Postagens populares
quarta-feira, 21 de maio de 2014
AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: O HOMEM DAS POMBAS
AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: O HOMEM DAS POMBAS: Às vezes sou agraciada com uma imagem do cotidiano, nem sei o porquê disso. Nesses momentos, só tenho vontade de inventar alguma manei...
O HOMEM DAS POMBAS
Às
vezes sou agraciada com uma imagem do cotidiano, nem sei o porquê disso. Nesses
momentos, só tenho vontade de inventar alguma maneira de eternizar este
presente gratuito. Acontece comigo todas as manhãs. Não, não vou exagerar.
Acontece nas manhãs em que me digno a acordar cedo e caminhar na Orla de Vilas
do Atlântico.
Bem
cedo, mais ou menos umas seis da manhã, ele surge, o Homem das pombas. Veste
todos os dias a mesma roupa: uma calça surrada de pano marrom, uma camisa de
botão com mangas curtas e cor clara. Nas mãos, traz um saco de pão cheio de
farelos e acho que sementes. Ele desponta e as pombas já começam a segui-lo. Na
verdade, elas começam a surgir vagarosamente, de muitas direções.
Depois
de sua entrada litúrgica no caminho que leva à praia, o Homem das pombas,
senta-se em frente ao mar, abre um livro grosso de capa resistente marrom que
parece ser a Sagrada Escritura e começa a entoar cânticos de louvor. Ao mesmo
tempo que ele canta, põe a mão no saco de papel e de lá – num gesto leve e
calmo – retira o alimento das aves. O céu fica salpicado de pontinhos ocres e
elas vêm em bando. Não são cem. São muito mais. Meu olhar embevecido diria que
são milhares.
E
eu, contemplando a cena, me pergunto: haverá, meu Deus, uma explicação
científica para isso? Ou elas, as pombas já agradecidas iluminam a passagem do
homem pela sua boa ação diária? Vai saber...
Lembro-me
de Cecília em sua janela de felicidades e transformo o verso em pergunta: será
que essa imagem existe para todos ou “só existe diante das minhas janelas”?
Asseguro que o Homem das pombas é de verdade. Tenho testemunhas. Mas não posso
afirmar que para todos, ele conceda esse alumbramento.
Um
dia em que chegamos no mesmo horário à praia, fui em direção a ele, tomei
coragem e perguntei coisas vagas, tentando entender o porquê daquela diária
missão poética. Ele me respondeu caoticamente. De seu olhar, reverberava uma
loucura sã. Disse que, no passado, tivera uma vida errante. Envolveu-se em
crimes, abuso de drogas e estivera preso por muitos anos. Na cadeia, encontrou
Jesus. Não sei se numa visita carcerária. O fato é que daí se arrependeu de
seus pecados e prometeu que, após sair da cadeia, louvaria a liberdade todos os
dia de sua vida. Reverenciaria aqueles que se elevam aos céus em sinal de seu
total desprendimento à matéria e representam a mais íntima e verdadeira
libertação: os pássaros.
Essa
é para mim a imagem mais franscicana que meus olhos já captaram em vida. No dia
em que conversamos, senti-me atordoada e um pouco sem chão... Ele tentara me
convencer de que eu também precisaria me converter antes do fim dos tempos. Só
não entendi se eu deveria me doutrinar à fé em Cristo ou à missão poética.
Achei que os dois caminhos exigiam um desapego radicalmente intenso demais para
gente rasa como eu.
Enfim,
após meses de devoção minha ao Homem das pombas, compreendi que nem tudo são
flores mesmo. E Cecília mais uma vez me explicou: “é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim”. De dentro de uma daquelas mansões situadas na Orla de
Vilas, ouvi um som seco de tiros. Ou seriam fogos? De início, pensei em
assassinatos. Depois, observei a repetição do barulho, a fumaça e confirmei: eram
fogos.
Certamente,
pelo horário da manhã, espocavam em homenagem a algum orixá do candomblé. Logo
depois, descobri que a intenção dos fogos não era essa. O caseiro da dita
mansão, com o rojão em riste, gritava, para espantar as pombas. Ele
esbravejava, reclamava da balbúrdia que elas, por causa do Homem, deixavam na
praia. Pombo é bicho sujo, condutor de doenças, bramia o operário, seco de
razão, sem poesia, mas inquestionável em seus argumentos.
