizer a ela toda verdade. E aí, quando se lembrou do namorado, da amiga, da cartomante, foi subindo um ódio, uma raiva, que ela levantou, puxou de um rompante os fios que estavam espetados em seu corpo e, pela primeira vez, gritou a plenos pulmões. Talvez seja isso que chamam de catarse.
Pois bem, saiu do hospital com a roupa do corpo e voltou ao quarto onde morava na Rua do Acre. O porteiro quando a viu quase desmaiou de susto. Pegou a chave no mesmo xaxim onde costumava deixar escondido e entrou em sua antiga casa. Abriu a porta, sobressaltada, pegou uma faca bem afiada e tomou um copo de água, antes de realizar o que ali viera fazer. Decidida, dirigiu-se ao quarto e com a raiva que agora arrepiava sua pele rasgou o colchão. Lá estava toda sua poupança. Tirou o dinheiro e foi direto para a rodoviária.
Pensou em retornar a sua cidade natal. Viu que morar no Rio de Janeiro era sempre um problema. Baixa tolerância aos nordestinos. Achou que voltar para o Sertão sem marido e pobre seria um atestado de fracasso. Aí, decidiu ficar no meio do caminho. A Bahia. Era nordestina num estado nordestino, mas lá não tinha conhecidos, nem familiares para fazerem cobranças ou para, pretensamente, a ajudarem com falsidades e explorações. Antes só do que mal acompanhada, essa era a maior lição que aprendera com o ex-namorado.
Com o dinheiro que tinha, comprou passagem, alugou uma casa por um mês e tratou de ir numa loja comprar roupas e sapatos sensuais e da moda. Decotes, ombros a mostra, fendas largas, roupas vermelhas. Ainda sobrara uma graninha para umas poucas maquiagens. Tudo pela primeira vez. E como decidiu viver da profissão mais antiga da humanidade, teve em sua primeira noite de trabalho sua estréia no prazer.
E assim, da difícil vida fácil, arrancou seu sustento por alguns anos. Mas, como também aprendera que nada era definitivo em sua nova trajetória, Macabéia mudou de profissão. De uma hora para outra, abriu um salão no bairro popular onde morava. E fez sucesso, viu? Porque em toda mulher, ela encontrava beleza. Não acreditava ou defendia padrões. Só não admitia as tímidas ou despojadas. Queria todas as suas clientes cheias de brilhos e cores. Não ser notada? Nem pensar.
E como diz a canção: “com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher”. Viveu intensamente o amor. Casou, descasou, separou, se amancebou. Traiu e foi traída. Agora, resolveu viver só e muito bem acompanhada. Tem uns amigos coloridos. O cara da manutenção é menino novo. Vai lá sempre que ela ou ele precisam. Tem muita gente boa que a acompanha para farrear. Aprendeu a beber e sabe todos os points festivos da capital baiana. Não perde um ensaio de verão e não paga para entrar em qualquer lugar. Quando não é o porteiro ou o segurança, é o rico empresário que foi iniciado nos prazeres da carne pela velha Macabéia que financiam sua diversão.
Macabéia decidiu colocar a cara a tapa, decidiu olhar as pessoas de frente. Nunca mais se anulou. É uma mulher pós-moderna. Dona de seus gostos, de seu gozo, de suas decisões, de seu corpo. Em cartomantes, não acredita mais. Só crê na força dos orixás e em sua mãe de santo. Por sinal, não deixa de cumprir uma obrigação. Geralmente, só tem a agradecer. Mas, ai de quem pisar em falso em seu caminho. É capaz de trancar a vida toda da pessoa com um feitiço ou uma praga. Macabéia é uma Iansã desbocada. Não leva desaforos para casa e peita qualquer um que tente a intimidar.
Da alagoana que só tinha o terceiro ano primário e escrevia mal, restou bem pouco. Talvez quase nada. Ainda tem dificuldade nos usos de s ou z, mas escreve um diário e sonha publicar em livros sua história de vida. Nunca mais foi tola. A ironia é que ela agora é mais jovem do que aos dezenove anos. Não sonha com o porvir. Vive cada dia com voracidade. Nunca mais abortou o futuro de que engravidara nem precisou se matar para viver novamente. Sua estrela brilhara em boa hora e parece que ainda ia demorar para se apagar.

domingo, 27 de outubro de 2013

JUIZ DE PAZ E BEM!


Me dizem idealista. Quem sou eu? Não sou tanto. Sou menos, bem menos. Só acredito num mundo mais humano, mais feliz, mais democrático, mais igualitário. Aff, mais tanta coisa. Isso nunca foi idealismo. Isso é, segundo Clarice, algo que ainda não nomearam. Pois bem, além disso, tenho uma danada de uma esperança que me segue, se gruda em mim, toda faceira e me faz gostar de horizontes, céus azuis, ventos quentes na cara.
Mas minhas famílias são bem isso. Ambas cheias de humor para lidar com as intempéries da vida. E, não querendo ser bairrista (mas já sendo), acho que ser nordestina ajuda muito nesta forma leve de ver a vida. Nestas minhas andanças por outras terras, noto que nós, ao lidarmos com o vôo que atrasa, com o salto que quebra, com a crítica inesperada, não berramos irritados, com tudo e com todos. Tendemos a nos ‘retar’, rindo. Geralmente, ficamos zangados, reclamamos, usando do sarcasmo, da picardia, da ironia, do bom humor. Sei lá. Confundem-nos com alienados, passivos. Mas é nada disso. É só nossa forma de agir no mundo que se sustenta na nossa crença de que a vida, apesar de tudo, é boa...
 Pois bem, hoje eu me enchi de vaticínios de um mundo mais bonito. Na verdade, nem começou assim. Eu estava assistindo Paula Lavigne (espero que ela não me processe) no Programa Saia Justa, em um debate acirrado sobre a autorização de biografias no país. Em um dado momento, a ex de Caetano Velloso, reclamando direito a privacidade, expõe a vida amorosa da jornalista Barbara Gancia. Ou melhor, age da mesma forma que ela não quer que ajam com ela. E isto não me encheu de esperanças. Pelo contrário, me deixou bem triste e descrente. Me fez coçar a cabeça, torcer o bico e, por menos de um minuto, pensar que o revide é prática mais corriqueira do que a escuta. Me fez pensar que quem se coloca como vítima não tem o menor pudor de escrachar com o outro (seja ele o algo que vitimiza ou uma outra vítima também). Me fez compreender que muita gente para defender sua bandeira detona com a dos outros. É o evangélico acabando com a vida do gay que detona todo católico que discrimina o candomblecista que pune a mãe de família que ofende a prostituta que agride o homem que marginaliza o pobre... Ahhhh... Esta lista não tem fim.
Mas Deus é tão bom. Só me deu pouco tempo para a tristeza, porque aí, ao terminar o programa da GNT, fui acessar meus e-mails e me deparei com uma mensagem de meu pai. Ele não dispensa apresentações. Até porque adora ser o centro das atenções. Meu pai é cristão (desde pequenininho), mais do que isso, católico, educado numa família super carola. Hoje é cheio de cargos e postos na Igreja. Nunca ganhou um centavo. Pelo contrário, só gastou! Eu acho até que ele é padre. Porque para mim (e para a maioria das pessoas), padre é quem faz celebrações em Igrejas, é quem ministra a hóstia na Eucaristia, é quem faz sermão. E ele faz tudo isso. Celebrou até meu casamento (que não foi nem católico nem em Igreja).
É óbvio que aos 71 anos, ele crê nos dogmas da Igreja Católica, respeita-os, segue-os. Já discutimos tanto por isso. Mas, que a Santa Sé nunca descubra, ele e minha mãe são religiosos bem ‘moderninhos’. Representam para mim o que há de mais humano no Cristianismo. Apresentaram-me um Cristo, do qual eu não desgrudo, mesmo não sendo mais católica. Porque me educaram mostrando o Jesus solidário que não atira a pedra na prostituta; o Jesus ousado que açoita os vendilhões do templo, o Jesus que não é hipócrita e ceia na casa de Zaquel, o Jesus poético que deixa a pecadora ungir seus pés e secá-lo com seus cabelos.
Além disso, meu pai é empresário, candidato a escritor e, atualmente, se orgulha por ser o Juiz de Paz da cidade onde moro. Vale ressaltar que esta é também uma das suas muitas tarefas não remuneradas. Ele gosta muito do título, porque como afirmei, ele é meio amostrado (e eu nem posso falar de gente assim), mas, acima disso, ele vê a função como uma responsabilidade social. Bem, logo que ingressou neste cargo, a união estável entre casais do mesmo sexo foi permitida no Brasil e ele foi imediatamente informado de que caso houvesse tal situação no cartório, ele não poderia se negar a fazer o casamento, por motivos óbvios.
E isso sempre foi uma preocupação para ele. Como confrontar os ensinamentos religiosos aos direitos civis? Como uni-los? Ele se justificava. Dizia que não via mal nenhum neste tipo de relacionamento. Dizia que a lei é legítima. Afirmava ser este um direito inegável. Mas, por outro lado, pedia compreensão. Dizia-se um homem velho, criado em outros tempos. Temia ficar tenso ou evidenciar desconforto com o casal no momento da cerimônia.
Eu, de cá, que não tenho mais mãos para carregar tantas bandeiras, conversava com ele. Compreendia suas tensões, até porque creio como o Martin Luther King que a gente não nasce com preconceitos, eles são ensinados por muitas agências sociais. E isso não vale só para Católicos (vales para Espíritas, Candomblecistas, Evangélicos, Ateus e Agnóstcos). Mas eu brincava, dizendo que estava rezando para ele realizar logo um casamento gay. Eu me disponibilizava para auxiliá-lo neste momento.  Ele sorria amarelo. E hoje, ele feliz da vida, me noticiou por e-mail que o momento chegou e da forma mais bela. Mandou o e-mail com os seguintes dizeres: “Minha filha, o Juiz de paz casou na última sexta-feira duas médicas veterinárias que já conviviam há trinta anos. Não foi fácil para este velho arcaico, mas, graças a Deus me portei com a maior espontaneidade e sinceridade possível. Uma com 67 anos e outra com 56”.
 Na minha leitura, ele estava dizendo que, de certa forma, celebrou uma união sólida entre duas mulheres. O velho arcaico não parou no tempo, nem deixou se impregnar pelos preconceitos que alguns homens e mulheres da Igreja Católica (ou de qualquer outra igreja) permitem disseminar. Ele fez o que tinha de ser feito de forma verdadeira, aceitando suas limitações, mas acima de tudo respeitando o direito inalienável do outro ser humano de ser feliz, realizando as escolhas que indicam o ser que ele ou ela é.
E foi isso que, sim, me encheu de alegrias e esperanças. Não sei o que os gays, os católicos, os cristão vão pensar do que digo. Sinceramente, me importo pouco. Celebro, sim, o fato. Comemoro o orgulho de meu pai por si mesmo, porque ele não cedeu ao preconceito e a discriminação a que os homens de sua geração e religião foram ensinados. Ele seguiu a sua consciência. Meu pai foi uma anti-Paula Lavigne. Respeitou a sua condição humana, de fragilidade (todos guardamos em nós algum preconceito), mas fez o que era certo, principalmente, ao meu ver, o que era bom. Ele fez o que de mais belo alguém pode fazer: garantiu o direito do outro como se fosse o dele mesmo. Por isso me orgulho deste pai arcaico, porque para mim ele fez o que eu acho que Jesus Cristo chamaria de ‘se irmanar’ com toda a humanidade, independente de seus credos, orientações sexuis, cores, classes sociais. Mas acho que isso é idealismo ou aquela coisa que ainda não tem nome!