Eu
olhava tudo despida de poesia. Perplexa. Entristeci-me. O que era louvor e
contemplação para mim constituía-se obrigação religiosa para o Homem das
pombas. O que era louvor e contemplação para mim constituía-se tarefa doméstica
diária, sofrida, opressiva e exploratória para o empregado.
Fiquei
em silêncio entre os dois. As pombas despertaram em fuga. E eu, solitária, constatei...
O romântico, em frente à amplitude do mar, alimenta as pombas e louva a vida. O
realista, já cansado de limpar todos os dias, tardes e noites tanto coco de
pombo, espanta-os com tiros secos. E eu fico de que lado? Jamais soube. Não sei
suportar tal dicotomia. Nunca saberia quem estava com o direito. Abortei minhas
caminhadas filosóficas diárias. Abdiquei do fim desse enredo.
No
meu mundo ideal, invento que eles entraram num consenso. Agora, ambos louvam a
liberdade sem sujar os jardins alheios. De longe, sem ousar desfechos, prevejo um
mundo onde caseiros preocupados com cocos de pombo dialogam com os Homens das
pombas e quiçá se transformam neles.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
NO LUGAR DELE
Ela
não foi esperada. Na verdade, a desejaram profundamente. A quiseram. Mas não
queriam que ela viesse como veio. Queriam-na um homem. O enxoval era todo azul.
Seu nome já estava mais do que escolhido: Jorge Ermírio. Era o nome do avô. Um
nome forte, sisudo. Como ela – se ele fosse – deveria ser. Teria a rigidez, a
seriedade dele. Mas porque viria num outro tempo, viveria mais do que ele e
seria um tributo a existência do patriarca.
Mas
ele nunca veio. O que veio foi ela travestida em si mesma. E sem ser quem era
esperado, ela carregou para sempre essa marca, rasgada em si. Carregou como uma
chaga aberta a certeza de que não viera para agradar. Sabia, aliás, pressentia
que na fila imaginária do antes da vida – talvez no céu onde os bebê se preparam
para existir – passara na frente do menino desejado, se antecipara a ele. E
sabe de uma, em vida, ela se arrependera da peripécia. Por que não deixara ele
vir? Por que não chegara numa casa cor de rosa onde sonhavam com uma delicada
menina? Era melhor esperar no antes da vida do que viver a vida assim, almejando
ser o que nunca seria. Desagradando mesmo com toda ânsia de querer agradar.
Poderia
ter ficado masculina. Poderia querer ser um homem. Poderia sonhar se travestir
em macho. Mas nem isso queria. Gostava de fragilidades. Sentia mais
sensibilidades do que os outros. Sua consciência já viera deformada em
delicadezas. Era uma mulher. Não tinha como fugir dessa certeza.
O
pai, desde que soubera da sua chegada, enfezara-se. Fechara-se para o mundo.
Não sabia ser desagradado. Ele também ficara sozinho. Zangou-se com ela e
trocou de mal para sempre. Não haveria companhias para assistir aos jogos no Maracanã; não teria sucessores em sua empresa nem com quem conversar sobre
coisas de homem. Não veria na face de outro a sua própria história. Por culpa
dela, teria que passar uma vida inteira numa casa cercada de mulheres. Pior!
Por culpa dela, deveria lutar sozinho contra aquelas quatro feras cooperativadas
em rebelião.
Ela,
renitente, apagava da lembrança essa tristeza que insistia em, por qualquer
descuido seu, vir à tona. Ela sempre soubera mesmo que ele nunca tenha dito. Ouvia
da tia, da amiga da tia, da irmã da tia, da prima da tia. Ele nunca lhe
quisera. Nem lhe quer. Ele é infeliz, taciturno e triste, porque você veio sem
ser chamada, sua intrometida. E o castigo da fada que não fora convidada para a
abençoar não seria o adormecimento profundo da menina. Ela tanto desejara isso.
Não! O castigo era outro. O castigo era ficar. O castigo era ter que lidar para
sempre com sua irritante mania de contrariar. A coitada ensaiava acertar.
Ficava horas e horas frente ao espelho, treinando o ato preciso, a hora certeira
para fazer-se amada. Mas na hora da verdade, se atrapalhava e fazia justamente
o contrário do que preparara. Metia pés e mãos por todos os lados, menos por
aqueles ansiados.
Hoje,
balzaquiana, não duvida do amor a duras penas construído entre ela e quem não a
quisera. Nunca perdeu a mania de desculpar-se por ter vindo no lugar do outro.
Jamais ouviu uma palavra de absolvição. Ela mesma acredita que não a merecia. A
marca funda se abre e se fecha todos os dias. O nó da garganta nem os anos de
terapia conseguiram fechar. Não há retornos. Ela sabe que deverá até o fim de
sua vida carregar a sua história como uma cruz. Não é isso que todos fazem? Mas
como dói.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: ACENDE UMA ESTRELA (Ou: Uma outra Macabéia)
AS MALUQUICES NOSSAS DE CADA DIA: ACENDE UMA ESTRELA (Ou: Uma outra Macabéia): Acabou a era das mulheres que se vitimizam. Isso é coisa do passado. Ser desdobrável parece que é algo permanente, mas ser uma espécie...
ACENDE UMA ESTRELA (Ou: Uma outra Macabéia)
Acabou
a era das mulheres que se vitimizam. Isso é coisa do passado. Ser desdobrável
parece que é algo permanente, mas ser uma espécie envergonhada, nem pensar.
Vide Macabéia, que todo mundo acredita que morreu, mas está “vivinha da Silva”
e mora na beira da praia numa cidade próxima a capital baiana.
É
bem verdade que, atordoada com as declarações da cartomante, andou a esmo pelas
ruas, meio embriagada, e pum... Foi atropelada. Mas os poucos amigos (se é que
podemos chamar aqueles lá desse nome) que a conheciam viram o corpo estendido
no chão, a deram como morta e se livraram do problema, saindo da cena de
fininho. O que ninguém sabe (e é bom mesmo que não saibam) é que minutos depois
veio uma ambulância, carregou o corpo frágil e a levou ao hospital. Havia um
fiapo de vida como sempre houvera. E Macabéia passou quase um mês em coma.
Um
belo dia, acordou. Ninguém nunca a procurara. Estava meio tonta, mas uma
enfermeira negra e gorda, de pele lustrosa, tratou logo de dizer a ela toda
verdade. E aí, quando se lembrou do namorado, da amiga, da cartomante, foi subindo
um ódio, uma raiva, que ela levantou, puxou de um rompante os fios que estavam
espetados em seu corpo e, pela primeira vez, gritou a plenos pulmões. Talvez seja
isso que chamam de catarse.
Pois
bem, saiu do hospital com a roupa do corpo e voltou ao quarto onde morava na
Rua do Acre. O porteiro quando a viu quase desmaiou de susto. Pegou a chave no
mesmo xaxim onde costumava deixar escondido e entrou em sua antiga casa. Abriu
a porta, sobressaltada, pegou uma faca bem afiada e tomou um copo de água,
antes de realizar o que ali viera fazer. Decidida, dirigiu-se ao quarto e com a
raiva que agora arrepiava sua pele rasgou o colchão. Lá estava toda sua poupança.
Tirou o dinheiro e foi direto para a rodoviária.
Pensou
em retornar a sua cidade natal. Viu que morar no Rio de Janeiro
era sempre um problema. Baixa tolerância aos nordestinos. Achou que voltar para
o Sertão sem marido e pobre seria um atestado de fracasso. Aí, decidiu ficar no
meio do caminho. A Bahia. Era nordestina num estado nordestino, mas lá não
tinha conhecidos, nem familiares para fazerem cobranças ou para, pretensamente,
a ajudarem com falsidades e explorações. Antes só do que mal acompanhada, essa
era a maior lição que aprendera com o ex-namorado.
Com o dinheiro que tinha, comprou
passagem, alugou uma casa por um mês e tratou de ir numa loja comprar roupas e
sapatos sensuais e da moda. Decotes, ombros a mostra, fendas largas, roupas
vermelhas. Ainda sobrara uma graninha para umas poucas maquiagens. Tudo pela
primeira vez. E como decidiu viver da profissão mais antiga da humanidade, teve
em sua primeira noite de trabalho sua estréia no prazer.
E assim, da difícil vida fácil,
arrancou seu sustento por alguns anos. Mas, como também aprendera que nada era
definitivo em sua nova trajetória, Macabéia mudou de profissão. De uma hora
para outra, abriu um salão no bairro popular onde morava. E fez sucesso, viu?
Porque em toda mulher, ela encontrava beleza. Não acreditava ou defendia
padrões. Só não admitia as tímidas ou despojadas. Queria todas as suas clientes
cheias de brilhos e cores. Não ser notada? Nem pensar.