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

OS DOIS MUNDOS DE PERSERFÓNE!



Numa triste madrugada de 19 de setembro de 2013.

Quando a tristeza é um pequeno ponto de tinta vermelha que aporta num enorme balde de água límpida e, aos poucos, se espalha, contamina e se instala na imensidão translúcida, plantando um marrom sujo de terra, a gente não pode mais ir ao mundo para passear, sorrir ou dançar. Resta-nos encontrar um canto para nos encolher a espera da transposição das águas ou da mudança das estações. A chuva abundante apaga toda possibilidade de sol.
É que ela – a tristeza – vem sempre acompanhada. Desta vez, trouxe a morte para me fazer visitas e lembrar que cedo ou tarde, para quem já viveu muitas travessias marítimas ou para quem ainda tinha o seio carregado de leite, o fim da vida é certo, nos surpreende, nos tira do jogo. Quando? Não sabemos. O porquê? Muito menos. Acontece. Todos os dias e horas e minutos. Nós é que fingimos não ver...
E, a maior verdade, é que a certeza da morte a mim assusta. Como dizia Millôr Fernandes, assusta não só pela morte em si, mas, sobretudo pelo o que ela nos tira. E ela não só debita em nossa conta o desaparecimento de quem morre. Ela deflagra para nós a certeza da sempre proximidade de extinção da nossa própria vida. A morte nos tira a nossa ilusória paz. Lembra-nos da nossa própria perecividade. Puxa nossa orelha e grita: a vida é boa, mas finita. Acorda-nos para a única e maior certeza: nós e os nossos, um dia, iremos... Seguiremos sós, como sempre estivemos!
Olho o balde de água marrom novamente e nele encontro refletida uma fresta de janela. Onde neste instante só chovia, sem em mim nada lavar, agora aparece um sol timidamente radiante. É o mesmo sol que eu insistia em desenhar e aquela chuva renitente fazia desaparecer. Ele agora queima minhas orelhas. Não o vejo com nitidez, apenas o sinto. Temo novas chuvas. Em mim, há marcas que denunciam: o frio não foi nem nunca irá embora de todo. Ainda que enfraquecido, retornará.
Porque somos todos Persérfones que, escolhemos invernar a vida, por alguns meses, cortando cordões umbilicais, afastando-nos do seio materno, legando aos homens o frio, a neve, o vento e a chuva. Para só no depois, retornarmos, irradiando sóis, flores e frutas mundo a fora. Somo aqueles que - por força da sina - temos que conciliar nossa existência entre o que está embaixo da terra e o que está sob ela. Não é fácil habitar dois mundos tão díspares: o do fim e o do eterno começo. Nem parece possível, mas eis a sina de todo o humano!
Por hora, há prenúncios de primaveras tardias. O inverno que extingue a vida também quer descansar e dar tréguas. É hora de Persérfone, ainda que provisoriamente, deixar Hades e retornar ao encontro de sua mãe, Deméter. Encho-me de novas delicadezas e esperanças. Ao imperativo da morte, só nos resta celebrar com a vida que ainda nos persegue. Por enquanto – só por enquanto – está em nós! Para aos que já terminaram suas trajetórias pelas bandas de cá, presenteemos com saudades, desapegadas de tristeza. Para nós que por cá ainda estamos, bebamos das águas que sempre retornam ao seu curso abundante, conscientes de que a fonte, um dia, seca!

*In Memoriam para Oswaldo Moreno (já depois dos 80 anos) e Alessandra Pereira (ainda na casa dos 30 anos).