E como diz a canção: “com alguns
homens foi feliz, com outros foi mulher”. Viveu intensamente o amor. Casou,
descasou, separou, se amancebou. Traiu e foi traída. Agora, resolveu viver só e
muito bem acompanhada. Tem uns amigos coloridos. O cara da manutenção é menino
novo. Vai lá sempre que ela ou ele precisam. Tem muita gente boa que a acompanha
para farrear. Aprendeu a beber e sabe todos os points festivos da capital baiana. Não perde um ensaio de verão e
não paga para entrar em qualquer lugar. Quando não é o porteiro ou o segurança,
é o rico empresário que foi iniciado nos prazeres da carne pela velha Macabéia
que financiam sua diversão.
Macabéia
decidiu colocar a cara a tapa, decidiu olhar as pessoas de frente. Nunca mais
se anulou. É uma mulher pós-moderna. Dona de seus gostos, de seu gozo, de suas
decisões, de seu corpo. Em cartomantes, não acredita mais. Só crê na força dos
orixás e em sua mãe de santo. Por sinal, não deixa de cumprir uma obrigação.
Geralmente, só tem a agradecer. Mas, ai de quem pisar em falso em seu caminho.
É capaz de trancar a vida toda da pessoa com um feitiço ou uma praga. Macabéia
é uma Iansã desbocada. Não leva desaforos para casa e peita qualquer um que
tente a intimidar.
Da
alagoana que só tinha o terceiro ano primário e escrevia mal, restou bem pouco.
Talvez quase nada. Ainda tem dificuldade nos usos de s ou z, mas escreve um
diário e sonha publicar em livros sua história de vida. Nunca mais foi tola. A
ironia é que ela agora é mais jovem do que aos dezenove anos. Não sonha com o
porvir. Vive cada dia com voracidade. Nunca mais abortou o futuro de que engravidara
nem precisou se matar para viver novamente. Sua estrela brilhara em boa hora e
parece que ainda ia demorar para se apagar.
domingo, 27 de outubro de 2013
JUIZ DE PAZ E BEM!
Me
dizem idealista. Quem sou eu? Não sou tanto. Sou menos, bem menos. Só
acredito num mundo mais humano, mais feliz, mais democrático, mais
igualitário. Aff, mais tanta coisa. Isso nunca foi idealismo. Isso é,
segundo Clarice, algo que ainda não nomearam. Pois bem, além disso,
tenho uma danada de uma esperança que me segue, se gruda em mim, toda
faceira e me faz gostar de horizontes, céus azuis, ventos quentes na
cara.
Mas
minhas famílias são bem isso. Ambas cheias de humor para lidar com as
intempéries da vida. E, não querendo ser bairrista (mas já sendo), acho
que ser nordestina ajuda muito nesta forma leve de ver a vida. Nestas
minhas andanças por outras terras, noto que nós, ao lidarmos com o vôo
que atrasa, com o salto que quebra, com a crítica inesperada, não
berramos irritados, com tudo e com todos. Tendemos a nos ‘retar’, rindo.
Geralmente, ficamos zangados, reclamamos, usando do sarcasmo, da
picardia, da ironia, do bom humor. Sei lá. Confundem-nos com alienados,
passivos. Mas é nada disso. É só nossa forma de agir no mundo que se
sustenta na nossa crença de que a vida, apesar de tudo, é boa...
Pois
bem, hoje eu me enchi de vaticínios de um mundo mais bonito. Na
verdade, nem começou assim. Eu estava assistindo Paula Lavigne (espero
que ela não me processe) no Programa Saia Justa, em um debate acirrado
sobre a autorização de biografias no país. Em um dado momento, a ex de
Caetano Velloso, reclamando direito a privacidade, expõe a vida amorosa
da jornalista Barbara Gancia. Ou melhor, age da mesma forma que ela não
quer que ajam com ela. E isto não me encheu de esperanças. Pelo
contrário, me deixou bem triste e descrente. Me fez coçar a cabeça,
torcer o bico e, por menos de um minuto, pensar que o revide é prática
mais corriqueira do que a escuta. Me fez pensar que quem se coloca como
vítima não tem o menor pudor de escrachar com o outro (seja ele o algo
que vitimiza ou uma outra vítima também). Me fez compreender que muita
gente para defender sua bandeira detona com a dos outros. É o evangélico
acabando com a vida do gay que detona todo católico que discrimina o
candomblecista que pune a mãe de família que ofende a prostituta que
agride o homem que marginaliza o pobre... Ahhhh... Esta lista não tem
fim.
Mas
Deus é tão bom. Só me deu pouco tempo para a tristeza, porque aí, ao
terminar o programa da GNT, fui acessar meus e-mails e me deparei com
uma mensagem de meu pai. Ele não dispensa apresentações. Até porque
adora ser o centro das atenções. Meu pai é cristão (desde pequenininho),
mais do que isso, católico, educado numa família super carola. Hoje é
cheio de cargos e postos na Igreja. Nunca ganhou um centavo. Pelo
contrário, só gastou! Eu acho até que ele é padre. Porque para mim (e
para a maioria das pessoas), padre é quem faz celebrações em Igrejas, é
quem ministra a hóstia na Eucaristia, é quem faz sermão. E ele faz tudo
isso. Celebrou até meu casamento (que não foi nem católico nem em
Igreja).
É
óbvio que aos 71 anos, ele crê nos dogmas da Igreja Católica,
respeita-os, segue-os. Já discutimos tanto por isso. Mas, que a Santa Sé
nunca descubra, ele e minha mãe são religiosos bem ‘moderninhos’.
Representam para mim o que há de mais humano no Cristianismo.
Apresentaram-me um Cristo, do qual eu não desgrudo, mesmo não sendo mais
católica. Porque me educaram mostrando o Jesus solidário que não atira a
pedra na prostituta; o Jesus ousado que açoita os vendilhões do templo,
o Jesus que não é hipócrita e ceia na casa de Zaquel, o Jesus poético
que deixa a pecadora ungir seus pés e secá-lo com seus cabelos.
Além
disso, meu pai é empresário, candidato a escritor e, atualmente, se
orgulha por ser o Juiz de Paz da cidade onde moro. Vale ressaltar que
esta é também uma das suas muitas tarefas não remuneradas. Ele gosta
muito do título, porque como afirmei, ele é meio amostrado (e eu nem
posso falar de gente assim), mas, acima disso, ele vê a função como uma
responsabilidade social. Bem, logo que ingressou neste cargo, a união
estável entre casais do mesmo sexo foi permitida no Brasil e ele foi
imediatamente informado de que caso houvesse tal situação no cartório,
ele não poderia se negar a fazer o casamento, por motivos óbvios.
E
isso sempre foi uma preocupação para ele. Como confrontar os ensinamentos religiosos aos direitos civis? Como uni-los? Ele se justificava. Dizia que
não via mal nenhum neste tipo de relacionamento. Dizia que a lei é
legítima. Afirmava ser este um direito inegável. Mas, por outro lado,
pedia compreensão. Dizia-se um homem velho, criado em outros tempos.
Temia ficar tenso ou evidenciar desconforto com o casal no momento da
cerimônia.
Eu,
de cá, que não tenho mais mãos para carregar tantas bandeiras,
conversava com ele. Compreendia suas tensões, até porque creio como o Martin Luther King que a gente não nasce com preconceitos, eles são ensinados por muitas agências sociais. E isso não vale só para Católicos (vales para Espíritas, Candomblecistas, Evangélicos, Ateus e Agnóstcos). Mas eu brincava, dizendo que
estava rezando para ele realizar logo um casamento gay. Eu me
disponibilizava para auxiliá-lo neste momento. Ele sorria amarelo. E
hoje, ele feliz da vida, me noticiou por e-mail que o momento chegou e
da forma mais bela. Mandou o e-mail com os seguintes dizeres: “Minha filha, o
Juiz de paz casou na última sexta-feira duas médicas veterinárias que
já conviviam há trinta anos. Não foi fácil para este velho arcaico, mas,
graças a Deus me portei com a maior espontaneidade e sinceridade
possível. Uma com 67 anos e outra com 56”.
Na
minha leitura, ele estava dizendo que, de certa forma, celebrou uma
união sólida entre duas mulheres. O velho arcaico não parou no tempo,
nem deixou se impregnar pelos preconceitos que alguns homens e mulheres
da Igreja Católica (ou de qualquer outra igreja) permitem disseminar.
Ele fez o que tinha de ser feito de forma verdadeira, aceitando suas
limitações, mas acima de tudo respeitando o direito inalienável do outro
ser humano de ser feliz, realizando as escolhas que indicam o ser que
ele ou ela é.
E
foi isso que, sim, me encheu de alegrias e esperanças. Não sei o que os
gays, os católicos, os cristão vão pensar do que digo. Sinceramente, me
importo pouco. Celebro, sim, o fato. Comemoro o orgulho de meu pai por
si mesmo, porque ele não cedeu ao preconceito e a discriminação a que os
homens de sua geração e religião foram ensinados. Ele seguiu a sua
consciência. Meu pai foi uma anti-Paula Lavigne. Respeitou a sua
condição humana, de fragilidade (todos guardamos em nós algum
preconceito), mas fez o que era certo, principalmente, ao meu ver, o que
era bom. Ele fez o que de mais belo alguém pode fazer: garantiu o
direito do outro como se fosse o dele mesmo. Por isso me orgulho deste pai arcaico, porque para mim ele fez o que eu acho que Jesus
Cristo chamaria de ‘se irmanar’ com toda a humanidade, independente de seus credos, orientações sexuis, cores, classes sociais. Mas acho que isso é idealismo ou aquela coisa que ainda não tem nome!
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
OS DOIS MUNDOS DE PERSERFÓNE!
Numa
triste madrugada de 19 de setembro de 2013.
Quando
a tristeza é um pequeno ponto de tinta vermelha que aporta num enorme balde de
água límpida e, aos poucos, se espalha, contamina e se instala na imensidão translúcida,
plantando um marrom sujo de terra, a gente não pode mais ir ao mundo para
passear, sorrir ou dançar. Resta-nos encontrar um canto para nos encolher a
espera da transposição das águas ou da mudança das estações. A chuva abundante
apaga toda possibilidade de sol.
É
que ela – a tristeza – vem sempre acompanhada. Desta vez, trouxe a morte para
me fazer visitas e lembrar que cedo ou tarde, para quem já viveu muitas
travessias marítimas ou para quem ainda tinha o seio carregado de leite, o fim
da vida é certo, nos surpreende, nos tira do jogo. Quando? Não sabemos. O
porquê? Muito menos. Acontece. Todos os dias e horas e minutos. Nós é que
fingimos não ver...
E,
a maior verdade, é que a certeza da morte a mim assusta. Como dizia Millôr
Fernandes, assusta não só pela morte em si, mas, sobretudo pelo o que ela nos
tira. E ela não só debita em nossa conta o desaparecimento de quem morre. Ela
deflagra para nós a certeza da sempre proximidade de extinção da nossa própria
vida. A morte nos tira a nossa ilusória paz. Lembra-nos da nossa própria
perecividade. Puxa nossa orelha e grita: a vida é boa, mas finita. Acorda-nos
para a única e maior certeza: nós e os nossos, um dia, iremos... Seguiremos
sós, como sempre estivemos!
Olho
o balde de água marrom novamente e nele encontro refletida uma fresta de janela.
Onde neste instante só chovia, sem em mim nada lavar, agora aparece um sol
timidamente radiante. É o mesmo sol que eu insistia em desenhar e aquela chuva
renitente fazia desaparecer. Ele agora queima minhas orelhas. Não o vejo com
nitidez, apenas o sinto. Temo novas chuvas. Em mim, há marcas que denunciam: o
frio não foi nem nunca irá embora de todo. Ainda que enfraquecido, retornará.
Porque
somos todos Persérfones que, escolhemos invernar a vida, por alguns meses, cortando
cordões umbilicais, afastando-nos do seio materno, legando aos homens o frio, a
neve, o vento e a chuva. Para só no depois, retornarmos, irradiando sóis,
flores e frutas mundo a fora. Somo aqueles que - por força da sina - temos que
conciliar nossa existência entre o que está embaixo da terra e o que está sob
ela. Não é fácil habitar dois mundos tão díspares: o do fim e o do eterno
começo. Nem parece possível, mas eis a sina de todo o humano!
Por
hora, há prenúncios de primaveras tardias. O inverno que extingue a vida também
quer descansar e dar tréguas. É hora de Persérfone, ainda que provisoriamente,
deixar Hades e retornar ao encontro de sua mãe, Deméter. Encho-me de novas
delicadezas e esperanças. Ao imperativo da morte, só nos resta celebrar com a
vida que ainda nos persegue. Por enquanto – só por enquanto – está em nós! Para
aos que já terminaram suas trajetórias pelas bandas de cá, presenteemos com
saudades, desapegadas de tristeza. Para nós que por cá ainda estamos, bebamos
das águas que sempre retornam ao seu curso abundante, conscientes de que a
fonte, um dia, seca!
*In
Memoriam para Oswaldo Moreno (já depois dos 80 anos) e Alessandra Pereira
(ainda na casa dos 30 anos).
Assinar:
Postagens (Atom)